Sempre igual, nunca o mesmo. É como se define o publicitário Felipe Eugênio, de 37 anos. Tem valores e convicções inegociáveis e, ao mesmo tempo, gosta de deixar a vida acontecer, experienciá-la no tempo presente. A arte e a tecnologia sempre fizeram parte dos seus múltiplos ‘eus’. A criatividade e a curiosidade o direcionaram para a graduação em Publicidade e Propaganda, que cursou na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Mas, na prática, o desejo de guri em trabalhar como diretor de Arte mudou, e foi na Mídia que ele encontrou sua vocação profissional.
Natural de Campo Bom, até se formar, trabalhou na empresa de informática da família. Passou por diversos setores, tentando focar mais na comunicação e marketing, mas também juntou experiência e conhecimento na parte comercial, sobretudo de e-commerce. Foi na agência WT.AG, de Novo Hamburgo, que iniciou a carreira para valer na Publicidade. Eram duas vagas, uma para monitoramento de redes sociais e outra para Mídia. Foi atuando em ambas que se destacou no digital, mas também fazendo-o perceber que queria explorar o off-line.
“Depois de quatro anos, quando fui para a E21, minha trajetória profissional tomou outro rumo. Não fazia ideia de como era fazer Mídia para televisão, rádio, out of home. Foi uma troca muito bacana, pois pude ensinar o que eu sabia de digital e aprendi muito, não somente de mídia tradicional, mas também de gestão”, conta.
Há quase oito anos, vem crescendo na agência Matriz. Entrou como executivo de Mídia, passou para coordenador de Mídia Digital e, há mais de quatro anos, é head de Mídia da empresa. “Sentia muita dificuldade de integração entre on e off e comecei a provocar isso. Fui desafiado, então, a assumir totalmente o setor e hoje lidero com essa visão estratégica macro, sem divisão entre um e outro”, pontua.
Obsessão
Planejar, negociar e comprar espaços de comunicação para garantir que a mensagem de uma marca chegue ao público certo, no momento ideal e pelo melhor custo-benefício possível. Essa é uma definição do trabalho da Mídia. Tabelas e números pra lá e pra cá. O gosto pelos dados não se limita à atividade laboral. Pelo contrário, Felipe considera-se um obcecado por ele.
Na vida pessoal, também cataloga e analisa. As bandas, cantores, discos e músicas preferidas estão listadas no Last.fm. Fã da cultura independente e alternativa, tem entre seus artistas favoritos IDLES, PJ Harvey, Solange Knowles, Mogwai e Wednesday. No Letterboxd, é onde inventaria o Cinema. Os filmes preferidos são ‘Cidade dos Sonhos’, ‘Filhos da Esperança’, ‘Incêndios’ e ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’. Na lista das séries, ‘A Escuta’, ‘A Família Soprano’ e ‘Twin Peaks’.
Sem limitações
O diploma deu a Felipe uma carreira, currículo, o ganha-pão. No entanto, ser publicitário é mais um estado de espírito do que qualquer outra coisa. Apesar de não trabalhar na parte criativa, como inicialmente pensava que aconteceria, é, por natureza, artista.
Na newsletter Legumes Requentados, compartilha pensamentos, sentimentos, situações, experiências, através da escrita. Também sempre carrega um livro consigo. A leitura da vez é o texto do escritor norte-americano Michael Cunningham, ‘Uma casa no fim do mundo’. Desde criança, desenhar era um hobby e parte da rotina. Recentemente, a energia criativa nesse sentido está voltada para a xilogravura, técnica de impressão milenar que utiliza madeira como matriz para reproduzir imagens em papel ou tecido, semelhante a um carimbo.
“Gosto de nunca estar satisfeito, mudando, fazendo algo novo”, enfatiza ele. Talvez por isso ele não tenha uma resposta definitiva para o questionamento sobre o que espera ou pretende fazer nos próximos 10 anos. Estava esperando a pergunta na entrevista, mas admite que não se preparou para respondê-la, principalmente por ser um autointitulado inconformado.
Cronicamente digital e on-line, tem consciência de que o mundo muda rápido demais, ainda mais no mercado da Comunicação. Saber o que estará fazendo é difícil. Prefere imaginar um equilíbrio entre acompanhar o que acontece, capacitar-se para as transformações, mas nunca deixando de lado o dia mais importante que existe, o hoje. A única certeza é que não pretende ficar parado. Cogita, no futuro, até talvez voltar para a sala de aula e estudar Psicologia.
Destino
Um dos trabalhos que mais se orgulha de ter feito parte parece ter acontecido como parte de uma trama do universo para uma mudança significativa em sua vida. Durante a enchente de 2024, a Matriz foi responsável pela campanha de adoção de animais do governo do Rio Grande do Sul, que gerou 1.600 adoções. Unindo criatividade, estratégia e emoção, o projeto rendeu o troféu de Ouro do Salão ARP 2024 na categoria Mídia e Bronze em Projetos de Agência.
A recompensa, muito além. Quando indagado a dizer uma qualidade sua, a primeira palavra que veio à mente, pensando tanto no lado pessoal quanto profissional, foi empatia. “A publicidade não é só vender, mas ter impacto”, salienta, prosseguindo: “O maior resultado foi ajudar. Eu mesmo gosto muito de animais e foi muito gratificante”.
Um tempo depois, saiu de férias e estava viajando para Santa Catarina. Passando de carro por um viaduto na altura da cidade de Torres, enxergou um cachorrinho no meio da estrada, correndo risco de ser atropelado. Sem precisar pensar muito, engata a ré, dá volta, para e decide ajudá-lo.
A ideia era encontrar o tutor. Fez de tudo, tentou descobrir no entorno, divulgou foto, contato. Passou o final de semana. Nada. E, assim, como daquelas histórias de amor que estavam predestinadas a acontecer, Messi ganhou um novo nome, uma nova família, um novo lar e Felipe, um companheiro para dividir a vida. E foi uma amizade e um apego rápidos. Em um post no Instagram, até brincou que 80% de sua galeria de fotos resumia-se a imagens do querido cãozinho.
Aprendizado contínuo
Morador de Porto Alegre desde 2017, Felipe também já circulou bastante por São Paulo para fazer cursos. Sabe que estar em constante aprendizado e atualizado é fundamental. Já considerou até mudar-se para lá para trabalhar, mas fala com tranquilidade que está feliz e ainda tem muito a contribuir e crescer por aqui. Também especializou-se pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) em MBA em BI, Marketing Digital e Estratégia Data Driven.
Se tivesse seguido os sonhos de infância, também precisaria desenvolver-se profissionalmente como gamer, piloto de rali e jogador de futebol americano. Na vida real, o esporte está presente na forma de torcedor do Grêmio, corredor e ciclista. Esse último, sua nova paixão.
Carrega na história, também, muito do que aprendeu com os pais, Simone e Gilberto. Cresceu sentindo falta de irmãos para brincar, brigar e todo aquele afeto fraternal. Foi só quando ele já tinha 20 anos, frutos de outro casamento do pai, que se tornou o irmão mais velho de duas meninas, Luiza e Marina.
E nesse universo particular, que não cabe em uma única caixa, também aproveita o tempo com mais um hobby, que é cozinhar. Não come carne e se fascina na testagem de receitas. No dia da entrevista para o Perfil, aliás, Felipe estava em São Paulo para acompanhar a final do Masterchef Brasil, programa da Band, do qual um dos clientes da Matriz é patrocinador.
A ansiedade, que às vezes o atrapalha, também é parte singular de sua personalidade. Reinvenção. Descobertas. Movimentação. Novidade. Felipe gosta de viver a vida, com todas as suas nuances, e não somente esperando, mas sempre fazendo parte da construção do próximo capítulo.

