Algumas pessoas colecionam cargos. Outras, encontros. Denise Marusiak parece ter feito um pouco dos dois, mas é pelos vínculos que sua trajetória pode ser melhor compreendida. Aos 56 anos, depois de 16 anos à frente da área de Mídia da agência HOC – House of Creativity, assumiu há dois meses uma nova posição como head de Relacionamento Institucional. A mudança representa mais uma reinvenção dentro de uma história profissional pautada pelo comprometimento com as entregas e cultivo de bons relacionamentos.
Em uma frase, resume uma característica marcante de sua personalidade: “eu sou de relacionamentos longos”. Não é apenas uma maneira de explicar sua permanência na agência. É quase uma síntese de como enxerga o trabalho e a vida. Denise cria laços, cultiva amizades, gosta de reunir pessoas, organizar passeios, receber amigos em casa e de estar positivamente conectada com os clientes e o mercado. “Gosto de gente”, afirma.
Talvez por isso a nova função faça tanto sentido. Agora está dedicada justamente ao que sempre esteve por trás de seu trabalho: as relações entre agência, clientes, veículos, instituições e profissionais. A Publicidade continua sendo o território conhecido, mas agora o olhar se amplia para além das campanhas.
O começo entre trilhos e escolhas
A história começou longe dos escritórios e das salas de reunião de Porto Alegre. Denise nasceu em Porto Lucena, no interior do Rio Grande do Sul, e passou a infância e a juventude em Santa Rosa. Foi de lá que partiu para estudar na Capital, acompanhada pelas irmãs, Iara e Jane.
Em 1987, ingressou no curso de Publicidade e Propaganda da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). A escolha profissional não nasceu de uma revelação repentina. Foi resultado de uma combinação de curiosidade, testes vocacionais e das possibilidades existentes naquele momento. “Foi algo natural, fiz testes vocacionais”, conta.
A Publicidade apareceu como uma possibilidade ampla, capaz de reunir comunicação, comportamento e estratégia. E, ainda durante a graduação, Denise começou a encontrar dentro do próprio curso o lugar em que gostaria de construir a carreira.
A cadeira de Mídia chamou sua atenção desde cedo. Mais do que simplesmente escolher onde uma mensagem seria veiculada, interessava-lhe compreender o caminho percorrido entre a marca e o público. “Eu gostava de olhar para as narrativas, escolhas dos consumidores, como recebiam as mensagens”, explica.
A identificação foi tão forte que acabou definindo praticamente toda a vida profissional. Denise nunca precisou procurar uma segunda área para se realizar. Desde os primeiros estágios, foi construindo uma carreira dedicada à mídia, sempre no Rio Grande do Sul. Passou pela Escala, DCS e McCann Erickson, retornou à DCS e, em 2010, chegou à Morya que, com o passar do tempo, transformou-se na atual HOC.
Começar do zero
A chegada à Morya aconteceu ao mesmo tempo em que a agência abria sua filial no Estado. Com unidades em Salvador, na Bahia, e em Recife, Pernambuco, precisava estabelecer uma operação em Porto Alegre para atender ao Walmart, que havia adquirido o BIG. Era uma operação que começava praticamente do zero e que já tinha pela frente um dos maiores clientes do Rio Grande do Sul na área de Publicidade.
O calendário também não permitia muita adaptação: em duas semanas, uma grande campanha precisaria estar na rua. “Foi um desafio e um momento muito interessante da minha carreira”, enfatiza ela.
O processo de contratação ainda teve um detalhe curioso. Claudio Carvalho, então presidente da Morya, entrevistou Denise, decidiu contratá-la e, naquele mesmo momento, avisou que estava indo para uma reunião no Grupo RBS. Ela, que acabava de entrar em uma empresa ainda em formação, respondeu que iria junto, já queria vivenciar esse início de relação com o mercado gaúcho.
A partir dali, a relação com a agência se aprofundou. Os CEOs da HOC, Fábio Bernardi e Lara Piccoli, tornaram-se sócios da então Morya em 2011 e deram sequência ao movimento de expansão do negócio. Denise acompanhou todas essas mudanças de perto. Já esteve em quatro sedes diferentes e viu a agência crescer enquanto sua própria carreira também se transformava.
A permanência, que poderia ser explicada apenas pela estabilidade, tem para ela outro significado. “Justamente essa questão da agência estar sempre crescendo e se modificando me fizeram permanecer, me satisfazem, seguimos evoluindo, avançando.”
A relação de longa duração também foi construída com os clientes. Alguns dos trabalhos que marcaram sua carreira foram a expansão da Olympikus, além do atendimento para a Tramontina. A evolução do Sicredi para atuação nacional também faz parte dessa história.
Quando mídia vira encontro
Em julho de 2026, Denise deixou a posição de head de Mídia para assumir uma nova função dentro da HOC, a de head de Relações Institucionais. A mudança não representa um afastamento do universo que conhece, mas um redirecionamento do foco para outra frente vital da Publicidade: a dos relacionamentos.
“Eu me orgulho muito na HOC de como a gente conseguiu dar luz a esse assunto, passando um recado de quanto queremos estar próximos do mercado. Acreditamos na construção colaborativa, queremos desenvolver inovações e acompanhar as transformações do mundo”, ressalta.
O resgate dos encontros presenciais também é elemento fundamental para a publicitária, que na vida pessoal também é a amiga que gosta de ser anfitriã, reunir os amigos, viajar com a família e cozinhar para as pessoas que ama. Depois de anos de relações mediadas por telas, especialmente no pós-pandemia, reuniões virtuais e contatos instantâneos, ela acredita que existe um desejo renovado de estar perto.
A HOC passou a investir nessa crença, inclusive com uma mudança física para uma sede maior, acolhedora e inspiradora, pensada para ser “a casa da criatividade”.
A lógica de ser um ponto de conexão e não apenas um local de trabalho também deu origem às “Terças da Mídia”, iniciativa criada enquanto Denise ainda estava à frente da área.
Em determinados dias, toda a equipe do setor vai presencialmente para a agência e as portas ficam abertas para receber veículos e profissionais do mercado. A iniciativa nasceu de uma percepção simples: havia uma demanda por relacionamento que ia além da negociação comercial.
Os encontros poderiam gerar negócios, mas também permitiam troca de ideias, conhecimento e aproximação. A mudança também combina com a forma como se relaciona com o próprio trabalho.
Para Denise, a relação com a empresa também é marcada por um vínculo afetivo com a trajetória da qual faz parte. “Tenho muito senso de dono. Tenho orgulho do que construímos e fico feliz com o que ainda vamos fazer. Criei um laço e uma identificação muito grande.”
A carreira também trouxe reconhecimento. Denise foi três vezes premiada com a Estrela da Associação Riograndense de Propaganda (ARP) como Profissional de Mídia, uma distinção que registra a relevância de seu trabalho em uma área muitas vezes menos visível para o público final, mas fundamental para que uma campanha encontre seus espaços e suas pessoas.
Se a profissão ensinou a observar comportamentos, Denise parece ter levado essa atenção também para fora do expediente. Gosta de conversar, conhecer pessoas e criar amizades. E existe uma qualidade que aponta espontaneamente quando fala sobre si: “Tenho uma empatia genuína.”
Entre plantas, trilhas e panelas
Fora da agência, a relação com o tempo ganha outro ritmo. Apaixonada por plantas, Denise brinca sobre os benefícios dessa convivência: “Eu não as cuido, elas que tomam conta de mim.” O cultivo funciona como uma espécie de terapia, uma atividade que exige presença e paciência e oferece uma pausa diante da velocidade da vida profissional.
A natureza também está entre os principais motivos que a levam a viajar, um outro hobby que a faz muito feliz. Denise gosta de conhecer lugares distantes, já esteve na Europa e guarda França, Praga e Budapeste entre os locais mais marcantes. Mas não precisa atravessar o oceano para sentir o espírito viajante.
Ao lado da família, explorou diferentes regiões do Rio Grande do Sul e quase já completou o mapa dos lugares que gostaria de conhecer no Brasil. Durante a pandemia de Covid-19, as viagens para cabanas pelo Estado ganharam, ainda, outro significado. Em vez dos grandes deslocamentos, vieram os caminhos mais próximos, com tempo para descobrir paisagens que estavam ali, ao alcance de uma estrada.
O que mais a atrai é o contato com a natureza. Trilhas são uma das suas atividades preferidas. Já caminhou 25 quilômetros na Patagônia e chegou a percorrer 20 quilômetros por dia nos Alpes, durante uma viagem pela França. São distâncias que parecem contradizer sua falta de disciplina no dia a dia para atividades físicas. Agora, quando há uma paisagem a ser explorada, a disposição ganha força.
A mesa também ocupa lugar especial. Feijoada e risoto estão entre suas comidas preferidas, mas o mais importante parece estar menos no prato e mais em quem está ao redor dele, seja o filho Giancarlo, as irmãs e o caçula Alexandre, os pais Demétrio e Isaura, demais familiares, amigos e até colegas.
Denise tem aquele dom natural para aproximar pessoas. A origem italiana ajuda a compor essa relação com a comida e com a convivência. Na música, prefere Kid Abelha e MPB. E, na literatura, prefere os romances.
O maior orgulho
Entre tantos anos de agência, campanhas, clientes, mudanças de endereço e reconhecimentos profissionais, existe uma realização que ocupa um espaço diferente no coração: Giancarlo, único filho, que tem 25 anos e é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Denise fala dele com o entusiasmo de quem não precisa de muitos argumentos para explicar o sentimento. “É meu maior orgulho. Um presente de Deus.” A relação dos dois também aparece quando cita as viagens.
Ele é parceiro para acompanhá-la, gosta de viajar com ela e não tem vergonha da companhia dos pais. Denise conta que os dois têm prazer em dividir esses momentos, sejam eles em lugares distantes ou em algum destino mais próximo.
Talvez seja justamente essa combinação e preservação das raízes que ajude a explicar a profissional que se tornou. Denise saiu do interior para estudar, entrou em uma área que ainda estava se transformando, construiu uma carreira inteira na Mídia e encontrou na Publicidade um campo em constante movimento.
Ao mesmo tempo, preservou vínculos com a família e manteve amizades. Cultivou plantas, conheceu caminhos e aprendeu a transformar encontros em parte essencial da própria história.
Afinal, Denise não parece ter construído apenas uma carreira. Construiu uma rede de pessoas, experiências e lugares que continuam se encontrando. E somando tudo, talvez não exista forma mais coerente de começar um novo capítulo.

