“Nossa indústria vai se transformar em um ramo da indústria de software”, disse o publicitário Abel Reis na palestra de abertura do Mídia Show 2010, evento promovido pelo Grupo RBS, no Teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre, nesta quarta-feira, dia 1º de setembro. Presidente da AgênciaClick Isobar e doutorando em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, Abel Reis abordou o tema ‘Transformando o Digital em Resultados Reais’. Na prática, deixou no ar novos vocábulos, algumas provocações e um instigante case de lançamento de carro sem nenhum gasto em mídia.
De acordo com Reis, a indústria publicitária está se softwerizando – e eis aqui um dos neologismos apresentados pelo palestrante. O fenômeno resulta na emergência de novos players de criação e intermediação de conteúdos, inclusive amadores. Também há a pressão exercida pelos sistemas de buscas – principalmente o Google, é claro –, que criaram, nas palavras de Reis, a “cultura da busca” que hoje interfere significativamente na indústria da publicidade.
Outra particularidade do mercado atual salientada por Abel – e vamos ao neologismo novamente – é a componentização de software: ofertas de serviços e produtos embarcados em componentes de softwares em uma escala cada vez mais fina, cada vez mais específica. Finalmente, a obsolescência contínua, lógica da indústria de tecnologia de informação, também caracteriza a atividade publicitária nos dias de hoje. “A Intel sabe exatamente o processador que teremos daqui a 18 meses, mas nós não sabemos”, brincou Reis.
Diante da transição de um paradigma de mídia de massa para o paradigma de mídia de rede, na qual a audiência se configura também como um veículo organizado em novas plataformas de tecnologia, Reis apontou desafios para a publicidade. Uma delas é a exigência de centralidade em tecnologia, “algo que nunca tivemos no nosso negócio”. Ao encerrar, o palestrante exemplificou as afirmações com o case do Fiat Mio, carro que a montadora irá apresentar no próximo Salão do Automóvel, em outubro.
Inspirada na experiência do Linux, sistema operacional livre aberto para uso, desenvolvimento e alteração por parte de qualquer pessoa, a criação do Fiat Mio foi promovida por meio da Internet, com a participação de dezenas de milhares de pessoas de 120 países. “Há ordem e beleza no caos”, afirmou Reis. Ao caracterizar o case “como um modo aberto, revolucionário, de fazer comunicação, sem o investimento de um único real em mídia”, Reis salientou que a iniciativa alterou inclusive o comportamento da indústria automobilística, nascida sob o paradigma do mais absoluto segredo. É que, tal qual o Linux, o Fiat Mio será um projeto aberto: as especificações técnicas ficarão disponíveis no Creative Commons, projeto que disponibiliza licenças flexíveis para obras intelectuais.


