A interpretação simultânea em Língua Brasileira de Sinais (Libras) ampliou o acesso da comunidade surda ao debate da Band RS entre os candidatos ao Governo do Estado. Durante as duas horas de transmissão, realizada no domingo, 9, na Fiergs, três profissionais da Interpretare se revezaram na tradução do conteúdo. Como o programa permanece disponível nas plataformas digitais, o trabalho poderá ser acessado por eleitores ao longo do processo eleitoral.
A operação ocorreu em uma antessala próxima ao auditório onde estavam os candidatos, o mediador Oziris Marins e a plateia. Enquanto o confronto avançava no palco, os intérpretes acompanhavam, em tempo real, perguntas, respostas e réplicas.
Estudo e experiência
A interpretação ao vivo exige que os profissionais estejam preparados para assuntos e expressões que podem surgir sem aviso. Proprietária da Interpretare, Luciana Côrte Real explicou que a equipe realiza um estudo prévio, embora não seja possível prever exatamente o que será dito pelos candidatos.
“A interpretação é ao vivo e simultânea, então nunca se sabe exatamente o que vai ser falado. A gente sempre faz um estudo prévio e se prepara bastante”, contou. A empresa participa da tradução dos debates da Band RS desde 2016, experiência que ajuda os profissionais a lidar com a dinâmica do formato e os imprevistos da transmissão.
Luciana ressaltou, no entanto, que a prática acumulada não elimina os desafios. “Sempre acontecem coisas na hora. É importante ter formação adequada e experiência para saber lidar com o que vai surgindo”, observou.
Preparação começa antes da transmissão
Intérprete e colaborador da Interpretare, Sandro Rodrigues da Fonseca explicou que essa preparação inclui acompanhar entrevistas, notícias e outros momentos da campanha. Esse trabalho permite que os intérpretes conheçam previamente os principais conceitos e assuntos que poderão aparecer nas falas.
Com o tempo, a equipe também desenvolveu técnicas para reconhecer a dinâmica dos confrontos eleitorais. “O gênero debate mantém determinado comportamento e a gente consegue antecipar algumas ações dos debatedores. Isso facilita muito o trabalho, mas vem da experiência e do estudo”, afirmou.
A tecnologia passou a auxiliar essa preparação. Ferramentas de Inteligência Artificial podem ser usadas para identificar termos recorrentes e assuntos presentes nos discursos dos candidatos. O recurso, porém, integra um processo mais amplo, sustentado pelo acompanhamento da campanha, pela formação e pela prática. “Precisa de experiência e estudo. É necessário praticar, mas também estudar bastante para poder fazer esse trabalho”, resumiu Sandro.
“Direito linguístico”
De acordo com Vinícius Martins, também intérprete e colaborador da Interpretare, a presença da Libras não deve ser compreendida apenas como um recurso complementar à transmissão. “A interpretação é mais do que uma ferramenta de acessibilidade. Ela é um direito linguístico”, afirmou ao Coletiva.net.
O trabalho da equipe no debate atende a uma obrigação construída por diferentes normas ao longo das últimas décadas. “Existe uma sucessão de leis e decretos que regulamentam a comunicação e a acessibilidade para a comunidade surda, inclusive na televisão”, acrescentou Sandro.
A Libras foi reconhecida como meio legal de comunicação e expressão pela Lei nº 10.436/2002. Mais tarde, a Lei Brasileira de Inclusão determinou que os debates transmitidos pelas emissoras de televisão oferecessem recursos como janela de Libras, legendas e audiodescrição. A exigência foi detalhada pela Resolução TSE nº 23.610/2019, aplicada às Eleições 2026.
A norma eleitoral estabelece que a janela de Libras ocupe, no mínimo, metade da altura e um quarto da largura da tela. Os recursos de acessibilidade também precisam ser preservados quando trechos do debate forem exibidos novamente.
O trabalho deve ser realizado por profissionais qualificados. A regulamentação da profissão, criada em 2010, foi atualizada pela Lei nº 14.704/2023, que definiu possibilidades de formação técnica e superior. A resolução do TSE também estabelece critérios específicos para os intérpretes contratados para debates e propagandas eleitorais.

