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Jornalismo sofre com ataques e censura na Guerra da Ucrânia

Lei sancionada por Vladimir Putin dificulta o exercício da imprensa e veículos internacionais já suspenderam atividades no país

O cerco feito pela Rússia à Ucrânia não tem se restringido apenas às zonas de conflito e ao disparo de mísseis, mas passou a afetar também o exercício da imprensa. Isso porque, na última sexta-feira, 4, o presidente Vladimir Putin aprovou uma lei que criminaliza a disseminação de informações que o governo russo considere falsas sobre a invasão. Ainda segundo a legislação, jornalistas que descumprirem a determinação podem ser condenados a até 15 anos de prisão.

Entre as medidas da nova lei, está proibido se referir à guerra como “guerra”, que agora deve ser chamada de “operação militar especial”. O texto ainda estabelece que toda referência que contenha as palavras “invasão”, “ataque” ou sinônimos podem ser enquadradas como fake news. Conforme a OVD-Info, mídia independente da Rússia, que acompanha as prisões no país, 13.513 pessoas já foram detidas nos protestos contra a Guerra da Ucrânia, muitas eram ativistas e jornalistas. 

Mídia internacional

Com a aprovação da lei, os conglomerados internacionais ABC, BBC, Bloomberg News, CBC/Radio-Canada, CBS News e CNN informaram a paralisação das transmissões no país. O objetivo é garantir a preservação dos profissionais, visto que a emenda atinge tanto cidadãos russos, como estrangeiros. No caso da BBC, mesmo com o afastamento da equipe, o canal e o site ainda foram retirados do ar pelo governo.

No domingo, 6, o TikTok também anunciou a suspensão de transmissões ao vivo e novas postagens no aplicativo no país, embora o envio de mensagens ainda esteja disponível. Neste caso, a iniciativa partiu da própria rede social, ao contrário do Facebook e Twitter, que foram bloqueados pelo governo russo. A Netflix também suspendeu os serviços por conta própria.

Imprensa local

Até mesmo o jornal que tem como editor o detentor do prêmio Nobel da Paz de 2021 foi afetado pela legislação. O Novaya Gazeta, editado por Dmitry Muratov, divulgou que removeria as reportagens sobre a guerra na Ucrânia. Na edição on-line de segunda-feira, 7, o veículo exibiu matérias sobre protestos ocorridos em várias cidades russas no fim de semana com uma forma de redação diferente. “Cerca de cem pessoas na praça central de Vladivostok protestaram contra o que não pode ser nomeado. Um comício sobre uma ‘operação especial’ na Ucrânia também ocorreu”, registrou a manchete.

A ONG internacional Repórteres Sem Fronteiras ainda listou uma sequência de fechamentos de veículos independentes na Rússia por conta da lei. Entre eles, estão o site de notícias de negócios The Bell e a Radio Echo de Moscou, emissora de rádio independente do país. A Dozhd TV e os sites Znak e The Village também interromperam o trabalho. Já a Radio Serebrianny Dozhd cancelou a maioria de seus programas, que foram substituídos por música e a mensagem repetida: “Não podemos falar, não queremos mentir”.

Antes da lei

Apesar de dificultar ainda mais o trabalho da imprensa, a lei sancionada semana passada não foi o começo do assédio russo ao exercício do Jornalismo. Isso porque, segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, desde o início da invasão da Ucrânia, “a mídia foi imediatamente condenada a usar apenas informações e dados de fontes oficiais da Rússia e usar o termo ‘operação especial’ para se referir à invasão, sob o risco de ser fechada”, registrou a ONG.

Ainda antes da lei, no espaço de uma semana, o Roskomnadzor – órgão regulador de mídia da Rússia – bloqueou cerca de 30 sites independentes russos e ucranianos. Entre os alvos ainda estavam a emissora de rádio e TV pública alemã Deutsche Welle, a Radio Svoboda – subsidiária da emissora norte-americana Radio Free Europe/Radio Liberty – e o site russo Meduza. O canal independente TV Rain também saiu do ar na quinta-feira, 3.

Emboscada

Os ataques aos jornalistas não se limitam apenas ao campo legislativo, visto que, em 28 de fevereiro, uma equipe de reportagem do canal britânico Sky News, que também transmite na Rússia, sofreu uma emboscada nos arredores de Kiev. Em vídeo divulgado na sexta-feira, 4, dois repórteres são atingidos por tiros, enquanto pedem que os soldados parem. Na ocasião, Stuart Ramsay teve um ferimento nas costas, e o cinegrafista Richie Mockler levou dois tiros e foi salvo pelo colete à prova de balas.

Os jornalistas comentaram o acontecido ao vivo na programação do canal. “Fomos informados por ucranianos que estávamos sendo emboscados por um esquadrão de morte russo. É um milagre que qualquer um de nós tenha saído vivo”, contou Ramsay. Logo em seguida, os profissionais se despediram da audiência e, nos últimos segundos, o programa exibiu a mensagem “Não à guerra”. O que já foi motivo para o canal ser temporariamente bloqueado pelo governo russo, com a justificativa de “incitar extremismo, abusar dos cidadãos causando perturbação em massa da segurança do público e encorajando protestos”.

Ainda assim, para combater o bloqueio de meios de Comunicação independentes na Rússia, a Repórteres Sem Fronteiras relançou a ‘Operação #CollateralFreedom’, que usa tecnologia para espelhar sites em outros endereços e servidores e permitir que as notícias contornem a censura.

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