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Petrópolis: “Temos que ter respeito e empatia pelas pessoas” diz Mateus Marques

Em entrada ao vivo, repórter da Globo News pediu ao cinegrafista para virar a câmera, com o intuito de não mostrar a retirada de um corpo pelos bombeiros

Foi na noite da própria terça-feira, 15, que o repórter da GloboNews Mateus Marques recebeu o telefonema da redação informando que viajaria para Petrópolis no dia seguinte. A cidade, localizada na região serrana do Rio de Janeiro, era castigada por uma forte chuva. Algumas horas depois, os olhos do jornalista contemplavam um verdadeiro “cenário de guerra”, como descreveu o comunicador nesta entrevista exclusiva ao portal Coletiva.net. “Temos que ter respeito e empatia pelas pessoas. Qual é o nosso limite no momento de compartilhar aquelas histórias?”, enfatizou. 

O jornalista fez dezenas de entradas ao vivo ao longo dos cinco dias que ficou na cidade. Em uma delas, a equipe mostrava o trabalho dos bombeiros e dos cães que farejavam corpos em meio à lama. Foi nesse momento que Mateus viu o sinal de que haviam localizado uma vítima: “Quando percebi que a câmera enquadrava a retirada do corpo, rapidamente pedi ao cinegrafista para virar para o outro lado. Não tem sentido mostrar uma imagem dessas na TV”, comentou. 

Mateus relatou que o familiar estava ali, próximo ao local, assim como as pessoas da comunidade, mas que foi preciso tomar uma decisão rápida. “Eu não queria que os telespectadores vissem o que eu estava presenciando. Eu tive que me segurar, pois era uma criança sendo resgatada”, lamentou. Ele reforçou a necessidade de respeitar o momento de cada vítima, como o entrevistado que mostrou a ele a casa em que morava com os oito familiares, todos mortos na tragédia. 

“No piloto automático”

Para o jornalista, o ritmo de trabalho intenso o coloca em uma espécie de “piloto automático”, modo necessário para fazer as inúmeras inserções na tela da GloboNews e também na TV Globo. Ele recordou que em um dos dias chegou a trabalhar 13 horas, algumas vezes permanecendo 15 minutos no ar. “Assim que cheguei, coloquei os fones, jogamos o sinal e iniciamos a transmissão em diferentes pontos da cidade. Eu entrava no carro, me deslocava para outro lugar e já tinham muitos relatos e destruição”, relembrou. 

Em meio a tantas histórias para contar, pessoas para ouvir, cenas tristes para registrar, o repórter apontou que pouco tempo sobrou para se alimentar ou ir ao banheiro. Mas devido ao grande deslocamento da equipe pela cidade, acabava encontrando um restaurante para almoçar, entretanto, já durante a noite. “Era quando dava para parar. Antes disso, fazíamos um lanche rápido entre uma entrada e outra”. Muitas vezes, os banheiros químicos espalhados pela cidade foram a alternativa quando precisou, mas Mateus citou a disponibilidade dos voluntários, como uma senhora que abriu a casa para a imprensa e demais moradores e voluntários tomarem água ou fazerem um lanche. Na casa dela, eram preparadas e distribuídas marmitas para quem precisasse. 

Outras coberturas marcantes 

No Rio de Janeiro desde 2020, o jornalista participou de outras coberturas de destaque, como o desabamento de um prédio na cidade que provocou dezenas de mortes e o velório da cantora Marília Mendonça. Mateus viajou até Goiânia para acompanhar a despedida de fãs e artistas da ‘rainha da sofrência’, apelido que ganhou dos admiradores. “Mas Petrópolis é a maior cobertura da qual participei, tanto em número de vidas perdidas quanto de dias em que fiquei em uma cidade, nas entradas na TV e no tempo que fiz o boletim no ar”, resumiu. 

Reconhecimento

O jornalista destacou que viveu algo inesperado em meio a esta cobertura: o retorno positivo do público que o segue nas redes sociais. O que ajudou na repercussão do trabalho do repórter foi um tweet, em que um telespectador escreveu: “O repórter Mateus Marques, da Globo News, fazia uma entrada ao vivo quando os bombeiros começaram a se movimentar mais intensamente, era um corpo sendo encontrado. Ele pediu ao cinegrafista para apontar – a câmera – para o outro lado, reportou, suspirou e entregou para o estúio”. 

A postagem recebeu muitos likes e compartilhamentos. “O único lado que me deixou com a sensação de dever cumprido foi ter recebido esse retorno dos seguidores, de como a gente conseguiu se expressar de forma sensível”, observou. Para ele, esse reconhecimento vale quando se está em meio a uma tragédia, compartilhando a dor e a tristeza. “Isso é o Jornalismo e ele é necessário para cobrar que casos assim não se repitam e que as vítimas tenham um retorno rápido para ter uma nova casa ou conseguir o aluguel social e conquistarem seus direitos”, finalizou. 

Pelotense, Mateus Marques é formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas, trabalhou em TVs locais e iniciou estágio na RBS TV da cidade em 2013. Foi contratado como repórter em 2016 e no ano seguinte seguiu para Porto Alegre. Em março de 2020, foi convidado a trabalhar na Globo News no Rio de Janeiro, onde atua até hoje. Atualmente, é repórter especial do jornal ‘Conexão Globo News’, que ocupa a faixa das 9h às 13h e apresentador do quadro ‘Feed Economia’.

Há mais de uma semana a cidade de Petrópolis foi devastada por uma forte chuva. Até o momento desta publicação, foram contabilizadas mais de 190 mortes e mais de 60 pessoas desaparecidas. Coletiva.net acompanha o trabalho dos gaúchos que mostram ao Brasil a dimensão desta tragédia. Confira as entrevistas de Flávio Fachel, do repórter da rádio Gaúcha, Eduardo Matos, que era o único jornalista de uma emissora do Rio Grande do Sul acompanhando os desdobramentos na cidade e da única jornalista mulher de origem gaúcha, Paloma Poeta, da Record TV carioca. 

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