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Entre verdades e “mentirinhas”, Sant”Ana se revela em público

Falou, declamou, cantou, riu e se emocionou durante uma hora e meia

Louco ou visionário? Adorável mentiroso ou bem-resolvido analisando? Um homem com uma certa dose de maldade, que se chama Paulo, ou um bondoso por natureza, denominado Pablo? Não é fácil definir a personalidade do jornalista Paulo Sant”Ana, especialmente depois de ouvi-lo falar com franqueza e emoção em público, durante uma hora e meia, como ocorreu na noite desta quinta-feira, 26, quando ele participou do talk-show comandado por seu amigo e colega Ruy Carlos Ostermann. Foi um encontro entre amigos, que quase 200 pessoas testemunharam no Studio Clio, enquanto, do lado de fora, duas ou três dezenas de admiradores não puderam entrar, mesmo tendo chegado 15 minutos antes da hora marcada para o início do encontro. “Ruy, fiquei espantado”, disse o convidado da noite. “O ingresso aqui é gratuito, mas tinha uns cinco cambistas ali fora!”.

Que estava ali com seu “único terno” (e uma gravata vermelhona) era certamente mais uma mentira maravilhosa, como definiu Ruy, às gargalhadas. Mas, quando diz que fuma três carteiras de cigarro por dia, apesar da saúde debilitada, e que fuma mesmo tomando banho (e encena para o público como consegue realizar a proeza), e que mesmo quando esteve internado numa UTI, cheio de tubos, deu um jeito de driblar atentas enfermeiras para dar mais umas pitadas – era o Paulo mentiroso ou o Pablo bondoso que se confessava em público? Difícil saber onde está o limite da realidade quando este quase septuagenário despeja frases com uma fluência natural. 

Com isto, frases de efeito não faltaram: “Eu defendo que todo mundo deve ser igual, acho uma crueldade ver que uns são mais bonitos que outros, ou são mais ricos”; “Em Cuba é que é bom, lá todos são felizes – menos quem tem notícias de Miami”; “O Lauro Quadros tentou me imitar na televisão, antigamente, fazendo gestos que nem eu, mas não conseguiu ir adiante”; “Me chamam de bebum? Não me incomodo porque esta é uma boa fama”; “Sou tão conhecido que já me considero um utensílio gaúcho”; ou “Nem o Viagra me salva. Mas agora me disseram que tem uma injeção legal. Já estou acostumado com as injeções que dou na barriga por causa do diabetes. Não custa nada tentar dar uma aí um pouco mais embaixo”.

Foi assim, divertindo o público e, às vezes, se emocionando, que Sant”Ana falou o tempo todo – mesmo que tenha dito e escrito em sua coluna de Zero Hora que detestava monólogo, e que só iria ao talk-show porque seria entrevistado por outro jornalista. Mais uma mentirinha… O repórter Davi Coimbra estava na primeira fila, anotando tudo para a reportagem que Zero Hora deve publicar nas páginas 4 e 5 da edição deste sábado. Sobrou pra ele: Sant”Ana revelou que, certa vez, interrompeu suas férias e voltou correndo para assumir a coluna em ZH porque estava sendo substituído pelo Davi, “um interino priápico” – a forma como encontrou para elogiar o jornalista que, queira ou não, é apontado como o sucessor de Sant”Ana. Que, por sua vez, não se considera um cronista da cidade, como muitas vezes é apontado. Confessou para a plateia do Ruy: “Sempre ambicionei ser o cronista da cidade, mas sou porto-alegrense e me sinto suspeito… As pessoas que mais amam uma cidade são as que não nasceram nela”.

Contou piadas de judeu e italiano, de comunistas e libertários, e provocou muitas gargalhadas quando revelou que nasceu no dia 15 de junho de 1939, no mesmo dia e na mesma hora em que, em Londres, morria Sigmund Freud. “Foi apenas uma passagem de bastão”, afirmou. Só ele não riu… Disse que é o profissional que há mais tempo aparece na televisão, onde atua há 37 anos, mas que gosta mesmo é da repercussão da coluna que já escreveu 14 mil vezes em Zero Hora. Flanando no tabernáculo do Ruy, como definiu o local, Sant”Ana interrompia a entrevista para declamar ou cantar. Começou com uma seresta, cujo refrão enfatizava com prazer: “Não foi o tempo que pintou os meus cabelos, foram mulheres com o pincel da falsidade”. Ao final, respondeu a perguntas feitas pela plateia. Todos os 12 que perguntaram eram homens, embora as mulheres fossem maioria ali. No final, escafedeu-se: os organizadores procuraram em vão pelo convidado da noite, para entregar-lhe uma cesta de mimos.    

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