Quatro décadas equivalem a aproximadamente 14.610 dias. Esse é o tempo de casa do diretor de Redação do Correio do Povo, Telmo Flor, que nesta terça-feira, 21, completa 40 anos de atuação no jornal. Antes mesmo de integrar a equipe, quando trabalhava como office boy e ia até a empresa para realizar pagamentos, já alimentava o sonho de construir uma carreira no veículo. Na época, os sonhos eram maiores do que os planos, mas a vontade permaneceu. Em entrevista exclusiva ao Coletiva.net, o jornalista relembrou a trajetória, falou sobre as transformações da profissão e compartilhou suas expectativas para o futuro.
Antes de chegar ao Correio do Povo, Telmo trabalhou na Rádio Guaíba, em 1985. No ano seguinte, em 21 de julho, ingressou no jornal como redator da editoria de Política, pouco antes da retomada das atividades da publicação. “Ele estava fechado desde 1984 e, nesse período, foi comprado pelo empresário Renato Ribeiro. Participei dos pilotos que fizemos para preparar a volta do jornal, que aconteceu logo depois”, recordou.
Desde os primeiros dias na redação, Telmo fez o possível para permanecer onde acreditava estar realizando seu maior objetivo profissional. Na época, era funcionário federal, mas abriu mão do cargo para seguir a carreira jornalística e trabalhar no Correio do Povo. Segundo ele, um dos principais motivos para permanecer por tanto tempo foi a possibilidade de exercer a profissão em um ambiente comprometido com a qualidade do Jornalismo.
Como inspiração, Telmo cita uma frase do escritor e jornalista colombiano Gabriel García Márquez: “Jornalismo é a melhor profissão do mundo“. Ao longo dessas quatro décadas, acompanhou a chegada e a saída de inúmeros colegas, enquanto outros permaneceram ao seu lado na redação. Para ele, sua longa trajetória está diretamente ligada à oportunidade de continuar fazendo Jornalismo.
“Essa possibilidade vem sendo mantida a cada dia. O jornal tem preservado, apesar de todas as mudanças que aconteceram, a capacidade de fazer Jornalismo, ou seja, de que quem está aqui exerça essa profissão”, afirmou.
Recordações da trajetória
Para Telmo, quem trabalha diariamente em um jornal vive da novidade. “Todo acontecimento é relevante porque, todos os dias, temos de fazer um jornal, publicar notícias”, comentou. Ao longo da carreira, acompanhou coberturas marcantes, como eleições, a Copa do Mundo de 1994, a Assembleia Constituinte e conflitos internacionais, entre eles a Guerra do Iraque.
Na memória, acumulam-se incontáveis manchetes. Hoje, além da edição impressa, a preocupação também envolve o ambiente digital. “Costumo acordar já preocupado com a manchete do jornal e, agora, também com a do site. Os acontecimentos são o nosso cotidiano.”
Além das grandes coberturas, Telmo destaca momentos pessoais proporcionados pela profissão, como as oportunidades de conhecer diferentes países e participar de cursos de aperfeiçoamento na área. “O jornal me propiciou conhecer vários países e fazer vários cursos de Jornalismo”, lembrou. Segundo ele, essas experiências fortaleceram ainda mais sua ligação com o veículo e com a profissão.
O impacto da tecnologia
Ao avaliar as principais transformações vividas durante sua carreira, Telmo aponta a evolução tecnológica como a mudança mais significativa, especialmente com o surgimento da internet, que alterou tanto a forma de produzir quanto de distribuir notícias. “Comecei aqui ainda usando máquinas de escrever, apesar de os computadores já estarem no jornal. Poucos meses depois, de maneira pioneira no Rio Grande do Sul, começamos a usar computadores na redação.”
Conforme ele, o Correio do Povo enxergou a internet como uma oportunidade de qualificar o trabalho jornalístico. “Ou seja, nunca tivemos medo da internet. Pelo contrário, utilizamos a internet e fomos pioneiros em sua utilização como forma de qualificação do nosso trabalho.”
Mais recentemente, episódios como a pandemia de Covid-19 e as enchentes no Rio Grande do Sul também provocaram mudanças importantes na rotina da redação. O trabalho remoto, adotado durante a pandemia, voltou a ser implementado quando o prédio do jornal foi atingido pelas cheias.
“Esses são episódios que tiveram uma influência muito grande no nosso trabalho, pessoalmente e no jornal.” Para ele, foram acontecimentos relevantes não apenas pelo aspecto jornalístico, mas também pelos impactos na organização e no modelo de produção.
Paixão pela profissão
Ao deixar um conselho para quem está começando na carreira, Telmo defende a busca constante por conhecimento. De acordo com ele, as ferramentas mudam rapidamente, mas quem possui sólida formação cultural, domínio da língua e interesse por diferentes áreas estará mais preparado para enfrentar as transformações da profissão.
“Quanto mais livros ler, quanto mais souber, mais preparado vai estar para as transformações, que são inevitáveis.” Mais do que isso, acredita que é indispensável cultivar paixão pelo Jornalismo.
“É isso que eu digo para os jovens: essa é uma profissão que merece ser vivida na plenitude e merece o esforço de cada um de nós para fazer melhor. Ela representa não apenas um papel importante para a sociedade e para a democracia, mas também para cada um de nós que opta por esse caminho. É um caminho de dignidade, de crescimento pessoal e algo que é bom demais de fazer.”
Se pudesse conversar com o jovem que iniciou a carreira há 40 anos, Telmo afirma que o incentivaria a nunca desistir dos próprios sonhos. Como ainda se considera um homem em construção, diz manter o mesmo entusiasmo dos primeiros anos na profissão.
“Sempre tive um objetivo de fazer melhor, de exercer melhor a profissão, de fazer com que o jornal fizesse melhor e estar nas posições em que estive ao longo da carreira.”
Planos para o futuro
O gosto pelo Jornalismo também foi transmitido aos filhos. “A paixão por conhecer e por trabalhar naquilo que você gosta. Acho que essas são as principais recomendações. Meus planos para os próximos anos são continuar fazendo isso”, afirmou.
O diretor de Redação deseja seguir sonhando e aprimorando o trabalho em benefício do que chama de “amigo leitor”, expressão aprendida com um antigo editor. “Peguei isso e realmente quero continuar tendo os amigos leitores como foco do meu esforço, do meu trabalho e, principalmente, de propiciar espaços para que outras pessoas também possam exercer essa profissão aqui no Correio do Povo.”
Para Telmo, o Jornalismo nunca é uma construção individual. “Esse não é um trabalho solitário, mas coletivo, construído por muitas pessoas que estiveram antes, estão no presente e ainda estarão no futuro.”

