Perfil

Fernanda Bastos: Jornalista-raiz

Escritora, editora e mãe, a profissional construiu uma trajetória em que o rigor da informação floresce pelas relações, pela literatura e pela generosidade

Crédito: Arquivo pessoal.

Há quem diga que as árvores nunca crescem sozinhas. Sob a terra, raízes se encontram e trocam alimento por uma rede invisível de fungos, as micorrizas. Cientistas chamam esse sistema de “internet da floresta”. Talvez seja a melhor imagem para compreender um pouco melhor quem é Fernanda Bastos.

Ao longo de mais de duas horas de conversa, a jornalista trata sobre reportagens, literatura, maternidade, militância, universidade, rádio, televisão, livros e Jornalismo. Mas, de imediato algo chama atenção, quando fala de si, fala dos outros. De quem ensinou, acolheu, corrigiu um texto, dividiu uma pauta, segurou uma câmera, abriu uma porta. São dezenas – isso não é jeito de falar, foram dezenas mesmo – de nomes de colegas lembrados espontaneamente. 

Tantos que, em determinado momento, deixam de parecer simples referências para formar uma cartografia afetiva da comunicação gaúcha. É difícil encontrar alguém que distribua tantos créditos ao narrar a própria trajetória. Desta forma, fica claro que Fernanda nunca entendeu a carreira como uma caminhada solitária.

A semente

A primeira raiz nasce em Porto Alegre, onde a menina que cresceu brincando na rua transformava a casa em estúdio de televisão. O programa devia ter nome, ela não recorda, mas lembra que desenhou, à época, até o logo do canal dela. A grade da programação era completa. 

As lembranças remontam até a noite de entrega de prêmios, momento especial, que não podia ser no “estúdio de sempre”, logo, a celebração ocorria no quintal da casa, que tinha uma escadaria. Deu para imaginar um tapete vermelho aí? Na cabeça de Fernanda tinha tudo. Não faltava nada. Ela inclusive improvisava microfones com cabos de vassoura, para parecer aqueles que o cantor Roberto Carlos usava nas apresentações de final de ano. 

Entrevistava os primos e, quando algum convidado “faltava”, fazia ela mesma o papel da entrevistada. Pedia à avó Luise que contasse sempre a mesma história, encantada com a possibilidade de descobrir um detalhe novo a cada narrativa. Filha de Atus da Silva Pires e Silvana Mara Carneiro Bastos, irmã mais velha, por parte de pai, de Lismaria, Esther e Alana, cresceu em uma família cristã onde aprendeu, cedo, que as histórias ganham força quando são compartilhadas.

Hoje, olhando para trás, percebe que aquela menina jamais brincava sozinha, apesar de estar só. Talvez porque as muitas Fernandas de 2026 já habitassem a mente o coração daquela menina que brincava de ser comunicadora. A profissão chegou carregando desafios. Filha de uma família sem tradição no Jornalismo, mulher negra e de origem popular, Fernanda aprendeu rapidamente que precisaria construir o próprio caminho. 

O plantio

Graduada no Centro Universitário Metodista IPA, estagiou na TVE, passou pelo Jornal do Comércio, onde encontrou mestres, colegas e amigos que seguem presentes em sua memória. Lembra de Guilherme Kolling, que lhe ensinou que “a qualidade do texto é a qualidade da informação”. Recorda a saudosa Vera Cardoso, de quem aprendeu que defender causas sociais exige ainda mais rigor jornalístico. E faz questão de lembrar quem quase sempre permanece fora do enquadramento.

Quando voltou à TVE, após passar no concurso, ela destaca carinhosamente a relação com o “pessoal da graxa”. Os repórteres cinematográficos José Polga, Antônio Carlos Santos, o Índio, Detetive, e Beto Azevedo aparecem na conversa com o mesmo reconhecimento dos grandes editores e professores. “Eles têm uma sensibilidade que, muitas vezes, não é atribuída a eles. Nós, jornalistas, às vezes somos muito prepotentes”, diz. É um gesto raro. Enquanto tantos profissionais iluminam apenas quem ocupa o centro da cena, Fernanda desloca o foco para quem costuma permanecer atrás da câmera. Essa talvez seja sua forma mais bonita de generosidade. Enxergar o que, para muitos, é invisível. 

Crescimento

Ao lado do marido, o crítico literário Luiz Maurício Azevedo, construiu um dos projetos que mais sintetizam sua forma de entender a cultura. A Editora Figura de Linguagem nasceu do desejo comum de publicar obras que ampliassem o debate público, valorizassem autores pouco visibilizados e fizessem da literatura um espaço de encontro. Mais do que uma editora, tornou-se um projeto de vida compartilhado pelos dois. 

O mestrado, dedicado ao assassinato de Marielle Franco como acontecimento público, aprofundou sua reflexão sobre comunicação, memória e direitos humanos. Depois vieram a curadoria da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a parceria com a Plataforma Feminismos Plurais, idealizada por Djamila Ribeiro, a chegada ao Sul21, o desejo do retorno à universidade para o doutorado e novos projetos voltados à formação de leitores e escritores. Em cada etapa, Fernanda parece menos interessada em acumular títulos do que em ampliar possibilidades de diálogo. 

O fruto

“O mundo quer perceber a gente como um produto pronto e não como um processo de mudança”, dispara Fernanda. Talvez nenhuma experiência tenha transformado tanto esse processo quanto a chegada de Francisco, hoje com dois anos. Ela fala do filho sem separar a maternidade da profissão. Pelo contrário. Acredita que maternar modificou sua escrita, refinou sua escuta e ampliou sua forma de enxergar o mundo.

Foi justamente durante o puerpério que surgiu o convite para integrar a turma inaugural de um programa da Fundação Bernard van Leer, voltado à primeira infância. O que parecia ser apenas um novo projeto acabou redefinindo parte da sua trajetória. A jornalista passou a desenvolver uma metodologia própria de escrita criativa, unindo literatura, comunicação e cuidado. Para Fernanda, despertar o interesse pela leitura, pela poesia e pelas artes também é uma forma de cuidar das pessoas desde o começo da vida.

Ela costuma dizer que aprendeu também a “maternar o texto”. Uma ideia que parece atravessar tudo o que faz: reportagens, livros, oficinas, podcasts e projetos de formação. Cuidar das palavras, para ela, é também cuidar das pessoas.

O tronco

Quem conversa com Fernanda percebe outra característica marcante: ela pensa por meio dos livros. Alice Walker, Angela Davis, Conceição Evaristo, James Baldwin, Jodi Jordan, Ralph Ellison e Toni Morrison surgem naturalmente entre uma lembrança e outra. Não aparecem como citações ornamentais, mas como quem participa da conversa. A literatura parece ser outro sistema de raízes alimentando seu Jornalismo e nutrindo sua forma de enxergar o mundo.

Alice Walker ocupa um lugar especial. A entrevista com a autora, durante a Feira do Livro de Porto Alegre, é lembrada como um dos momentos mais marcantes de sua carreira. Fernanda conta que precisou abandonar o roteiro preparado e seguir o caminho indicado pela própria intuição. No final da conversa, ouviu um elogio que jamais esqueceu: havia sido “fabulosa”. Para quem faz do aprendizado um método, até aquilo que foge do planejado vira crescimento.

Já Djamila Ribeiro representa outra travessia. A parceria na Plataforma Feminismos Plurais resultou em cursos, mediações, podcasts e projetos que unem Comunicação, Literatura e formação crítica. Talvez por isso ela defina sua profissão com tanta precisão: “Sou uma profissional do texto, que trabalha com muita seriedade para alterar o estado de coisas em prol das pessoas que ainda precisam ser mais ouvidas”.

A sombra

No fim da conversa, Fernanda lembra um poema da escritora norte-americana Jodi Jordan, de quem ela e Luma, como chama o marido, são fãs. A própria jornalista traduziu um dos versos que mais a acompanha: um convite para que as minorias silenciadas se encontrem debaixo de uma árvore que ainda nem foi plantada. 

É então que a metáfora deixa de ser literatura e passa a explicar sua própria trajetória. “Meu jornalismo eu nem sei se ainda foi plantado”, diz, com a serenidade de quem entende que algumas árvores levam tempo para criar raízes. “Às vezes se confunde com galhos. Às vezes vem uma motosserra. Mas eu sigo cultivando”, divaga. 

Ao que tudo indica, talvez seja isso que a menina que apresentava um canal de televisão inventado e a jornalista formada vem fazendo ao longo da carreira. Plantando uma árvore cuja sombra talvez ainda leve um tempo para poder desfrutar por completo, mas que faz questão de cultivar para que ela e outras pessoas encontrem abrigo. 

A autora indígena Geni Nuñez escreve sobre a urgência de reflorestar os afetos, de recuperar as relações que insistimos em romper. Fernanda parece fazer isso todos os dias. Nas reportagens. Nos livros. Na maternidade. Nas salas de aula. E, sobretudo, na forma como conta a própria história sem nunca esquecer de quem a ajudou a escrevê-la. Toda árvore cresce para o céu, mas é nas raízes que ela aprende a permanecer. 

Autor

Márcia Dihl

Compartilhar:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.