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“Eu sou um abridor de portas”: Antônio Côrtes é homenageado no aniversário da BPE

Em entrevista ao Coletiva.net, jornalista comentou sobre a sua trajetória profissional e a luta pela pauta antirracista no Estado

“Acumulei muito mais sabedoria do que patrimônio”, disse. Crédito: Arquivo Pessoal.

O advogado, jornalista e escritor Antônio Carlos Côrtes é o homenageado da campanha de aniversário da Biblioteca Pública do Estado (BPE), que completou 155 anos, em 2026. Ele é um dos fundadores do Grupo de Pesquisas Palmares, coletivo formado em 1971 e amplamente reconhecido como um dos movimentos a levantar a pauta antirracista no Rio Grande do Sul e no Brasil. Em entrevista exclusiva ao Coletiva.net, o profissional comentou como foi ocupar espaços pouco acessíveis à população negra. “Eu sou exceção, mas nem por isso eu vou deixar de reconhecer a luta dos meus irmãos negros. Eu sou um abridor de portas. Tendo a oportunidade, o negro avança”, analisou.

Apesar da vida confortável que leva, Côrtes ressaltou que a maior bagagem em ser advogado, jornalista e escritor não é financeira: “Acumulei muito mais sabedoria do que patrimônio”. Ao portal, ele contou que trabalhou por 26 anos no Banrisul durante o dia, enquanto à noite atuava como advogado nas áreas de direitos civil e criminalista.

Nascido em uma família pobre e com bolsa de estudos no Colégio Nossa Senhora das Dores, ele explicou o porquê de atuar em várias áreas do mercado. “Eu cedo aprendi que precisava ter pelo menos uma outra atividade além da normal, para poder me sustentar e ajudar a minha família”, afirmou. 

Comunicação crítica

Côrtes contou que a Comunicação entrou na sua vida pelo descontentamento da cobertura midiática do Carnaval, que ignorava os aspectos culturais do povo indígena e negro nos anos 70. Para ele, os comunicadores exibiam a festa de forma incompleta e discrepante.

“Eles transmitiam o Carnaval como se fosse um jogo de futebol, uma outra competição. Não havia relação à cultura que ali estava sendo passada”, comentou. Ele relatou que foi o jornalista Fernando Vieira que o convidou a realizar uma cobertura diferente do Carnaval.

Grupo Palmares e a Biblioteca Pública do Estado

Côrtes é o terceiro negro a chegar à Academia Rio-Grandense de Letras em 122 anos da instituição, sendo autor dos livros ‘Bailarina do Sinal Fechado’, ‘Rua da Praia 40⁰’ e ‘Degraus da Vida’. Como um dos fundadores do Grupo Palmares, esteve envolvido na formulação da ideia de tornar o 20 de novembro o Dia da Consciência Negra, em contraponto ao 13 de maio — data que simboliza a abolição da escravidão, mas é considerada inconclusa pelo movimento negro. 

A data seria oficializada nacionalmente apenas em 2011, com a aprovação da Lei 12.519/2011. Contudo, o feriado nacional do Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra aconteceu apenas em 2023. Além disso, foi na estante da BPE que Côrtes encontrou o livro ‘O Quilombo dos Palmares’, de Edison Carneiro, que revelou a data da morte do líder Zumbi: 20 de novembro de 1695.

“Quando fundamos o Grupo Palmares, eu já era um rato de biblioteca e descobri o livro. Então levei para o grupo, que era formado pelo Oliveira Ferreira da Silveira, Ilmo da Silva e Vilmar Nunes. Nós quatro botamos a cara para bater dizendo ‘não’ ao 13 de maio, e ‘sim’ ao 20 de novembro”, relembrou.

Aos 77 anos, ele garantiu que não pretende parar de realizar as suas atividades. “E eu só vou parar quando morrer. E, como advogado, eu vou copiar o Lia Pires. Vai estar na minha lápide: ‘Eis aqui um advogado que parou de advogar contra a vontade’”, concluiu.

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