Avaliações sobre o desempenho da imprensa brasileira e uma revelação surpreendente sobre o destino de documentos do DOPS durante a ditadura pontuaram o debate promovido no sábado, 26, pelo jornal JÁ. O jornalista Flávio Tavares afirmou que os meios de comunicação são responsáveis “por toda esta balbúrdia e inoperância política que existe hoje no País”. E o advogado Jair Krischke revelou que os arquivos do DOPS, que foram queimados publicamente em 1986, foram antes microfilmados e hoje “estão no quinto andar do QG do Comando Militar do Sul”.
O debate foi realizado na ARI (Associação Riograndense de Imprensa) sob a coordenação do diretor da JÁ Editores, Elmar Bones, que lançou o Kit Antiditadura – três edições especiais da revista JÁ sobre o ciclo militar de 1964. “Posso dizer que vivi um dia histórico”, escreveu Elmar no site da publicação. “Tive a honra de ter a meu lado na mesa dois dos maiores lutadores pela democracia no Brasil, o jornalista Flávio Tavares e o presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Jair Kritschke”. Elmar registrou que o que mais o impressionou foi que nenhuma das cerca de 80 pessoas que estavam no auditório se ausentou durante as duas horas de conversa.
Flávio Tavares trouxe a ideia que norteou os debates: a prática de simulação introduzida pelo regime militar (era uma ditadura que simulava que era democracia) é o vírus que contamina até hoje o organismo político do País. “Até hoje vivemos isso, todos simulam que defendem o interesse público, mas cada um só defende seu próprio interesse”, disse. Ele também sustentou que os cronistas da imprensa brasileira tratam a política como se fosse a francesa ou a alemã. “É um erro porque não desmistificam o que existe. Por exemplo, este Ministério da Dilma tem oito políticos respondendo a processo e ninguém ressalta isso. Daí o desconhecimento da população e esta sensação de que o eleitor não sabe votar”.
O jornalista, que tem uma coluna semanal em Zero Hora, afirmou que Xuxa, Ratinho, Gugu e Faustão “são os ministros da Educação no Brasil e são eles os responsáveis pela deseducação da população brasileira”. Segundo ele, “os meios de comunicação atuam como caixas registradoras. O importante não são as ideias e sim seus balanços . Por isso são diretamente responsáveis pelo quadro político que temos aí”.
Jair Krischke, por sua vez, deu um exemplo concreto do que seria “a prática da simulação introduzida pelo regime militar”, apontada por Flávio: os documentos da polícia política do Rio Grande do Sul. O então governador, Amaral de Souza, anunciou publicamente em 1982 que eles foram queimados. Na verdade, revelou Jair, foram queimados os registros em papel, que antes foram microfilmados e estão mantidos em sigilo até hoje. “Estão no QG do Comando Militar do Sul”, assegurou. “Estão supostamente bem guardados, mas não podem ser consultados por ninguém. Por lógica e lei, deveriam estar no Arquivo Público do Estado”.


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