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Especial: Sem liberdade, não há imprensa

No lugar deste conteúdo, poderia haver uma receita de bolo – método utilizado por jornalistas durante o período da Ditadura Militar para sinalizar que determinado conteúdo fora censurado -, ou, quem sabe, simplesmente não ter nada. Por isso, hoje, no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, Coletiva.net traz uma reflexão sobre a importância de um Jornalismo livre e sem censura. 

Para tal, reuniu depoimentos de profissionais que passaram por cerceamento e não puderam exercer a atividade jornalística, bem como um depoimento da entidade que representa a classe, além de dados alarmantes sobre o assunto. Nas redes sociais, a equipe do portal ainda trouxe depoimentos em vídeo dos jornalistas aqui destacados.

Luta diária

Conforme o presidente da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), José Nunes, disse ao Coletiva.net, a entidade ressalta neste Dia Mundial da Liberdade de Imprensa a convicção de que a informação é essencial para a preservação da vida e da democracia. “Mais do que nunca, o Brasil precisa da imprensa livre e independente para enfrentar suas crises. No entendimento da ARI, a liberdade de imprensa não é apenas uma prerrogativa dos jornalistas e dos veículos de informação. É, principalmente, um direito dos cidadãos de receberem informações e opiniões responsáveis, que lhes permitam decidir seus próprios destinos”, salientou Nunes. 

Liberdade de imprensa, por eles

 

“A boca fica seca”, Carlos Wagner 

Em 2014, tive problemas na apuração da morte do menino Bernardo Boldrini, 11 anos, em Três Passos, Rio Grande do Sul. O crime envolveu a família da criança. Nesses casos, a pressão foi feita pelos parentes sobre o repórter, onde queriam dificultar a nossa cobertura. Isso é do jogo, porém, constrangedor.

Tenho 40 anos na lida de repórter. Logo, vivi muitas situações complicadas tanto na apuração, quanto na publicação das matérias. A reportagem ‘Senhores do Jogo do Bicho’, em 1992, foi uma investigação jornalística pura porque não existiam documentos e nada mais. Precisei apurar toda a situação correndo riscos, porque estava lidando com policiais corruptos, donos de bancas do jogo do bicho e um bando de pistoleiros, que faziam a segurança desse pessoal. Não tive problemas na publicação.

Há dois sentimentos: quando o constrangimento acontece na apuração, seja por ameaça física ou psicológica, é preciso “saber nadar no mar cheio de tubarões”. O mais fácil é quando a ameaça é física. Por quê? Quem mata não ameaça. Só covarde ameaça e, no caso, são os mais perigosos.

A liberdade de imprensa é o pilar que sustenta o nosso modo de vida. Sem ela, é a barbárie. Costumam dizer que, durante a ditadura militar, de 1964 a 1985, não existia corrupção. Como podem fazer tal afirmação se não existia liberdade de imprensa?

A minha dica aos jovens repórteres é que saibam se posicionar quando estão fazendo uma reportagem barra pesada. Não fiquem no meio do fogo cruzado entre as partes. O repórter precisa sobreviver para contar a história. 

“Os sentimentos são confusos na hora”, Matheus Chaparini

O episódio mais emblemático foi em 2016, quando fui preso pela Brigada Militar, enquanto fazia uma reportagem. Trabalhava no Jornal Já, de Porto Alegre, e estava cobrindo um ato de estudantes que estavam ocupando a Secretaria Estadual da Fazenda. Naquele dia, acabei sendo preso, fiquei 14 horas no presídio central, em uma cela com criminosos, onde tinha pessoas acusadas de estupro de menores. 

Os sentimentos são confusos na hora. É uma certa impotência de não ter feito nada de errado e ainda assim não poder fazer nada naquele momento, pois está tudo na mão do Estado. A confusão é grande, tanto que demorei para entender que tinha sido preso. Até então, achava que estava sendo conduzido para fora por ser uma possível testemunha. Desde 1989, não se tinha registro de um jornalista ser preso em exercício da profissão no Rio Grande do Sul.    

A importância da liberdade de imprensa no Jornalismo é tudo. Se não temos a liberdade para desempenhar o nosso trabalho, ficamos completamente comprometidos, e quem perde é a sociedade, pois ela não terá matérias confiáveis e verídicas. O livre exercício da imprensa é um dos pilares da democracia e, se ele é prejudicado, a liberdade também.   

Como dica de segurança, jamais pediria para um repórter tentar evitar esses conflitos, pois estaria reconhecendo um erro o qual eu não cometi. O profissional precisa estar no foco da notícia para passar o que tem de melhor para a sociedade. 

Uma sugestão que posso passar é que tudo seja gravado. No meu caso, o fato de eu ter gravado o acontecimento, contou muito a meu favor, porque, enquanto eu dizia que era jornalista e estava trabalhando, o Governo dizia que eu não era profissional, pois estava ali, militando junto. 

O fato de eu ter gravado me ajudou e ilustrou que eu realmente estava no local como profissional, para cumprir a minha função, além de mostrar que a prisão foi completamente injusta, ilegal e sem provas. Então, gravar tudo é essencial, hoje em dia a tecnologia nos permite registros. 

“Então, a gente se sente desmoralizado”, Paulo de Tarso

Já estávamos trabalhando em home office, e eu acionei o repórter Alex para fazer a matéria sobre um caminhão. Ele me retornou dizendo que estava na delegacia de polícia, que era um registro de abigeato. Eu pedi que ele fizesse uma matéria e uma live. Mas ouvi que os policiais não queriam que ele fizesse imagens e, depois de ter feito a live, ele tinha sido preso. Fui para lá e, quando cheguei, tinham colocado o Alex na calçada e tinha um PM intimidando ele. Apresentei-me como chefe dele e comecei a gravar, dizendo que estava tendo uma abordagem e questionando o policial sobre o que estava acontecendo com o repórter. Ele disse para desligar e um outro policial me deu um safanão e me esganou. Quando o Alex reagiu para me ajudar, eles o arrastaram no chão, pegaram meu celular, me chutaram, pisaram em cima.

Tudo isso começou pelas 21h e eu só consegui entrar em contato com meus familiares por volta de 23h30. Depois de tudo isso, começamos a ser ameaçados pelo comandante de Rosário do Sul. Isto tudo foi numa quinta-feira à noite. No dia seguinte, na sexta-feira de manhã, não consegui nem trabalhar, estava mal emocionalmente. Na segunda-feira, em uma live, fiz um comentário editorial bem duro e, a partir disso, o comandante da Brigada Militar da região começou a me intimidar pelo whats, pelas redes sociais, telefonou para o nosso repórter fazendo ameaças. Registrei uma segunda queixa-crime contra ele.

Entrei em processo de depressão, estou até hoje fazendo tratamento, tive que me mudar pois me sentia ameaçado. Estas foram bem violentas. É muito complicado, muito doido. É uma situação que a gente está lidando com um estado invisível e sórdido. Esta é a sensação que a gente tem.

A liberdade de expressão, para mim, é tudo, porque tu tens que garantir pluralidade da informação. Esquerda, direita, para cima, para baixo, não interessa. O público tem direito de ser informado. E ainda, apesar das redes sociais, quem faz com melhor qualidade, que tem esta atribuição legal da democracia, são os meios de Comunicação. Então, temos que agir dentro de uma responsabilidade atribuída e auto atribuída, que é isso que legitima nossa profissão. Ela é garantidora da democracia, garantidora de que as pessoas possam sair, possam tomar decisões a partir do que se seleciona como fato, como histórias para a opinião pública. 

É difícil. Temos uma cultura de estado violento. E, independentemente de ideologia, sempre foi assim. Tem períodos que fica mais agudo. Agora, estamos passando por um momento difícil, todo mundo se acha como se tivesse uma legislação particular dentro da sua cabeça. 

“A violência foi psicológica”, Rodrigo Lopes

Em 2019, fui enviado a Caracas pelo Grupo RBS para cobrir o auge da crise política e social na Venezuela. Ao chegar, um dia após a autoproclamação de Juan Guaidó como presidente, consegui fazer fotos, entrevistas e vídeos na primeira aparição pública dele, em um comício com muita gente. Depois, decidi fazer o básico: ouvir o outro lado. Fui até os arredores do Palácio de Miraflores, a sede do poder venezuelano. Ao ver uma manifestação de apoio ao Maduro, fui registrar. Quando tirei o celular do bolso, dois homens vieram até mim e começaram a me intimidar, perguntando quem eu era. Ao me identificar como jornalista brasileiro, fizeram eu passar as fotos que tinha no celular, e ao verem que havia imagens do comício de Guaidó, começaram a me acusar de ser militante da oposição. 

Fui para dentro da área de segurança, onde um oficial passou a ameaçar me prender, dizendo que os jornais brasileiros chamavam o presidente deles de ditador. A essa altura, já haviam levado meu celular. O oficial me conduziu para dentro da unidade militar. Lá, fui interrogado por outro militar, que quis saber a ideologia do jornal para onde eu trabalhava e que tipo de reportagens fazia. Levaram meu passaporte. Algum tempo depois, fui levado para o interior do quartel, até uma sala onde havia outro jornalista na mesma situação. Passadas duas horas, me tiraram da sala e colocaram de costas para uma parede. Me fotografaram, disseram que, a partir de agora, conheciam o meu rosto. 

Devolveram celular e passaporte, mas me fizeram um alerta: “Se fores pego de novo fazendo isso, serás preso”. Antes de sair, apesar do medo, mas acreditando que precisava seguir, pedi autorização para fotografar a manifestação do lado de fora, a fim de mostrar o apoio que o presidente deles tinha. O pedido foi negado. Voltei ao hotel, relatei o fato a meus editores e, em conjunto com a direção da RBS, decidimos sair do país no dia seguinte, por razões de segurança.

O primeiro sentimento foi de impotência. Não estava acreditando que, depois de cobrir tantas guerras, passaria por aquilo em um local, em tese, sem conflito armado. Mais: não eram grupos terroristas ou rebeldes que estavam cerceando o direito de imprensa, mas agentes do próprio Estado. Pensei em fugir, sair correndo, mas não haveria a menor chance de êxito. A sensação era de que as coisas estavam piorando a cada minuto. Ficava imaginando por quanto tempo me manteriam detido, em que hora alguém no Brasil se daria conta de que eu não entrara mais em contato. Tentava lembrar que matéria minha estaria na capa do site naquele momento e se aquelas pessoas entenderiam o título como positivo ou negativo a eles – o que poderia determinar minha soltura ou não.

Sabia que o governo brasileiro não reconhecia mais Maduro como presidente, ou seja, não haveria mediação diplomática. Também imaginava que eles poderiam me forçar, por meio de tortura, a confessar que eu era algum espião brasileiro ou mesmo da oposição, a ponto de injetar algum conteúdo no meu celular. Em nenhum momento fui algemado ou colocado em uma cela, nem houve situações de violência física. A violência foi psicológica.  

A liberdade de imprensa não é só para jornalistas, mas um direito fundamental da sociedade. Por isso, pode-se medir o grau de democracia de uma nação. Em momentos como esse, de uma pandemia, informações falsas podem levar pessoas à morte. A imprensa, por vezes, erra – por incompetência e, às vezes, até por má fé. Mas o nosso campo é a verdade, o nosso negócio é tentar acertar. Ora, fatos são fatos. Não são passíveis de serem relativizados. Quando um jornalista sofre uma violência, física, psicológica, no dia a dia da reportagem, quem perde é toda a sociedade.

Já fiz cursos em áreas de risco no Brasil e no Exterior, atuei em zonas de guerra, catástrofes naturais e golpes de Estado, em países sob estado de sítio. A experiência ajuda, mas cada nova cobertura tem seus próprios riscos inerentes à situação política e econômica local. A tentativa de silenciar o trabalho da imprensa pode vir de qualquer lado do espectro político. A minha dica principal é: antes de sair para uma zona potencialmente de risco, informe seus editores ou colegas de onde você está indo.

 

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