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Entre o medo e a adrenalina: Rodrigo Lopes celebra 30 anos de carreira

Jornalista teve seu primeiro contato com a redação em dezembro de 1996, como office boy

Rodrigo Lopes conversou sobre os 30 anos de carreira com o Coletiva.net. - Crédito: Arquivo pessoal

Com o equilíbrio entre o medo e a adrenalina, o jornalista Rodrigo Lopes se permite viver coberturas de guerras, tragédias, religião e desastres climáticos. O profissional iniciou sua carreira em 23 de dezembro de 1996, como office boy —  que era chamado de auxiliar de redação — no Grupo RBS, quando cursava o primeiro semestre da faculdade de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Após esse primeiro contato, passou por diferentes áreas dentro da redação, incluindo setores de apoio. Hoje, após três décadas de carreira, Rodrigo coleciona histórias de uma trajetória marcada pela paixão pelo seu ofício.

Uma escolha diária

Em exclusiva à reportagem do Coletiva.net, não faltaram relatos sobre a carreira, os desafios e os aprendizados. Embora tenha concluído a graduação em 2001 e defenda a importância do diploma para o exercício da profissão, Rodrigo entende que sua formação profissional começou em 1996, quando pisou na redação. 

Se há tantos anos alguém se dedica há algo, é porque há admiração e gosto pelo que se faz. Para ele, o Jornalismo tem um papel a ser desenvolvido e estar inquieto e revoltado diante da desigualdade, da injustiça, da violência e da violação dos direitos humanos é um dever e o que dá sentido ao seu ofício. “Acho sempre que o jornalista tem que ser uma pessoa um pouco revoltada sobre como as coisas são dadas”, argumentou.

Rodrigo acredita que, se um dia perder esse sentido, deverá deixar a profissão. “Enquanto isso, ainda acredito que, com o Jornalismo, é possível mudar o mundo, ou, no mínimo, dar uma sacudida nele”, completou.

O mundo é aqui

O público pode entender a editoria ‘Mundo’ como algo distante, e Rodrigo considera que esse é um de seus desafios: mostrar que o sofrimento de outras pessoas, mesmo que distante, de alguma forma, é semelhante aos de quem as lê. 

“Na Líbia e na Ucrânia, as pessoas sonham, desejam, têm aspirações e sofrem também. Então, eu acho que aproximar esses dois mundos: o mundo distante e local é o meu desafio”. Ele entende que o intuito do comunicador é aproximar essas pessoas do público e despertar do leitor alguma empatia. 

No âmbito pessoal e profissional, o comunicador vê a editoria como uma oportunidade de testemunhar grandes acontecimentos ao vivo. Nesse sentido, Rodrigo também salientou a gratidão que sente pelo Grupo RBS, por ser um veículo gaúcho, mas que está conectado com fatos nacionais e internacionais. 

Recordações das vivências 

Entre as mais de 40 coberturas internacionais, difícil seria escolher o momento que mais lhe marcou, pois cada uma tem sua característica. Em aspecto pessoal, sua recordação retornou para o terremoto no Haiti em 2010: “Foi a que me marcou mais do ponto de vista de emoção, no sentido de tristeza mesmo, de olhar um desastre”.

Cobertura do terremoto no Haiti. – Crédito: Arquivo pessoal.

Durante a cobertura do acontecimento surgiram também algumas dificuldades, entre elas estava a incerteza de saber se teria lugar para dormir ou mesmo combustível e comida para um próximo dia. “Me marcou muito do ponto de vista emocional”, afirmou. 

Do ponto de vista profissional, um dos momentos mais significativos foi a sua primeira cobertura em guerras, durante o conflito entre Israel e Líbano, em 2006. “Porque fui o único jornalista brasileiro a estar dos dois lados do front, tanto em Israel quanto no Líbano. Fiz uma série de reportagens finalistas do ‘Prêmio Esso’”, completou. O conteúdo foi intitulado ‘A Guerra Vista Pelos Dois Lados’.

Líbano 2006. – Crédito: Arquivo Pessoal.

Ainda assim, fazer reportagem em cenários de guerra se torna uma tarefa mais fácil, segundo Rodrigo. Isso porque há treinamento para esse tipo de cobertura. A dificuldade da circunstância está em sobreviver, manter a cabeça no lugar e confiar nas fontes. “A guerra é complexa do ponto de vista do trabalho profissional porque ela exige aptidões e qualidades que não são normais no jornalista”, ressaltou. 

Para realizar as coberturas nesses momentos, é necessário equilíbrio. Isso é explicado por Rodrigo: se houver medo demais, o repórter acaba não saindo do hotel; por outro lado, se não souber administrar a adrenalina, pode colocar sua vida em risco. “Então é um equilíbrio constante entre o medo e a adrenalina”, afirmou. 

Cenários difíceis 

Não entrar em locais onde não há planos definidos é uma das regras seguidas pelo jornalista. Mesmo assim, há momentos e situações que chegam sem avisar e até o mais precavido dos correspondentes estará desprevenido. É aqui que se destacam o improviso e a resiliência.

Uma das recordações de Rodrigo vem direto da Ucrânia. “As luzes do trem se apagaram no momento que estava no território ucraniano para que não fosse visto pelos mísseis da aviação russa. A minha fonte, que disse que ia me buscar na estação de trem, não apareceu, e tive que passar uma noite lá”, relembrou.

Mesmo com os imprevistos, foi possível fazer uma transmissão ao vivo para a Rádio Gaúcha diretamente do território ucraniano. Apesar do susto, Rodrigo ponderou que o jornalista normalmente consegue sair de cenários de Guerra, enquanto a população é quem enfrenta as maiores dificuldades. 

Antes da experiência na Ucrânia, em outro momento de sua carreira, o jornalista também teve a liberdade ameaçada. Em 2019, Rodrigo foi preso pelo regime de Nicolás Maduro, na Venezuela, e acabou ficando isolado e sem contato com outras pessoas durante duas horas. 

Foi somente após avaliarem suas publicações e perguntarem sobre sua editoria que pôde sair do local. Apesar do medo provocado pela vivência, Rodrigo voltou à Venezuela em janeiro deste ano, quando caiu o regime de Nicolás Maduro. As lembranças de tudo o que viveu retornaram durante a viagem, mas se manteve compartilhando sua localização com os colegas e enviando mensagens para informar sobre sua situação no país. 

Desta vez, Rodrigo não conseguiu chegar a Caracas devido às dificuldades encontradas no caminho, mas ressaltou o desejo de retornar ao país. “Quero voltar de cabeça erguida, dizendo que sou jornalista, mas é um país que me deixou com medo”, completou.

Diferentes formatos

Entre erros e acertos, a rotina de produzir conteúdos em diferentes formatos se incorporou ao seu trabalho de forma natural. Foi durante a eleição da Argentina, em 2003, que realizou sua primeira cobertura em multimídia, quando produziu material para o jornal impresso e também fez sua primeira entrada no rádio.

“Estava na frente do candidato que ia perder a eleição, o Carlos Menem. E ali eu resolvi, estou aqui para fazer a Zero Hora, mas só vou conseguir colocar no dia seguinte no jornal impresso. E aí, entrei ao vivo na rádio ali”, recordou. 

Ao longo da carreira, também produziu vídeos em profundidade e grandes reportagens, incluindo uma matéria sobre o Iraque que chegou a 19 páginas e webdocs — formato de conteúdos interativos. Atualmente, o foco está em vídeos curtos, que também possam criar uma conexão com o telespectador. Toda essa produção, no entanto, não deve abrir mão das premissas da profissão: “O jornalista pode ser um influenciador, mas ele não é um influencer”. 

Para o entrevistado, é possível ter um blog, mas o profissional não deve ser confundido com um blogueiro, pois sua atuação é baseada em um método. Rodrigo destacou que o Jornalismo trabalha com um método científico, a partir da triangulação de fontes e da busca por chegar o mais próximo possível da verdade.

Alguém que tem bagagem

Como alguém que já acumulou conhecimentos e experiências, além de ter atuado como docente, Rodrigo elencou pontos de atenção para quem está iniciando na carreira. Dedicar-se ao texto, dominar diferentes plataformas — e descobrir em qual tem melhor desempenho —, aprender novos idiomas e aproveitar as oportunidades de viajar são fatores que podem contribuir para a formação profissional. 

Para ele, é necessário se arriscar, mesmo diante do medo, já que talvez nunca se esteja totalmente preparado. Rodrigo contou que, quando lhe perguntam sobre como se preparou para as coberturas em guerra, diz que também sentia medo, inclusive por não saber se tinha lido o suficiente ou o que poderia acontecer durante o trabalho. 

Durante o bate-papo, também surgiu uma curiosidade sobre o jornalista: o medo de avião. Ele contou que sempre fica atento durante os voos, verificando se está tudo bem. A confissão busca reforçar que, mesmo com medo, é preciso seguir em frente. De acordo com Rodrigo, é importante se esforçar e encarar os desafios.

Próximas experiências 

Questionado sobre as expectativas pessoais e profissionais para o futuro, ele contou que se casou recentemente e que tem o desejo de ter filhos. Outras prioridades são o cuidado com a saúde, ler mais sobre assuntos de seu interesse e também buscar separar melhor a vida pessoal da profissional. 

Pretende continuar no Grupo RBS, produzindo Jornalismo Internacional. Autor de ‘Guerras e Tormentas’ e ‘Trem para Ucrânia: Viagem a um Lugar de Onde Todos Querem Sair’, Rodrigo deseja também desenvolver projetos próprios. “Quero cada vez mais fazer livros, documentários, séries e contar histórias de pessoas. De alguma forma, além disso, também gostaria de usar essa experiência dos 30 anos que eu vivi para dar cursos de forma mais autoral”, concluiu. 

Leia também: 

Rodrigo Lopes revisita 30 anos de carreira em série documental

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