Antes de aprender a negociar patrocínios, construir marcas ou pensar o esporte como negócio, Fabio Ritter dos Santos aprendeu a jogar bola. A entrevista deste perfil começa bem no começo, é como um aquecimento que os jogadores fazem antes da bola rolar. Gerente de patrocínios da Betano no Brasil, ele esteve em Porto Alegre para compromissos profissionais e foi na sede do Instituto Caldeira que relembrou não só os tempos em que morava na Capital gaúcha — hoje, reside em São Paulo —, como destravou memórias afetivas.
Seu primeiro contato com o futebol remete às primeiras lembranças da infância, quando acompanhava o pai, Jurandir Soares, jornalista da Rádio Guaíba, no time que jogava pelada todos os finais de semana. As partidas eram disputadas no Campo dos Padres, onde fica o 4º Distrito, no Humaitá.
Aquecimento
A bola chegou assim, sem pedir licença. Quando começou a jogar, quis ser jogador profissional e tinha dois desejos: ser atleta do Grêmio, seu time do coração, e representar o Brasil vestindo a camisa da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Foi goleiro até o juvenil, sub-17. Era baixinho demais para a posição, mas alto o suficiente para sustentar os sonhos. Talvez seja assim que alguns jogos começam: entra-se em campo pensando que sabe qual será a posição. A vida, depois, redesenha o esquema tático.
Primeiro tempo
Formou-se em Administração de Empresas pela Ufrgs. A escolha da faculdade, curiosamente, não nasceu do futebol. Havia um tio, proprietário de uma fábrica de sapatos em Parobé, a 79 quilômetros de Porto Alegre, e Fabio imaginava que poderia trabalhar administrando uma indústria, uma fábrica. Escolheu a ênfase em produção e sistemas porque se considerava organizado.
Estagiou em uma indústria de Gravataí, na Logística. Depois, atuou na área de Comércio Exterior. Aos 24 anos, trancou a faculdade e foi para os Estados Unidos. Em San Diego, berço do Marketing, mudou a ênfase para a área que acabaria definindo sua trajetória.
Voltou ao Brasil. Passou pelo Expresso Mercúrio, na área de Marketing. Foi efetivado. Tinha carteira assinada havia duas semanas quando recebeu uma ligação de um amigo de infância. Ops, era hora da substituição.
Havia uma oportunidade no futebol. Era um trabalho de pesquisa de transferências de atletas, voltado à busca de ressarcimentos para clubes. Não era exatamente o plano. Mas havia a bola outra vez.
Ele não pensou muito. A paixão falou mais alto. “Eu teria feito tudo de novo, mas de uma forma diferente”, explica, relembrando o drama vivido à época, já que havia sido contratado recentemente na empresa. A frase parece simples, mas talvez explique boa parte da trajetória.
Fabio foi tomando decisões que, vistas de longe, parecem mudanças de rota. Administração, Logística, Comércio Exterior, Marketing, futebol, Grêmio, Seleção, CBF, marcas. Vistas de perto, porém, elas parecem menos desvios e mais aproximações, como se o destino tivesse uma camisa, mas não uma escalação definitiva.
Intervalo
A participação no projeto com o amigo durou três anos e eles colaboraram com clubes como o Bahia e o Cruzeiro. Completamente fisgado pela área, Fabio decidiu estudar para aprofundar os conhecimentos e o lugar escolhido foi a Inglaterra, o berço do futebol.
Em Liverpool, em 2009, fez o mestrado e viveu uma das experiências que considera mais fantásticas, pessoal e profissionalmente. Estudou no país onde o esporte já era uma indústria madura. Fez estágio na Mizuno, nos arredores de Londres, depois da Copa do Mundo de 2010.
Recebeu uma proposta para ficar. Poderia ter ficado. Mas havia outras coisas que pesavam. Os dias nublados. A comida. A distância. A vida que existia para além do currículo. A oportunidade profissional era enorme, mas havia também um desejo de voltar.
Voltou. Não se arrependeu. E encontrou um mercado brasileiro que começava a descobrir as dimensões que o esporte poderia alcançar. No início de 2011 veio o convite do Grêmio. Dessa vez, o menino que queria jogar no clube do coração não precisaria assistir de fora. Entraria por outra porta.
Segundo tempo
Como gerente comercial, Fabio passou a cuidar dos patrocínios do Grêmio. Trabalhou com a Grêmio TV e a Grêmio Rádio, viu a receita comercial crescer mais de 100%, acompanhou a transformação da rádio em FM e participou de um momento que tinha um significado particular: a construção da Arena. Não seria goleiro. Seria parte da construção do estádio onde o clube passaria a jogar.
A carreira começava a fazer uma curva curiosa. A paixão da infância continuava ali, mas agora acompanhada de contratos, marcas, receitas, estratégias, ativações e negócios.
Cinco anos depois, outra ligação. Douglas Lunardi, então diretor de Comunicação do Grêmio, já estava na CBF. Fabio estava de férias na Disney, aos 33 anos, depois de uma temporada de muito trabalho. A vaga era de gerente de Marketing. Ele voltou ao Brasil ainda de férias para uma entrevista e foi lá que soube, antes mesmo de terminar a conversa, que estava contratado.
Desligou-se do Grêmio, foi para o Rio de Janeiro e passou seis anos e meio na CBF. Ali, ajudou a construir um dos maiores programas de patrocínio do futebol mundial, com mais de 20 marcas, além de participar de projetos ligados à Seleção, às Eliminatórias, à Copa América de 2019 e ao rebranding da marca da CBF.
A primeira grande competição em que esteve à frente do trabalho foi justamente a Olimpíada de 2016. O Brasil ganhou o primeiro ouro olímpico do futebol masculino. O menino que queria jogar na Seleção encontrava, mais uma vez, uma maneira inesperada de chegar até ela. “Realizei o sonho de vestir as camisas do Grêmio e do Brasil, mas não como jogador”, comenta.
A virada
Depois da CBF, o destino foi São Paulo, onde teve experiências na Cimed e, por fim, Betano, onde trabalha atualmente. Ao longo da carreira, Fabio foi migrando de posição dentro da indústria do esporte: de quem buscava oportunidades para clubes a quem hoje pensa grandes plataformas de patrocínio e investimentos. “Hoje é difícil me imaginar em outra profissão.”
Atualmente, Fabio trabalha na construção de uma das maiores plataformas de patrocínio esportivo do País. Futebol, basquete, vôlei, automobilismo. A rotina do gestor é feita de aeroportos, reuniões, contratos, ativações e estádios.
Há uma equipe em São Paulo. Outra no Rio. Outra em Belo Horizonte. Há projetos que precisam ser desenhados, propriedades para avaliar, parcerias para tirar do papel e experiências a levar ao torcedor.
No futebol, talvez seja difícil separar completamente quem está em campo de quem está fora dele. Fabio aprendeu isso cedo. Para ele, o esporte é também uma indústria que conecta pessoas, marcas e experiências. E as oportunidades que existem hoje são muito diferentes das que encontrou quando começou. O mercado cresceu. As possibilidades se multiplicaram. A rede de relações ganhou peso.
Mas, em meio à velocidade das redes sociais, das mensagens e das relações cada vez mais automatizadas, ele acredita que existe algo que não envelheceu: o encontro entre pessoas. As relações pessoais, diz, têm ainda mais valor. Talvez porque algumas das grandes viradas da sua própria história tenham começado justamente assim: com uma ligação, uma indicação, uma conversa.
Prorrogação
Fabio é organizado. No trabalho e em casa. A caneta sobre a mesa precisa estar onde deveria estar. Na CBF, os colegas brincavam: melhor não pegar uma caneta do Fabio, pois ele perceberia. Em casa, a organização encontra seu contraponto na esposa, de quem fala com carinho. Ela bagunça. Ele arruma. Um jogo de gato e rato que, de alguma maneira, funciona, como ele mesmo exemplifica.
Há a vontade de cozinhar, a carne, o hambúrguer feito em casa, a saudade da churrasqueira e do churrasco do pai, dos almoços em família, ao lado da mãe Elizabeth e dos irmãos, Rafaela e Thiago. E há o Rio de Janeiro, que deixou memórias particulares. O domingo carioca, para ele, tem outra atmosfera. Tem praia e pagode, gênero musical que aprecia desde a juventude.
Há histórias que só poderiam acontecer no futebol. Como aquela em que o Flamengo, patrocinado pela Betano, preparava o lançamento de uma parceria. O jogo seria contra o Grêmio — e todos sabiam que Fabio era gremista. No intervalo, artistas flamenguistas fariam um show. Alexandre Pires e Bruno Cardoso, vocalista da banda Sorriso Maroto. Fabio encontrou os dois no camarote e contou que era fã.
O jogo terminou um a um. Talvez o futebol tenha essas ironias: não importa quantas planilhas existam, quantos contratos tenham sido assinados ou quantas estratégias estejam desenhadas. Quando a bola rola, alguma coisa sempre escapa ao planejamento.
Acréscimos
Há dois anos e meio, Fabio vive uma rotina ainda mais intensa. Ele agora ocupa uma nova posição, a de pai de dois filhos. Vitório, de dois anos e meio, e Renato, de três meses. Dormir à noite virou um evento raro. As horas de folga são poucas e quase todas pertencem aos filhos. A vida profissional continua exigindo viagens, estádios e reuniões. A vida pessoal acontece entre uma coisa e outra.
Nesta etapa da vida, ele se diz realizado. Não exatamente satisfeito. Realizado. Porque existe uma diferença entre olhar para trás e considerar a obra pronta e olhar para trás e reconhecer que o caminho fez sentido. Fabio olha para trás e vê uma sucessão de paixões.
A infância. O futebol. O Grêmio. A Seleção. A Inglaterra. O Marketing. As marcas. As pessoas. “Eu sou apaixonado pelo que faço” é talvez a declaração mais simples, e a mais reveladora, de toda a conversa. Talvez porque o olhar já tenha dito isso antes mesmo da afirmação dele.
Porque há mais de 20 anos ele trabalha com esporte. E, quando tenta explicar como chegou até aqui, não fala apenas de planejamento ou oportunidade. Fala de desejo. De paixão. Daquilo que começou muito antes de existir um cargo, uma empresa ou um cartão de visitas. Ele acredita que nada foi por acaso.
Bola em jogo
Hoje, quando pensa no futuro, não imagina uma saída do esporte. Não sabe exatamente qual será o próximo campeonato, projeto ou camisa. Mas sabe que quer continuar.
Há a Copa do Mundo feminina no horizonte. Há novas propriedades, novos investimentos, novos formatos. Há o que já foi construído, o patrocínio do Flamengo, o Campeonato Brasileiro, a Seleção, as grandes parcerias, e há aquilo que ainda não aconteceu.
Quando fala da carreira, Fabio, por vezes, volta à infância e àquele menino que queria ser jogador. Volta ao goleiro baixinho e ao Grêmio, que parecia um sonho distante. Parece que algumas paixões não mudaram de lugar. Apenas de forma. Fabio não se tornou o jogador. Transformou-se em alguém que passou a vida encontrando maneiras de manter o futebol em movimento.
E talvez seja por isso que, ao fim da conversa, não exista exatamente um fim. A bola está em campo. Este não é o apito final. A torcida ainda canta… E Fabio, como quem conhece o jogo desde menino, segue olhando para a frente. É que o goleiro que sonhou ser gosta mesmo é de marcar gol.

