Com início em 13 de janeiro, a 23º edição do Porto Verão Alegre volta a ocupar os palcos da capital depois de uma edição totalmente digital no ano passado. Com 64 atrações na programação, sendo 12 delas inéditas, o primeiro espetáculo de 2022 será apresentado no Teatro do Centro Histórico-Cultural Santa Casa. O drama ‘O Inverno do Nosso Descontentamento – Nosso Ricardo III’, com os atores Marcelo Ádams e Margarida Peixoto, terá quatro apresentações, de 13 a 16 de janeiro, sempre às 21h. Os ingressos estão disponíveis no site.
Partindo de uma das obras da dramaturgia universal ‘Ricardo III’, de William Shakespeare, o espetáculo é marcado por abordar questões como violência e desumanidades. “Em nosso espetáculo, antropofagizamos a biografia de Ricardo para ir além de sua vida: ele é, para nós, um símbolo de todos os governantes criminosos, dos ditadores e dos autocratas ao longo da História que chegaram ao poder pelo voto ou por golpes de Estado”, explica o ator Marcelo Ádams, citando nomes como Hitler, Mussolini, Saddam, Kadafi e Franco, entre outros.
Como destaca Ádams, a obra de Shakespeare, mesmo escrita há mais de 400 anos, continua sendo um espelho para qualquer sociedade que a encene. “As questões trazidas em suas peças falam da aventura humana, independente de época e lugar. Acreditamos fortemente que o mundo de 2022 espelha o mundo do Ricardo III medieval”, ressalta o ator.
Um olhar para o contemporâneo
A peça que abre o Porto Verão Alegre de 2022 também aposta na inteligência dos espectadores, misturando em um mesmo texto cenas de grande intensidade emocional com momentos de sarcasmo e crítica à sociedade contemporânea. Em ‘O Inverno do Nosso Descontentamento – Nosso Ricardo III’, os atores Marcelo Ádams (Ricardo III) e Margarida Peixoto (Coronel) transitam com total liberdade e profunda teatralidade entre diferentes séculos e continentes, produzindo um espetáculo cheio de som e fúria.
“É esperado que um texto clássico, para que permaneça relevante ao longo de tantos séculos, consiga dialogar com o público de sua época. No século 21, não se pode ignorar as especificidades de um planeta globalizado e as associações que se criam entre governos autoritários, a religião e o militarismo. Basta olhar ao redor para percebermos o campo minado no qual tantos países se movem atualmente”, destaca Ádams.
No espetáculo, a cenografia é composta por dezenas de equipamentos e de mobiliários hospitalares, andaimes, brinquedos infantis e incontáveis livros, que desestruturam o universo caótico e ambíguo no qual se movem os personagens. “O Coronel, figura onipresente no espetáculo, atuada brilhantemente por Margarida Peixoto, representa a associação espúria dos governos civis com o militarismo”, explica o ator.
Ádams, que possui quase 30 anos de teatro, considera a interpretação de Ricardo III um dos seus grandes desafios como ator. “É um tour de force, como dizem os franceses quando se referem a uma atuação extremamente exigente em termos de quantidade de texto, de entrega emocional e de preparo técnico necessários para dar vida a esse(s) Ricardo(s)”, frisa.

