Gabriel Besnos: Vida em narrativa

Sócio-fundador da agência Bistrô, o publicitário acredita no trabalho duro, no afeto e na diversidade

Por Mariana Boese

"Tudo o que acontece na minha vida eu vejo como matéria-prima para as narrativas que eu vou construir", é assim que Gabriel Besnos se define. O publicitário, que nunca trabalhou em outra agência que não a dele, celebra os 11 anos da Bistrô, projeto que começou como um sonho ao redor de mesas de restaurantes de Porto Alegre. Aos 35 anos, o empreendedor, que via no dia a dia oportunidades de contar histórias, levou o hábito para a vida profissional e encontra maneiras de construir narrativas em cada novo trabalho.  

Formado em Publicidade e Propaganda pela Ufrgs, Besnos iniciou sua trajetória profissional logo no segundo semestre da faculdade. O jovem de 17 anos tinha toda sua formação escolar no Colégio Israelita, espaço que continuaria a ser um laboratório. "Eu queria muito trabalhar. Sentei, peguei um livro e fui analisando estratégias que podiam ser aplicadas no dia a dia do colégio e criei um projeto de comunicação. Bati na porta da diretora e inventei aquela vaga." Após cumprir os dois anos de estágio, foi contratado como coordenador de Comunicação da instituição, onde ficou até 2005. "No Israelita, fui aluno, estagiário e profissional. Foi mesmo minha grande escola."

Uma coisa só

No último ano da faculdade, Besnos pediu demissão do colégio e foi trabalhar em home office. Fazia de tudo, desde vídeos de casamentos até materiais gráficos para pequenas empresas. "Desde o início, meu contato era direto com os clientes. Nunca levei meu currículo em nenhuma agência." Nesse mesmo período, tinha um hobby que dividia com a amiga e colega da Fabico Fernanda Aldabe: conhecer os sabores da cidade, visitando todos os tipos de restaurantes. "E foi assim, ao redor dessas mesas, que começamos a falar sobre a possibilidade de trabalharmos juntos."

Gabriel Besnos lembra até hoje da frase dita pela amiga: "Eu posso começar ajudando a botar ordem na casa"; e reconhece que uma parcela de organização era necessária em sua vida profissional naquela época. "Meu espaço de trabalho era uma bagunça. Eu produzia de madrugada, dormia um pouco de manhã e, de tarde, ia correndo encontrar o cliente." Por dois anos, os sócios trabalharam informalmente, até que, em 2007, alugaram seu primeiro espaço. "Nascemos oficialmente em uma salinha de 30 metros quadrados com três pessoas: eu, a Fernanda e uma estagiária."

O publicitário relembra que os recém-sócios enviavam cartas à mão para clientes em potencial. "Foi muito ingênuo o jeito que entramos no mercado. E muito outsider. Não tínhamos experiência, mas muita verdade e muita vontade." A primeira grande conta veio em 2009, quando a Bistrô conquistou o edital para reformular o portal da Feevale. "Catorze das maiores agências de Porto Alegre participaram, e nós ganhamos. Foi ali que começamos a aparecer nesse meio. E todos se perguntavam 'Que agência é essa?' Acho que essa é a pergunta que o mercado se faz até hoje." Talvez sem perceber, o publicitário usa sempre a segunda pessoa do plural quando fala. 'Nós', como se a agência e ele fossem um só. "Minha trajetória pessoal se confunde muito com a profissional. A Bistrô diz muito sobre quem eu sou."

Suor, afeto e diversidade

Trabalho duro, afeto e diversidade são valores que marcam a vida de Gabriel Besnos e os pilares que construíram seu negócio. "A afetividade é a inteligência suprema", a frase do autor português Valter Hugo Mãe é lema na vida dele. O publicitário acredita que, quando não se tem mais opções, ainda há, sempre, o recurso do afeto. "Nossa história de construção é muito artesanal, afetiva, de trabalho árduo, mas cuidadoso, como em um bistrô." Para o publicitário, seu desafio atual é manter essa cultura em uma agência que se mudou para um prédio de 500 metros quadrados e que conta, hoje, com 40 funcionários. Para simbolizar o afeto como marca registrada, a Bistrô tem seu mascote oficial: o Sr. Woffles. O cachorro da raça Pug faz parte da vida da agência há seis anos. "Além de estar nas campanhas, ele representa nossa identidade".

O envolvimento profundo também marca a relação de Besnos com os clientes, por isso ele conta que acabou fazendo a própria rotina em torno das agendas e necessidades deles. Para o publicitário, as situações mais marcantes de sua trajetória são aquelas em que pode fazer parte de momentos importantes das vidas de seus clientes e vice-versa. "Todas as vezes em que senti, genuinamente, que era mais do que trabalho." Com carinho, relembra casamentos, viagens, ações e eventos compartilhados com seus clientes, que se tornaram amigos. Refere-se também com admiração aos colegas e funcionários, em especial à sócia Fernanda Aldabe, "minha grande amiga para a vida inteira".

A defesa da diversidade também é base na estrutura da Bistrô e na vida de Besnos. "Eu sou gay e levo a bandeira LGBT para dentro da agência, para os clientes e para toda a minha vida." Ele acredita que abraçar a diferença não é só sobre ser humanamente responsável, mas que é, também, o caminho para abrir as empresas à inovação. "É muito importante termos empresários em uma mesa de negociações com populações historicamente discriminadas nos processos de decisão." Nesse sentindo, comenta que a composição da Bistrô é diversa: seu diretor de Criação, Alessandro Garcia, é negro, e a sócia da agência, mulher. Públicos que, para Besnos, ainda têm pouca representatividade no mercado publicitário. Ele acredita que minorias em posição de poder são chave para a transformação social do País.

Embora orgulhoso do que já conquistou, Besnos quer mais e não se sente completamente satisfeito. O publicitário, que acredita que a Bistrô esteve sempre à frente das outras agências em relação às pautas do mundo, sonha em ser parte de uma revolução mais ampla e profunda. "O meu desejo é que a gente possa liderar o processo de transformação na forma de se relacionar no mercado, mostrar que é possível ter relações mais humanas. E que isso seja feito por uma agência que veio de baixo, como nós."

Representatividade: plural e inclusivo  

Besnos leva o apego ao que é plural para fora do prédio da Bistrô. Acompanha desde o último clipe da cantora Anitta, até o trabalho do irmão mais novo Miguel, violonista erudito. O publicitário também aprecia as artes visuais, especialmente nos últimos dois anos, quando conheceu o namorado Pedro, que é artista plástico. Feliz e realizado com o relacionamento, conta que o companheiro lhe abriu novos horizontes. "Quem escolhe ter uma empresa com esse grau de afinco, escolhe também uma vida de renúncia. Com o Pedro, consegui descobrir novas áreas para minha vida."

Sempre que possível, aproveita a convivência familiar. Além de Miguel, que tem 25 anos, tem mais dois irmãos mais novos por parte do pai, Hilton. Matheus, de 16 anos, e a caçula Vitória, com 10. Essa parte da família mora em Fortaleza, mas sempre que visitam a capital gaúcha, passam a estada na casa da mãe do publicitário, Sônia. "É uma grande família, que é muito importante para mim." Besnos também revelou que pensa em construir a própria no futuro por meio da adoção.

Eclético por natureza, conta que lê sagas, ficção, biografias e destaca o livro 'O Filho de Mil Homens', de Valter Hugo Mãe. O publicitário diz que se identifica com a obra, que debate as possíveis formações de família na contemporaneidade. Comenta, também, que assiste a um pouco de tudo: séries, filmes, documentários e telejornais. "Sempre gostei de estar bem informado e ter acesso a visões diferentes sobre um mesmo assunto." Em período de férias, opta pela mudança de ares: "Amo viajar. Depois de trabalhar, é o que eu mais gosto de fazer".

Contando histórias

"O que eu mais amo é ouvir e contar boas histórias." O publicitário acredita no poder de transformar o cotidiano em narrativas. Em quaisquer circunstâncias. Filho de pai judeu, não é praticante, mas tem o hábito de estudar a cultura e a história da religião. Para isso, já visitou Israel duas vezes. No início deste ano, comprou seu sonhado apartamento e, para comemorar, realizou um ritual judaico de abertura, como uma espécie de inauguração da casa nova. "Não sou religioso, mas gosto de cerimônias porque elas são narrativas, elas contam uma história."

O publicitário, que chegou a pensar em ser político na adolescência, quando se candidatou ao Grêmio Estudantil da escola, hoje, não se vê fazendo outra coisa. "A Bistrô é o meu orgulho, é o projeto da minha vida." Para o futuro, pensa na possibilidade de se tornar professor. Pós-graduado em Design pela Unisinos, diz que sonha em dividir sua experiência com estudantes. "Eu adoraria construir essas narrativas com alunos, levar para a universidade a vivência que eu já tive. Especialmente porque já fui um deles: um estudante que sonhou."

 

 

 

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