Há nomes que apenas identificam. Outros carregam uma história inteira antes mesmo de serem pronunciados. Com Fabinho Vargas foi assim.
Lá em 1970, a mãe, Celoni Vargas, tinha certeza de que daria à luz uma menina. O nome já estava escolhido: Neide. Mas bastou um tio entrar no quarto da maternidade para mudar o rumo daquela história. “Fabiano é bonito”, sugeriu. E assim o guri foi registrado.
Em casa, porém, a mãe nunca o chamou de Fabiano. Para ela e toda a família, exceto na escola, sempre foi Fábio. Anos depois, os palcos trataram de fazer mais uma mudança. Os amigos passaram a chamá-lo de Fabinho, apelido que atravessou o tempo e ganhou mais força do que o próprio nome de batismo. Hoje, em muitos lugares, se alguém anunciar “Fabiano”, talvez ele nem seja reconhecido. Mas basta dizer “Fabinho” para que as portas se abram.
É que talvez na licença poética da vida sua identidade nunca tenha estado registrada na certidão, mas nas pessoas que encontrou pelo caminho.
Muito além da música
Antes de ser empresário, escritor, palestrante, pastor, professor ou mestrando, Fabinho foi um menino criado por Pedro Batista da Silva e Celoni Vargas em uma casa simples da Vila Esperança, em São Leopoldo. Ali, quando ainda faltavam coisas básicas, como energia elétrica, sobrava o essencial: afeto.
Pedro, eletricista de profissão e músico por paixão, chegava do trabalho e reunia os filhos ao redor do violão. Foi assim que ensinou música a Fabinho, que passou os ensinamentos aos outros dois irmãos, Alex, o Alê, e Leandro, o Lê. O que começou como um momento de família atravessou o tempo e transformou os três irmãos em companheiros de palco no Tchê Guri, banda que ajudariam a levar para todo o Brasil na década de 1990.
Das memórias da infância, as serenatas ocupam um lugar especial. No meio da noite, alguém batia à porta. Os amigos músicos entravam, a mãe corria para a cozinha, preparava café, linguiça, ovos, bolinho de chuva. Enquanto os adultos cantavam e conversavam até o amanhecer, um menino observava tudo. Sem saber, aprendia ali uma lição que carregaria para a vida inteira: a música nunca foi apenas música. Sempre foi um jeito de aproximar pessoas.
A música o levou longe, mas também lhe deu algo ainda mais valioso: referências. Das bandas gaúchas, guarda a admiração por Os Mirins e Os Serranos, que ajudaram a moldar seu jeito de enxergar a música regional. Do pop latino, nenhum artista ocupa um lugar tão especial quanto Luis Miguel. Fabinho é daqueles fãs que sabem mais do que o repertório. Já assistiu três vezes à série sobre a vida do cantor e continua encantado pela disciplina, pela entrega e pelo talento do artista mexicano.
O Roupa Nova, outra influência decisiva em sua trajetória, atravessou a fronteira da admiração para se transformar em amizade. O segundo disco do Tchê Guri foi gravado no estúdio da banda, e os encontros que começaram por causa da música permanecem até hoje.
A curiosidade como bússola
Enquanto muitos artistas conheciam apenas o palco e o hotel, Fabinho queria conhecer a cidade. Chegava cedo para perguntar como funcionava a economia local, visitar empresas, entender a cultura, conversar com prefeitos, empresários, agricultores e industriais. Se alguém fabricava parafusos, queria conhecer a fábrica. Se a riqueza vinha do algodão, torcia para ser convidado a conhecer a plantação. E era. Se havia alguém apaixonado pelo próprio trabalho, sabia que ali existia uma boa história para ouvir.
Foi assim que construiu um repertório muito maior do que qualquer playlist. Muito antes de o conhecimento estar à distância de um clique, assinava revistas, comprava livros, frequentava palestras e fazia perguntas. Nunca se contentou em saber apenas o suficiente. Sempre quis entender um pouco mais.
Essa curiosidade também aproximou Fabinho de algumas das maiores referências do empreendedorismo e da Comunicação no País, na visão dele. Ele costuma dizer que, se pudesse escolher três empresários para ouvir durante horas, colocaria à mesma mesa Dody Sirena, Nelson Sirotsky e Nizan Guanaes. Não que busque fórmulas prontas, mas porque sempre acreditou que as grandes lições nascem das conversas, que teve a oportunidade de ouvir tantas vezes de Dody e Nelson após as partidas de futebol entre amigos.
“O que me trouxe até aqui foram as relações que construí. Eu sempre fui dedicado a aprender e tive pessoas dispostas a me ensinar.”
A coragem de recomeçar
Houve uma noite, em Las Vegas, que parece resumir toda essa trajetória. Sentado na plateia do Grammy Latino, ao lado do irmão Leandro, o Lê, Fabinho olhava aquele cenário quase sem acreditar. Foi quando ouviu, baixinho, uma frase que nunca esqueceu. “Tá tudo errado. Como é que os guris da Vila Esperança estão aqui?”, relembra emocionado.
Os dois sabiam exatamente o peso daquela pergunta. Ela não falava de um prêmio, que nem ganharam, mas que ficaram felizes ao saberem que estava nas mãos dos amigos da banda Roupa Nova. Falava da distância entre a infância na casa simples de São Leopoldo e um dos maiores eventos da música mundial. A poesia, a música, a vida o fizeram perceber que alguns caminhos parecem improváveis até o dia em que alguém resolve percorrê-los. “Sabe aquela frase ‘sem saber que era impossível, ele foi lá e fez?’”, diz, parafraseando o poeta e cineasta francês Jean Cocteau.
Fabinho costuma dizer que o mundo não pertence aos valentes. Pertence aos corajosos. Talvez porque tenha aprendido isso na prática. Foi preciso coragem para voltar a estudar depois de adulto, concluir o ensino médio aos 36 anos, ingressar na graduação aos 40, tornar-se especialista, escritor e, quando muitos já pensam em desacelerar, conquistar uma vaga no mestrado da PUCRS.
Foi preciso coragem para entender que a fama passa, mas o aprendizado permanece. Ele próprio admite que já acreditou ser “a última bolacha do pacote”. A vida, porém, tratou de ensinar equilíbrio. Hoje, prefere definir-se de outra forma: nem um gênio, nem um fracasso. Apenas alguém disposto a continuar aprendendo.
Há outra frase que costuma repetir: “Uma das maiores coragens é ser o menor da tua turma.” Porque quem acredita que já sabe tudo deixa de aprender.
Os caminhos da fé
O diagnóstico de esclerose múltipla da esposa, Cilene, mudou completamente a direção da família. Foi nesse período que a fé deixou de ser apenas uma crença distante para tornar-se experiência.
Da dor nasceu um novo propósito. Hoje, ao lado de Cilene, compartilha não apenas a vida, mas também o ministério pastoral. Juntos, encontraram na fé uma forma de acolher pessoas e de lembrar que ninguém chega à igreja porque a vida está perfeita. Chega porque procura esperança.
É dessa mesma esperança que também se alimenta a família que construíram. Pai de Muryllo, 21, estudante de Publicidade da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), e Manuela, de 11 anos, Fabinho costuma falar dos filhos com o orgulho sereno de quem mede o sucesso muito além da carreira. Não por acaso, quando define o que é “dar certo” na vida, ele não cita os palcos e a fama, os livros ou as empresas. Fala do casamento que atravessou décadas, da cumplicidade com Cilene, dos filhos que o enchem de orgulho e dos amigos que colecionou ao longo da caminhada.
“Sou um cara que deu certo. Não pelas empresas ou pelo sucesso. Dei certo porque continuo apaixonado pela minha esposa, tenho dois filhos incríveis e o privilégio de servir na vida das pessoas.”
Sempre em movimento
Quem olha para a trajetória de Fabinho talvez veja um cantor que virou empresário. Ou um músico que migrou para o Marketing. Mas essa leitura parece pequena demais. Na verdade, ele mesmo ressalta que nunca deixou a música, nem se despediu da banda Tchê Guris. Apenas ampliou o palco.
Hoje, divide o tempo entre empresas, livros, pesquisas acadêmicas, palestras, projetos de empreendedorismo, igreja e família. Continua falando de Comunicação, de negócios e de pessoas com o mesmo entusiasmo daquele menino que escutava serenatas na porta de casa.
Talvez seja por isso que a palavra “desbravador” faça tanto sentido. Porque desbravar, para Fabinho Vargas, não corresponde a descobrir lugares desconhecidos. Significa encontrar pessoas, aprender com elas, construir relações e abrir caminhos para que outros também possam seguir.
O papel aceita tudo. A certidão registra Fabiano porque pouco importa o nome pelo qual o chamam. O que permanece para o Fabiano, Fábio e o Fabinho é a marca que “eles” deixam por onde passam.

