Durante a cobertura das enchentes em Lajeado, no Vale do Taquari, uma situação comum no Jornalismo de rua ganhou um novo desfecho graças à inteligência artificial (IA). Diante da dificuldade de se comunicar com um imigrante de Bangladesh que falava apenas bengali, o repórter Jônatha Bittencourt recorreu ao ChatGPT para realizar uma tradução em tempo real e conseguir contar uma história que, até então, parecia inacessível.
A experiência ocorreu durante uma entrada ao vivo no ‘Balanço Geral RS’ no mês de julho. No dia anterior, o jornalista já havia encontrado imigrantes de Bangladesh, Gana e Haiti no Parque do Imigrante, mas a barreira do idioma impediu qualquer conversa mais aprofundada. A frustração motivou uma busca por alternativas.
Teoria e prática
“No caminho para Lajeado, comecei a pensar se uma IA poderia fazer a tradução simultânea”, revelou Bittencourt em entrevista ao portal Coletiva.net. Antes de iniciar a cobertura, ele testou diferentes plataformas, entre elas, ChatGPT, Claude e Gemini. Apesar dos experimentos, ainda havia dúvidas sobre a eficiência da tecnologia em uma situação real.
A oportunidade surgiu quando a equipe — também composta pelo cinegrafista Flavio Silva e pelo auxiliar Valdir Júnior — encontrou um trabalhador caminhando por uma das áreas mais atingidas pela cheia. Depois de algumas tentativas de comunicação em português, o homem informou que era de Bangladesh. Foi então que o repórter abriu o ChatGPT e inseriu um comando simples: traduzir do português para o bengali e do bengali para o português.
A estratégia permitiu que a entrevista acontecesse. O imigrante relatou que, embora já estivesse acostumado às enchentes em seu país de origem, que naquele período também enfrentava uma tragédia com dezenas de mortes e centenas de milhares de pessoas afetadas, era a primeira vez que vivia uma situação semelhante no Brasil.
Para o jornalista, o recurso tecnológico tornou possível revelar uma realidade muitas vezes invisível. “No final das contas, alguém que deixou tudo para trás para tentar uma nova vida acabou enfrentando problemas parecidos. Por terem menos condições, muitos acabam morando em áreas mais vulneráveis às enchentes”, comentou.
Segundo Bittencourt, a experiência também trouxe um componente de incerteza. “Foi a primeira vez que usei esse tipo de ferramenta. Teve um pouco de adrenalina, porque poderia ter dado bastante errado. Felizmente, deu certo e conseguimos transmitir um pouco da história daquele rapaz.”
O episódio reforça como a inteligência artificial já ocupa novos espaços na rotina das redações, não apenas na produção de conteúdo, mas também como ferramenta de apoio à reportagem em campo. Para o repórter, porém, a tecnologia deve ser encarada como um recurso complementar.
O que a IA não substitui
“Acredito que temos muito a aprender sobre o uso da inteligência artificial. Podemos nos aperfeiçoar para que ela seja utilizada de forma consciente e ética, ajudando a romper barreiras, como a de um idioma desconhecido”, diz.
Apesar dos avanços tecnológicos, ele acredita que há um aspecto insubstituível no exercício da profissão. “Com toda essa evolução, ainda é difícil imaginar que a IA consiga substituir o afeto, o abraço e o calor humano que nós, jornalistas, compartilhamos com as pessoas em coberturas tão sensíveis como as enchentes.”

Print da entrevista no ChatGPT do repórter. – Crédito: Arquivo pessoal.

