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Especial Consciência Negra: jornalistas referências no mercado gaúcho

No encerramento da série, Coletiva.net conversou com Fernanda Carvalho e Vera Daisy Barcellos

Neste especial da Consciência Negra, que antecede o 20 de novembro – data comemorativa que completa 50 anos em 2021-, o Coletiva.net conversou com profissionais negros da Comunicação que ocupam espaços nas academias, agências, nos veículos e no empreendedorismo. Para o encerramento, duas mulheres jornalistas negras falaram com a reportagem do portal sobre os desafios da profissão. Fernanda Carvalho, atual representante negra feminina no telejornalismo gaúcho, e Vera Daisy Barcellos, há 50 anos no segmento. 

Um estudo recentemente divulgado pelo Perfil Racial da Imprensa Brasileira mostrou que apenas 20,10% dos jornalistas das redações do País se declaram pretos. O número é quase dois terços menor do que a efetiva representação da população negra do Brasil, que é de 56,20%. Já os que se autodeclaram brancos, são 77,60%. Se na atualidade os números são impactantes, quando Vera Daisy iniciou eles eram ainda maiores. 

Falta de reconhecimento

Atual presidente do Sindicato dos Jornalista Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors), Vera é formada em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e se orgulha ao dizer que é da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) de coração. Uma das pioneiras na cobertura de esportes amadores e olímpicos do Estado, no início da profissão, ficou responsável em montar uma equipe composta por profissionais de Comunicação, a fim de ser uma assessoria da Legião Brasileira de Assistência (LBA), extinto órgão público que promovia ações sociais nacionais. 

Segundo ela, este foi o primeiro obstáculo na carreira. “O diretor da época não me deu a oportunidade de ser a gestora daquela equipe, convidou outra pessoa, talvez não visse um potencial em mim, apesar de ter criado a assessoria”, revelou. Depois do ocorrido e de trabalhar em diferentes redações da capital, recebeu o convite da Zero Hora para integrar a equipe esportiva do jornal, em 1978. Permaneceu 16 anos no jornal, sendo responsável por cobrir as várias modalidades esportivas.

Foi no futsal que a repórter se destacou. Na cobertura do futebol de salão, procurou ficar expert no assunto, pois sabia que não havia mulheres cobrindo o segmento. Sentou ao lado de treinadores, conversou com especialistas e se tornou uma repórter importante na modalidade. “Os homens eram a maioria, comecei a ser sabotada, pois eu não tinha acesso aos vestiários para pegar entrevistas, por ser mulher”, disse. Foi quando teve a iniciativa de conversar com os responsáveis pelos campeonatos para que tomassem uma atitude em relação à situação. “Quero ter igualdade de trabalhar, se os colegas entram eu também quero, não estou aqui para ver o corpo de ninguém e sim ter a chance de ouvir os atletas”. A partir daí, passou a ter acesso também, tendo a primeira conquista na profissão.

Representação para os negros

Ao longo dos anos, ela descobriu que tem importância no Jornalismo. “A partir de entrevistas e perguntas que jovens fazem para mim, eu posso dizer, sim, eu fiz muitas coisas”, disse. Emocionada, a jornalista revelou que um dos momentos mais marcantes foi quando presidiu a comissão nacional de ética da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), mandato de 2016 a 2019, na qual representou o Rio Grande do Sul. 

Naquele momento, a gestora percebeu que tinha visibilidade entre personalidades representativas do segmento. Entre elas, Vera Daisy cita Audário Dantas. “A minha trajetória estava sendo percebida e eu não via, e eu não tinha a dimensão do que me tornei, eu ainda me achava aquela ‘neguinha’ que todos viam”, revelou às lágrimas. 

Pedido aos jovens 

Para que a realidade nas redações mude, Vera Daisy faz um pedido aos jovens jornalistas, para que passem a frequentar e se associem às entidades e sindicatos. “Só assim, podemos mudar a situação, sendo uma fortaleza em relação às empresas de Comunicação”. Para ela, isso é importante pela defesa do trabalho e conquistas de vagas, sobretudo, nas redações. 

“Quando eu digo que no Jornalismo não enchemos a mão, é porque também não há pressão com pessoas dentro dos sindicatos, por isso, um jovem negro dentro de um veículo de Comunicação também é um espaço de militância importante”, destacou.

Ela ressalta que enquanto tiverem somente Fernandas, Majus, Eraldos e Veras nas emissoras, não será suficiente. “Eu estou por aqui de ser somente uma, porque há 50 anos eu era essa uma, isso dá margem para que empresas não se importem com isso”, finalizou. 

“Somos muito mais exigidos”

Para Fernanda Carvalho, que atualmente está à frente de telejornais da RBS TV, o principal desafio do negro no mercado de trabalho, de uma forma geral, é se mostrar capaz. “Não é um mito essa máxima de que precisamos ser duas vezes melhores para ocupar o mesmo espaço de brancos. Somos muito mais exigidos”, desabafou. Para ela, o negro precisa chegar com o currículo muito mais recheado.. 

“Como alguém que queria Comunicação e televisão, que é o meu caso, eu tinha alguns desafios a mais, porque no Brasil é um racismo que discrimina pelo o que é visto”, contou. De acordo com ela, é por isso que os traços negros, quanto mais negros são, mais são desigualado. “Quanto mais escura é a pele, quanto mais crespo é o cabelo, quanto mais boca e nariz a gente tem, maior é a tendência à discriminação.” 

O maior desafio na carreira foi justamente chegar onde está. Segundo ela,  porque uniu duas situações: estar profissionalmente preparada e ter a chance na empresa. “Só eu estou mega preparada não adiantaria nada. É isso que a gente vê no mercado de trabalho, fazendo um recorte para a Comunicação: temos poucos profissionais negros e especificamente na televisão, porque faltam oportunidades, não porque esses profissionais não estão habilitados para ocupar esses espaços.”

Mais negros na Comunicação 

Quanto ao mercado, Fernada separa duas questões. “Na visibilidade caminhamos muito bem. Por outro lado, não podemos querer apenas isso. Precisamos de mais profissionais negros pensando a Comunicação, pensando pautas, escrevendo textos, produzindo matérias, editando imagens”, dizendo que só assim  terão olhares de profissionais negros em outras esferas do setor.

Neste aspecto, a jornalista acredita que há um pequeno avanço. “Temos um cenário melhor hoje do que tínhamos há uns anos? Certamente, mas ainda estamos muito longe do ideal. O segmento, em termos de oportunidades para o negro, ainda está atrasado, quando comparada com outras áreas”, observou.  

Hoje em dia, Fernanda se considera uma pessoa representativa, pois por muito tempo, cobrou para que pessoas como ela tivessem o espaço de protagonista. “Por outro lado, também, eu não achava que eu seria essa pessoa, porque honestamente, eu esperava que essa primeira pessoa a apresentar um jornal, ou essa primeira pessoa a fazer parte do Jornalismo geral na empresa chegasse antes de mim”, confessou.

“Sou a primeira pessoa negra a apresentar um telejornal na RBS TV, no Rio Grande do Sul. Então, acho que a minha trajetória, muito por conta dessa singularidade, de ter sido a primeira em muitas coisas que fiz na vida, fazem de mim uma representante de uma luta”, orgulha-se. Ela faz questão de exaltar que isso é resultado de um trabalho coletivo, de muitos anos, de muitas lutas e de muitos profissionais que passaram por certos espaços antes dela, abrindo portas para que chegasse no atual momento. 

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