Nesta quinta-feira, 19, quando se comemora o Dia Mundial da Fotografia, Coletiva.net traz uma série especial com fotógrafos gaúchos dos mais variados nichos de atuação, para compartilhar o trabalho favorito de uma vida inteira dedicada aos cliques.
Uma das principais referências no mercado publicitário, Celso Chittolina tem quase quatro décadas de atuação atrás das câmeras fotográficas e contou ao portal a história por trás de uma imagem aparentemente simples, mas que o faz lembrar de algo bem emblemático.
A imagem escolhida por Chittolina tem mais de 20 anos e conta uma história que não retrata a imagem em si, mas uma dos momentos mais incríveis da carreira dele. Foi um trabalho feito em Havana, Cuba, em 2000, para um cliente do setor calçadista.

O cenário escolhido foi o Hotel Riviera, da década de 1950, em estilo Art Decó, construído pela máfia. Numa pausa para conversar, o fotógrafo dialogava com um dos motoristas que lhe fora designado pelo governo para levar aos destinos. Afinal, havia registros que eram desinteressantes sob a ótica daquele país.
“No bate-papo com Figueroa (o motorista), descobri que ele já havia trabalhado com um fotógrafo que havia se tornado muito amigo dele. Quando questionei de quem se tratava, descobri que era o Alberto Korda”, contou Chittolina ao portal. O nome em questão é nada menos do que o autor de uma das fotos mais clássicas e mais utilizadas de Che Guevera (feita durante o cortejo fúnebre dos mortos no ataque terrorista ao navio La Coubre, em 1960).
Não bastasse conhecer o renomado profissional, ele se prontificou a apresentá-lo ao gaúcho, levando-o à casa dele. “No dia seguinte, tive que me desculpar com o cliente, pois não poderia trabalhar. Percebi que era uma oportunidade que caiu do céu e decidi que precisava aproveitá-la.”
Chegou à casa de Korda e permaneceu no carro para que o intermediador fizesse as devidas apresentações. Não demorou para avistar o fotógrafo na janela, acenando para que Chittolina entrasse. “Foi um dos encontros mais felizes da minha vida profissional, extremamente gratificante. Não apenas pela recepção, que é característica do povo cubano, mas o quanto são solidários com quem recebem”, enalteceu.
Tiveram um longo dia de conversas, mostras de fotografias, assuntos diversos, que passaram por trabalho, política – Korda era o fotógrafo oficial do governo de Fidel Castro. “Foi maravilhoso, divino e isso marcou muito a minha carreira pois, no meio de um circuito profissional, aconteceu algo tão cultural, interessante e bonito com um fotógrafo extremamente consagrado, que me recebeu como uma pessoa normal, solidária”, completou.
Ao final do encontro, o amigo motorista pediu que Chittolina retribuísse e, agora, fizesse por ele algo bom. Mesmo receoso, garantiu que o faria. Qual foi o pedido? Apenas que o gaúcho fosse conhecer sua família. Um novo encontro local, festivo e de muita conversa. No meio disso, Figueroa sumiu por alguns instantes e retornou com uma caixa de fotografias. Entre elas, uma especial: Fidel e Korda juntos em homenagem ao casamento do motorista, do qual o fotógrafo cubano fora padrinho.
“Ele pegou aquela foto, fez uma dedicatória para mim e me pediu que levasse comigo para o Brasil, pois era importante para ele. Fiquei atônito, sem entender o motivo de receber algo tão emblemático. Mas fui alertado pela sua esposa de que, em Cuba, recusar um presente era um desaforo inaceitável. Aceitei e guardo ela até hoje a sete chaves, pois foi algo muito significativo”, contou.
A história inusitada rendeu, além de um agradável dia, relações com Cuba mantidas até hoje. Não apenas com Figueroa, mas o contato seguiu com Korda até seu falecimento no ano seguinte. Atualmente, o gaúcho segue falando com o filho do fotógrafo cubano, que mora na França.

