Série especial de matérias sobre gaúchos que conseguiram vencer a pandemia no meio Cultural. A produção é da jornalista Daniela Sallet, em parceria com o portal Coletiva.net.
Se a pandemia segue com suas restrições, Zoravia Bettiol parece não encontrar nenhuma ao seu ofício. Até o final de abril, ela conclui as ilustrações de uma versão adaptada para adolescentes do clássico “A Divina Comédia”. A obra é assinada pelo ex-presidente da Bienal do Mercosul Gilberto Schwartsmann, um médico apaixonado pelas artes e que é fã incondicional da artista. “Conheço a Zoravia desde mocinho. Sempre gostei dela e tenho várias de suas obras. Quando pensei nas ilustrações do livro, disse: Só pode ser a Zoravia!”, relembra, com explícita admiração.
Ela descreve o projeto: “É um trabalho muito grande por uma razão simples. Estou fazendo as ilustrações em desenhos com lápis de cor e nanquim, que é um processo muito refinado e trabalhoso. Às vezes, para conseguir uma cor eu faço cinco camadas com lápis”. Em uma analogia ao conteúdo do livro, tantos detalhes e minúcias não têm nada de inferno ou purgatório, longe disso! Para Zoravia, dedicar-se tanto para encontrar o padrão ideal é o paraíso, aquele que só encontra quem faz o que realmente gosta.

Com a vantagem de morar em uma casa que abriga também sua galeria, Zoravia Bettiol chega a trabalhar 14 horas por dia. Costuma levantar antes das 6h da manhã e, depois de ler jornais e tomar café, passa a maior parte do tempo produzindo no atelier do andar superior ou na própria galeria, no térreo. Claro que a mulher engajada e comunicativa sentiu falta dos encontros com amigos, vernissages, exposições presenciais e sessões de teatro e cinema, que costumava participar.
A gravura “A Soberba” , da série “Os Sete Pecados Capitais”, foi para a 10ª Bienal Internacional de Gravuras do Douro, em Bragança, Portugal, único evento presencial do ano. Mas foi mesmo a tecnologia que compensou a distância física. Zoravia participou de mais de 20 eventos virtuais relacionados a exposições, além de palestras e lives. Não fosse o distanciamento imposto pela pandemia, a rotina de Zoravia teria sido como em outro ano qualquer.

No memorável 2020, o trabalho da artista que cursou Belas Artes na UFRGS – atual Instituto de Artes – IA, rendeu demais. Para a Série Ícones, foram 15 peças. “Eu comecei logo no início da pandemia. Fiz as obras em bem pouco tempo, cerca de três meses, porque ninguém sabia que ia demorar tanto quanto demorou. Meu assistente não vinha todos os dias, e eu trabalhava bastante para tê-la pronta”, relembra. “Ícones” tem figuras e personalidades que, no passado, já inspiraram a obra de Zoravia: Mercedez Sosa na música; Mario Quintana na literatura; Tamara Toumanova na dança; Condessa de Lovelace ou Ada Byron, nas ciências. Da mitologia grega, Ícaro e Medusa; do circo, o mágico; dos contos infantis, a Bela Adormecida e Pinóquio.
Mas nada se compara às duas personagens que fascinam a artista há muito tempo. Alice do País das Maravilhas e Iemanjá. “Alice é emblemática porque há muito tempo ela tem fascinado escritores, artistas visuais, cineastas, antropólogos e psicólogos. E as pessoas do povo também conhecem a personagem”, diz.

Na antiga casa, a artista tinha um mural sobre Iemanjá e já fez uma série sobre os Orixás em tapeçaria. Essa inspiração está ligada a causas da ativista Zoravia Bettiol, a preservação da natureza e a promoção da igualdade de gênero: “Eu respeito todas as religiões, mas a religião afro-brasileira, como o candomblé, é mais democrática. Por que tem pai de santo e tem mãe de santo, enquanto o catolicismo não tem bispa ou papisa, não é?”, reflete. No final de 2020, a série “Ícones” virou uma exposição virtual, em comemoração aos seus 85 anos de vida e 65 dedicados à arte.
A exposição foi organizada pelo Instituto Zoravia Bettiol, criado para abrigar todo seu acervo e para ser uma espaço de promoção das artes. A sede fica no centro de Porto Alegre, é a tombada Casa dos Leões, cedida pela prefeitura. Enquanto o local não é restaurado, a sede do Instituto é a própria galeria da artista que continua promovendo exposições, como no ano passado.
A novidade agora está na página Amazônia Index 2021, inaugurada em 26 de março e que ficará em exibição até 26 de setembro. “Teremos diversas atividades ligadas à Amazônia, este tema importantíssimo não só para o Brasil, mas para o mundo, que tem sido destruída de todas as formas”, alerta a ativista que também participou da exposição itinerante “Reserva Selvagem”, que circulou por três cidades gaúchas.
Na Casa dos Leões, arquitetos estão desenvolvendo o projeto de recuperação. No imóvel, que está em precária situação, serão necessários muitos reparos para atender as finalidades do Instituto. “Vamos ter a manutenção da minha obra, a realização de atividades relacionadas à arte contemporânea e vamos ser espaço para pesquisa e laboratório para universidades. Um espaço cultural tem que ser um organismo vivo ligado à comunidade, para que ela se expresse. Não pode ser uma coisa distante das pessoas”, sentencia.

O Instituto Zoravia Bettiol é presidido por ela, tem 12 membros, e o patrono é Gilberto Schwartzmann, o autor de “Divina Rima”, a Divina Comédia para jovens. Os dois se aproximaram na 11ª Bienal do Mercosul, que foi presidida pelo médico. “Ela tem uma história maravilhosa, é corajosa, com opiniões próprias, engajada e independente. Sempre fui amante da arte dela e na Bienal encontramos nossa afinidade pessoal”, relembra.
Gilberto tem mais de 60 edições do livro, publicado originalmente no século XIV, e levou para Zoravia exemplares com ilustradores famosos como Gustave Doré, Sandro Botticelli e Salvador Dalí. “É uma aventura ilustrar uma obra clássica com muito conteúdo, mas Zoravia fez uma leitura com o traçado dela, são autorais, não é a influência dos outros famosos que já ilustraram. Ela fez do jeito dela, o traço inconfundível dela”, diz o médico, que também transformou o processo criativo da gaúcha em versos, numa espécie de posfácio.
A exemplo da coleção “Ícones”, aqui também Zoravia precisou ser ágil. Cinco meses para fazer quase 50 ilustrações. “Quando reviso meu trabalho, sempre faço ajustes. Uma coisa perigosa é que eu nunca tive ninguém acima de mim e, assim, tu podes cometer coisas horríveis. Então, sempre quem está perto me critica, e eu aceito. Qualquer crítica, com educação e respeito, tem um valor enorme pra mim”, fala a mestra.

“Divina Rima” deve ser lançado em junho, no aniversário de um outro ícone cultural de Porto Alegre, o Theatro São Pedro, onde, em tempos normais, Zoravia Bettiol é vista com frequência aplaudindo o trabalho de outros artistas. “A arte é um elemento vivo, ultra necessário ao ser humano nos seus melhores momentos ou nos mais difíceis como é o caso da pandemia. As pessoas se aproximaram mais das artes visuais, da música, da literatura”, analisa.
E para você, Zoravia, o que representa a arte? “A arte é resistência, é o que pode nos manter vivos e atuantes. Arte é vida pra mim, além de profissão é um prazer, eu me alimento da arte”, define ela, uma divina artista visual que, aos 85 anos, tem o mesmo fôlego e entusiasmo dos jovens, aqueles que a nova versão do livro clássico pretende alcançar.

