As declarações de Alexandre Fetter durante o programa Pretinho Básico, da rádio Atlântida, sobre sua indignação com a onda de violência no Rio Grande do Sul vêm rendendo manifestações adversas. Desta vez, os professores de Jornalismo da Unisinos divulgaram carta aberta em resposta ao radialista, que, na última semana, leu um texto se posicionando frente à crise de segurança no Estado. Na ocasião, sugeriu a morte de colegas comunicadores e parentes de governantes, o que gerou grande repercussão nos últimos dias.
Na resposta, os docentes destacam que Fetter teria feito “uma sequência de insultos e incitação à violência contra os que supostamente seriam os culpados pelos dados que preocupam a todos”. O texto também registra o quão preocupados os professores ficam com o fato de um radialista de uma emissora com tamanha audiência usar o espaço para contrariar os princípios éticos do Jornalismo.
Nesta segunda-feira, 29, Fetter abriu o programa das 13h pedindo desculpas a todos os que se sentiram ofendidos com seu desabafo, ratificando ser um pai de família e um profissional que luta pela paz.
Confira a carta de repúdio na íntegra:
Manifestação de Repúdio
Nós, professores de Jornalismo da Unisinos abaixo listados, por iniciativa do grupo, manifestamos nosso repúdio ao conteúdo da “carta aberta” lida pelo comunicador Alexandre Fetter no Programa Pretinho Básico da Rádio Atlântida FM na última sexta-feira, dia 26 de agosto. De acordo com o áudio disponível na página do programa, o “pequeno editorial” teria um caráter de desabafo frente aos casos de latrocínio que aumentam no Estado e um pedido de solução urgente para a escalada da violência.
O que se ouviu, no entanto, foi uma sequência de insultos e incitação à violência contra os que supostamente seriam os culpados pelos dados que preocupam a todos. Dentre eles, os políticos, magistrados e jornalistas (formadores de opinião) que fazem críticas aos excessos da Brigada Militar, acusados pelo apresentador de “proteger bandidos”.
Disse ele: “Não é possível que jornalistas ou formadores de opinião sigam em seus espacinhos públicos batendo na Brigada Militar, na Polícia, em suas práticas de defesa da sociedade, denegrindo (sic) e manchando a imagem da instituição. Tenho mais do que vergonha destas pessoas, tenho nojo destas pessoas, gente que eu adoraria citar o nome, colegas de profissão que trabalham ali no morro do lado, trabalham aqui, um pouquinho acima, mas não dá, infelizmente. Para mim, que gente assim sejam as próximas vítimas, que sejam eles a sangrar e deixar suas famílias enterradas”.
Preocupa-nos sobremaneira que este tipo de manifestação possa ser entendida como Liberdade de Expressão, princípio inalienável da função jornalística e comunicativa. Há que se distinguir que nenhum direito, como o de opinar, pode ser superior ao direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal (Artigo III da Declaração Universal de Direitos Humanos). Direito este aviltado pelo comunicador, que mostrou desejar destruir seletivamente pessoas e pensamentos divergentes dos seus. É fundamental que se diga que a incitação à violência é crime previsto no Código Penal (Art.286).
Ficamos atemorizados com o fato de um comunicador que tem o microfone à disposição numa das rádios de maior audiência neste Estado possa estar usando esse espaço para ir contra os princípios que norteiam a profissão jornalística que, em qualquer situação, devem balizar-se por conduta ética.
Acreditamos que é função de todos os cidadãos estarem atentos aos compromissos assumidos pelos veículos nos seus códigos de ética. A atuação do comunicador vai frontalmente contra o Código de Ética e Conduta e o Guia de Ética e Autorregulamentação Jornalística do grupo RBS disponibilizados para o público. Dentre os princípios, está o de que “A RBS não admite preconceito de qualquer espécie”, e ainda, “As fronteiras de opinião são demarcadas por valores e pela responsabilidade individual. Tais princípios devem ser respeitados por jornalistas e comunicadores, incluindo colunistas e comentaristas regulares ou não”.
Cabe ressaltar que o episódio em questão afronta a Constituição Federal. Em seu artigo 221, inciso IV, ela estabelece que a programação das emissoras de rádio e televisão deve pautar-se pelo “respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família”.
Por fim, manifestamos toda solidariedade às vítimas desta violência que tem destruído famílias em todos os estratos sociais. Concordamos que a crise da falta de segurança no Rio Grande do Sul é grave, e que exige a colaboração cidadã de todos. As críticas devem ser feitas, mas lembrando que a violência não pode ser combatida com mais violência. O momento requer reflexão, discernimento e ações firmes, embasadas numa cultura de paz.
Alberto Efendi de la Torre
Beatriz Marocco
Beatriz Sallet
Cybeli Moraes
Debora Lapa Gadret
Daniel Bittencourt
Daniel Pedroso
Edelberto Behs
Éverton Cardoso
Felipe Boff
Flavio Dutra
João Damasceno Ladeira
Luciana Kraemer
Maria Clara Aquino Bittencourt
Mariana Bastian
Marlise Brenol
Micael Vier Behs
Nikão Duarte
Pedro Luiz da Silveira Osorio
Ronaldo Henn
Sabrina Franzoni
Sérgio Endler
Sônia Montaño
Thaís Furtado
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