O jornalista norte-americano Jon Lee Anderson palestrou ontem à noite em Porto Alegre, durante o ciclo de debates Fronteiras do Pensamento. Recém-chegado de mais uma temporada em Bagdá, ele falou para um Salão de Atos da Ufrgs (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) lotado. Poucos jornalistas conhecem tão bem o Iraque. Anderson evita a companhia do exército americano, na tentativa de buscar um olhar diferente do conflito. Pouco tempo depois da invasão, ele passou 21 meses acompanhando a rotina de um grupo de iraquianos seguido apenas por um tradutor, que também fazia papel de segurança. O resultado foi o livro “A queda de Bagdá”, considerado pela crítica o mais brilhante e corajoso retrato do outro lado da guerra.
Apesar de criticar o governo de George W. Bush e a ocupação, Anderson defende a cobertura feita pela mídia norte-americana: “A tese de que a mídia americana foi cúmplice do Pentágono no Iraque é uma falsidade reducionista. É lógico que existem repórteres lacaios, mas a mídia norte-americana é tão livre que lava sua roupa em público. Como vocês ficaram sabendo das torturas de Abu Graib? E dos abusos de Guantanamo? Vocês ficaram sabendo delas por jornalistas americanos”. Sobre o futuro na região, as previsões de Anderson são pessimistas. Ele acredita que o exército americano deve permanecer por algumas gerações no Iraque: “Nenhum candidato democrata conseguiu prometer que as tropas sairiam. Todas as guerras deixam feridas que demoram muito tempo para cicatrizar, mais tempo que a própria guerra. Cada gota de sangue derramado exige outra para ser vingada”.
Além de cobrir o Iraque, o jornalista, hoje colaborador da revista New Yorker, também acompanhou in loco a ocupação do Afeganistão. Depois de sua última viagem a Cabul, endureceu suas críticas em relação à política americana para a região: “Não houve reconstrução nenhuma lá. Não foi feito nenhum investimento para mostrar que nós, Estados Unidos da América, estamos preocupados com a reconstrução de suas instituições. O presidente do país é chamado de prefeito de Cabul, porque não consegue sair de lá”. Ao final da palestra, Anderson, autor de uma vasta biografia sobre Che Guevara, foi chamado a comentar a matéria de capa de Veja, que demoniza o líder da revolução cubana. Ele acha que assassino é um termo forte, já que se vivia um contexto revolucionário, questiona o suposto número de 10 mil vítimas da revolução cubana e afirma: “As pessoas procuram um herói e querem acreditar que ele tinha qualidades. E ele de fato tinha qualidades”. As informações são do Portal Imprensa.


