Dar aos candidatos mais tempo para explicar as propostas, sem a dinâmica de ataques e respostas que costuma marcar os debates. Essa foi a proposta das sabatinas realizadas pelo Jornal do Comércio com quatro concorrentes ao governo do Rio Grande do Sul em 2026. Para a editora de Política do veículo, Paula Coutinho, o formato permite uma interlocução mais direta com os jornalistas e favorece o aprofundamento dos assuntos de interesse do eleitor.
Os convidados foram definidos a partir da representação dos partidos na Câmara dos Deputados. O Jornal do Comércio adotou o mesmo critério previsto na legislação eleitoral para a participação de candidatos em debates promovidos por emissoras de rádio e televisão. A diferença, no entanto, está na dinâmica das entrevistas.
Sem a presença dos adversários, os participantes podem concentrar o tempo disponível na apresentação das propostas e na resposta aos questionamentos feitos pelos profissionais do veículo. “Muitas vezes, eles estão mais preocupados em atacar o adversário do que em apresentar suas propostas. Ou querem apresentar a proposta, mas foram atacados e precisam responder àquela provocação para, em um tempo que já é limitado, falar sobre as suas propostas”, avaliou Paula, em entrevista ao Coletiva.net.
Porém, mesmo recebendo um maior espaço do veículo, as declarações não deixam de ser confrontadas. De acordo com a editora, cabe aos entrevistadores mediar a conversa, pedir esclarecimentos e apresentar contrapontos quando dados ou informações colocarem em dúvida a contextualização feita pelo candidato. “A gente faz a abordagem com sutileza, para não parecer agressivo, mas também para não aceitar tudo o que é dito sem questionar. O jornalista, por essência, é um questionador”, afirmou.
Mediação para diferentes públicos
Outro objetivo das sabatinas é fazer com que os candidatos traduzam as propostas para públicos com diferentes níveis de conhecimento sobre os temas abordados. Paula considera que o jornalista deve atuar como um facilitador, ajudando a tornar compreensíveis assuntos que podem envolver termos técnicos ou discussões específicas.
Essa mediação, segundo ela, exige equilíbrio entre firmeza e imparcialidade. O entrevistador deve evitar uma postura desrespeitosa, mas não pode aceitar respostas evasivas ou deixar de questionar afirmações que possam ser contestadas.
A editora também ressalta que o trabalho não se limita a apresentar dois lados. Dependendo do assunto, é necessário incorporar outras perspectivas e reconhecer que determinados debates políticos, sociais ou econômicos possuem maior complexidade.
Além disso, para preparar as perguntas, a equipe considera as particularidades de cada eleição. Entram nesse processo as articulações políticas, as forças envolvidas na disputa, o cenário econômico e as demandas apontadas pelos eleitores naquele período.
Experiência iniciada com a urna eletrônica
Paula acompanha eleições há 30 anos. A primeira experiência ocorreu em 1996, em Caxias do Sul, durante o teste-piloto realizado simultaneamente com cédulas de papel e o sistema eletrônico de votação, antes da implantação da urna eletrônica na rotina eleitoral brasileira.
No Jornal do Comércio, a cobertura de eleições faz parte de seu trabalho há pelo menos duas décadas. A jornalista iniciou a trajetória no veículo como repórter da editoria de Política e, em 2012, assumiu a edição da área. Desde então, participou da cobertura de eleições gerais e municipais.
Para ela, essa bagagem contribui para a condução das entrevistas, mas não estabelece uma fórmula permanente. Cada pleito apresenta circunstâncias próprias e exige que as perguntas sejam construídas a partir do contexto vivido naquele momento.
Distribuição em diferentes plataformas
Além dos conteúdos publicados na edição impressa, as sabatinas foram gravadas em formato de podcast audiovisual para veiculação no site e nas redes sociais do Jornal do Comércio. Paula destacou que a produção integrada foi uma novidade na cobertura do veículo em 2026.
A adoção do audiovisual amplia a distribuição das entrevistas e permite que o público acompanhe as respostas dos candidatos em diferentes plataformas. “Hoje, a comunicação se dá dessa forma, integrada. Nesse sentido, foi algo inovador nesta eleição de 2026 na cobertura do Jornal do Comércio”, conclui.

