Antônio Goulart: Disposição para resgatar memórias

Mesmo aposentado, não cogita desligar-se das atividades relacionadas ao que considera sua predestinação: o jornalismo

Uma das lembranças mais marcantes que Antônio Goulart tem da infância está diretamente ligada à profissão que escolheu para exercer. "O jornalismo entrou na minha vida como uma predestinação", supõe Goulart. Quando criança, uma das incumbências do "gurizote", intermediário entre dez irmãos, era caminhar mais de um quilômetro para buscar o Correio do Povo e a Revista do Globo, todas as tardes, numa "venda" onde eram deixados pelo ônibus que vinha de Porto Alegre. A atribuição lhe foi dada pelo pai, descrito por ele como homem simples, mas curioso, que procurava estar sempre informado sobre o que acontecia no País e no mundo. Com o jornalista não seria diferente. Assim, alfabetizou-se lendo, justamente, as publicações onde viria a trabalhar dez anos mais tarde.


Batizado e registrado como Antonio Silveira Goulart, adotou, profissionalmente, por capricho, Antônio Goulart - com acento. "A maioria das pessoas querem manter a grafia original. Eu não. Sou pela regra gramatical", faz questão de explicar. Nasceu em 1º de julho de 1935, num lugarejo chamado Pinheiro Grosso, interior de Vacaria. Passou a infância numa fazenda ao lado, no município de Bom Jesus. "Um lugar aberto, de amplos horizontes, que favorecia os vôos da imaginação e dos sonhos. Assim, não tive tempo de me aquerenciar por lá. Por força das circunstâncias, acabei me tornando um ser urbano", define. Tanto que logo alçou vôo, transferindo-se para a Capital gaúcha.


Há 20 anos, Goulart integra o Conselho e a Diretoria Executiva da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), onde atualmente é diretor cultural e coordenador do setor de Concursos. O jornalista também colabora com o jornal da entidade e realiza pesquisas para os livros sobre a história do Prêmio ARI. Mesmo aposentado, abre mão de usufruir de muito sossego e procura manter-se sempre ocupado. "Sou aposentado, mas não inativo", esclarece. Gosta de escrever com base nas informações pesquisadas. Costuma produzir artigos e já tem dois livros: "O outro lado do poder - o bom-humor no Palácio Piratini", de 1996, e "As tiradas do Dr. Brizola - o lado folclórico e carismático de um líder político", de 2004, já em sua segunda edição. As obras resultaram da convivência com o poder no Rio Grande do Sul. Goulart tem uma coleção de erros e gafes publicados em jornais que, futuramente, pretende transformar em livro.


Aos 72 anos, definitivamente, ficar parado não é com ele. Goulart ainda participa do Irpapos - Instituto Rua da Praia de Análise Política e Social. É um grupo de dez jornalistas - uma espécie de confraria - que, há 25 anos, se reúne quase que diariamente, na hora do almoço, na rua mais famosa do Centro de Porto Alegre. Periodicamente, também promovem encontros em outros horários, como churrascos.


Tranqüilidade em pessoa


Formado em Letras pela Ufrgs, Goulart chegou a fazer estágio como professor, mas logo percebeu que o magistério "não era a sua praia" e preferiu seguir no jornalismo. "Hoje posso dizer que não sei fazer outra coisa, de forma razoável, além do jornalismo". Mas ele tem algumas preferências. Não é um homem à moda antiga, pois resolve, com prazer, os imprevistos cotidianos da casa, aprecia cozinhar e ir às compras. "Em casa, sou só eu que costumo ir - e com gosto - ao supermercado, onde geralmente não resisto às tentações e exagero no consumo, principalmente de, digamos, supérfluos, como vinhos, queijos e outras iguarias, e também ferramentas. Também costumo quebrar galho em pequenos consertos domésticos, como instalações elétricas e hidráulicas mais simples".


Se tivesse que escolher outra profissão, seria guarda florestal. "Nem sei bem o porquê? Talvez por ser uma atividade ligada à natureza e um tanto solitária", explica. Pessoa simples, Goulart considera-se um tanto tranqüilo, metódico, pontual e quase sempre perfeccionista. "Sou tão tranqüilo que, certa vez, disse de brincadeira a um neto, de seus cinco ou seis anos, que eu ia à farmácia comprar um tranqüilizante. E ele retrucou: acho que tu precisas mais é de um "agitante"!", diverte-se contando.


A leitura está entre os seus hábitos mais antigos. O jornalista lê, em média, um livro por semana. Gosta de obras de romance, ficção, história, biografias, memórias e livros sobre jornalismo. Para ele, a palavra mais bonita da língua portuguesa é liberdade. A mais feia? Escroto. Em matéria de música, gosta de Milton Nascimento, Chico Buarque, Lupicínio, Simone, Joana e alguns eruditos. Há dez anos, costuma passar os verões inteiros, de dezembro a março, em Xangri-lá, onde tem casa.


Um ser urbano


Veio pra Porto Alegre aos 21 anos, para estudar. "Nesta época, o jornalismo ainda não me atraía? Eu gostava de literatura", lembra. Para conseguir pagar a pensão, trabalhou em escritórios, até ser convidado, em 1956, para ser revisor na Revista do Globo. Este foi seu primeiro contato com a área de comunicação. Logo, tornou-se repórter e, aos 24 anos já era secretário de redação. "Foi uma excelente escola de jornalismo. Tinha bons profissionais, como Erico Verissimo, que foi o primeiro diretor de redação". Goulart também cita Joseph Zukauskas, Joaquim da Fonseca, Léo Guerreiro, Célia Ribeiro, Eunice Jaques, Cremilda Araújo, Aníbal Bendati, Sampaulo, Enéas de Souza, Luiz Carlos Lisboa, Ney Fonseca e Walter Galvani como bons companheiros de redação.


A experiência na Revista do Globo durou nove anos, quando foi trabalhar no Rio de Janeiro com seu irmão, que, na época, tinha uma editora. Orgulhoso, conta que teve a oportunidade de conhecer Vinicius de Moraes e Tom Jobim. Em 1967, retornou e foi contratado pela Caldas Júnior, no Esporte da Folha da Tarde e, paralelamente, na assessoria de imprensa do Palácio Piratini, onde permaneceu por cerca de 20 anos sem nunca ter se filiado a qualquer partido político.


Grandes feitos


Casado com Maria do Carmo desde 1961, pai de dois filhos - Viviane, hoje formada em radiologia, e Mauro Antônio, fotógrafo publicitário que mora em Santa Catarina -, Goulart ingressou como jornalista no quadro de técnicos científicos do Estado, através de concurso público. Em 1970, cedido para atuar no Palácio do Planalto, junto à antiga Agência Nacional, hoje Radiobrás, e à Presidência da República no Governo Médici, mudou-se para Brasília. "Foi uma experiência interessante e profissionalmente rica. Na cobertura de atos do governo e viagens presidenciais, tive a oportunidade de conhecer praticamente todo o Brasil e parte da Europa", conta. Também pôde acompanhar a inauguração da Transamazônica e da Ponte Rio-Niterói, entre outros feitos. Avalia ter sido a passagem mais marcante de sua trajetória profissional, já que tinha que se "desdobrar" para atender à demanda no fornecimento de notícias aos jornalistas credenciados.


Quatro anos depois, retornou a Porto Alegre e continuou chefiando a sucursal da Empresa Brasileira de Notícias, sucessora da Agência Nacional. Também foi readmitido pela Caldas Júnior, novamente na área do Esporte, só que desta vez no Correio do Povo. Durante cinco anos, Goulart escreveu uma coluna diária no espaço antes ocupado por Ruy Carlos Ostermann, que foi para Zero Hora, e chegou, inclusive, a cobrir uma Copa do Mundo. Entre 1985 e 1987, teve passagem na redação de Zero Hora como editorialista. Depois de aposentar-se do serviço público em 1994, ainda trabalhou na assessoria de imprensa da OAB/RS e, em 1999, a convite de Marcelo Rech, retornou para a Zero Hora, onde foi o primeiro editor da seção "Almanaque Gaúcho". Nos últimos anos, atuou como colunista na revista Press Advertising.


Mais memórias


Goulart atribui sua formação humanística à passagem pelo seminário, aos 13 anos, em Caxias do Sul. "Em primeiro lugar vinha o estudo aprofundado da língua portuguesa e a leitura dos clássicos. Depois, o aprendizado de outros idiomas, como o latim e até o grego", conta. Por conta disto, o jornalista domina bem o francês, o italiano e o espanhol. Ansioso por conhecimentos fora do currículo escolar, também estudou taquigrafia, por correspondência, e esperanto - linguagem definida por ele como artificial, criada por um polonês há mais de um século -, por conta própria.


Hoje, o jornalista analisa o caminho percorrido e avalia seus feitos. "Eu acho que cumpri o que estava ao meu alcance e, por isso, me sinto um profissional realizado. As coisas mudaram e eu acompanhei essa evolução. Sou do tempo do linotipo, da máquina de escrever, e hoje as redações estão informatizadas", sintetiza. Para Goulart, a persistência é o segredo de tudo. "Tem que ter um objetivo e persegui-lo."

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