Você pode discordar uma, duas ou três vezes de Guilherme Macalossi. Ele pode até transparecer que não liga, mas, na verdade, está pronto para o debate — e, por vezes, para incendiá-lo. Apesar de reconhecer em si certa vocação natural para isso, garante que hoje já não carrega a mesma ânsia de outros tempos. “Eu era muito visceral”, comenta, ao relembrar o período em que ancorava o próprio programa na rádio Sonora FM, de Farroupilha, no interior do Rio Grande do Sul.
Ao mesmo tempo, também é possível perceber gratidão em Macalossi — cujo sobrenome, por um equívoco cartorial em tempos passados, transformou a versão atual em um derivado do que seria o cognome dos Mancalossis. Gratidão pelo que já viveu e conquistou, e, hoje, com um toque a mais de maturidade. “Baixe a bola”, aconselharia a si próprio numa revisita, caso pudesse conversar com sua versão 20 anos mais nova. Ainda assim, o que ele demonstra off mic, um perfil tranquilo e familiar, contrasta com o que acredita que ainda faça on mic: agito.
Do Direito aos microfones
Se hoje, aos 39 anos, o apresentador do ‘Bandeirantes Acontece’ conta com os microfones e com o hábito da escrita no resguardo profissional, foi no escritório do avô Elias, promotor de justiça, que o gosto pela área jurídica tomou as primeiras formas. Ao conviver em Farroupilha com a família e amigos, Guilherme teve momentos de muito afeto e de admiração pela erudição do avô, convivendo, também, com o cotidiano criativo que o expediente da mãe, professora de balé, proporcionava.
A opção pela carreira do Direito foi, assim, diretamente impulsionada pela referência que verificava no avô, levando-o à graduação na área na Universidade de Caxias do Sul. Profundamente ligado com o município de origem, chegou a exercer um cargo na gestão pública, assumindo como secretário de Finanças da cidade, no mandato do prefeito Ademir Baretta.
Foi ainda nessa época que começou a elaborar os primeiros textos jornalísticos para as mídias locais. Imbuído pela procura da verdade e da informação, decidiu realizar um reposicionamento de carreira, apesar das vivências que, até então, faziam com que almejasse o caminho na área jurídica. “Fui descobrindo o meu amor pelo Jornalismo de maneira autodidata”, conta, revelando que chegou a ingressar no curso pela Unisinos, sem, no entanto, tê-lo concluído.
De colunista n’O Informante, jornal da cidade, buscou transformar as palavras impressas em palavras faladas, e com isso, passou a ancorar o programa ‘Confronto’, na rádio Sonora FM. “O Jornalismo que faz a diferença é o que se concentra nos problemas reais das pessoas”, diz, transformando em verbo o que acredita ser o correto — e, por vezes, fazendo jus ao título do programa, fornecendo munição aos críticos. Ele brinca: “Eu tenho um ‘demônio’ nos dedos, escrevo pensando em irritar”.
Posicionado e mais ponderado
Pessoalmente, tranquilo. Aos microfones, feroz. No caso de Guilherme, porém, talvez outras sejam as máximas que melhor o definam: a verdade, a liberdade de se expressar e a zeladoria pelo conteúdo que leva ao público. Estas são as máximas. Ancorando o ‘Bandeirantes Acontece’, o profissional também reflete que a vida anda diferente. Os posicionamentos, menos explosivos, embora reconheça que ainda tem alguns momentos de maior animosidade. “Eu sempre tive uma formação ideológica, mas tento ser o mais equilibrado possível”, afirma.
Foi essa formação e os contatos na área que lhe renderam um chamado para colaborar com a produtora audiovisual Brasil Paralelo, para cuja coordenadoria de Jornalismo chegou a ser convidado. Na mesma seara, passou a dialogar com as equipes da Gazeta do Povo, veículo do Paraná. Curiosamente, tornou-se colunista do jornal não a convite, mas por pedido próprio, sendo essa a única vez em que pediu emprego na vida, conta. Há oito anos, expõe suas opiniões em um espaço fixo na Gazeta.
Guilherme é morador de Porto Alegre desde 2018, desde o início de sua parceria com a Critério. Após uma passagem pela RDC TV, recebeu convite de Leonardo Meneghetti para integrar a equipe da Bandeirantes. Acostumado a concentrar-se na própria atividade, o âncora precisou passar a lidar com uma rotina que envolve não apenas o Jornalismo, mas também pessoas, processos e pequenas burocracias que acompanham a administração.
A experiência, segundo ele, fez com que se tornasse um profissional mais completo. A posição de gerente de Jornalismo na emissora do grupo Bandeirantes viria a partir de 2024, na gestão de Lisiane Russo, a quem tem como uma grande incentivadora de sua trajetória profissional e de aprimoramentos na carreira. Guilherme admite, porém, que ainda precisa desenvolver algumas características que o cargo exige. Não se define como uma pessoa meticulosa e reconhece que precisaria prestar mais atenção aos detalhes, especialmente diante das responsabilidades de gerir.
Diploma, política e polarizações
Para Guilherme, as redes sociais transformaram a relação entre jornalistas e público e fortaleceram as bolhas de opinião. Nesse ambiente, o comunicador corre o risco de ser pautado pela reação da audiência. Para ele, porém, a função da imprensa é buscar a verdade, mesmo quando isso contraria a maioria. “O Jornalismo é, por natureza, uma profissão antimajoritária”, destaca.
Ele posiciona-se como contrário à obrigatoriedade do diploma para exercer o Jornalismo. Embora defenda algum tipo de formação técnica, acredita que ela pode vir tanto da universidade quanto da experiência profissional. “Por que você vai restringir a liberdade de expressão apenas para jornalistas diplomados? Isso colapsaria, por exemplo, o Jornalismo do interior”, opina. Guilherme defende que deva existir algum tipo de regulamentação para evitar que qualquer sujeito se reivindique como jornalista, afirmando que a liberdade de expressão não pode ser usada para a prática de crimes.
Na política, considera a polarização parte da democracia, mas critica a transformação do adversário em inimigo. Para ele, a negação do outro é o que tem condicionado os posicionamentos, a despeito de propostas.
Entre o amor e a vontade de viver
Fora da rotina da BandNews, Guilherme encontra na família, nos hobbies e no relacionamento com Mélani parte de suas motivações e convicções. O casal ficou noivo durante uma viagem pela Argentina, país que ele guarda entre os destinos preferidos. O casamento está marcado para 2027, e, para ele, o amor é uma chama que precisa ser mantida acesa. Por isso, procura demonstrar diariamente o que sente pela noiva.
A família também ocupa um lugar central. Guilherme mantém proximidade com as irmãs, Gabriela e Júlia, e tem na avó, Maria, uma de suas maiores inspirações e exemplo de acolhimento, união e carinho. Além disso, também encontra espaço para os filmes — a série ‘Star Wars’ tem carta marcada e lugar guardado de forma especial, mas também curte, por exemplo, ‘O Senhor dos Anéis’ e produções do mundo nerd. Um bom vinho também não sei do cardápio.
Católico, tem como um dos principais planos para o futuro a pretensão de ser pai. Almeja, também, escrever um livro, continuar estudando e desenvolver trabalhos como correspondente internacional. Atualmente, cursa um MBA em Gestão e ainda planeja uma especialização em Jornalismo Internacional.
Polêmico e desafiador, Guilherme não esconde que gosta de provocar com o que escreve. A reação faz parte do jogo, mas não é absoluta ou determinante: entre críticas e elogios, diz se importar apenas com a opinião das pessoas que ama. Enquanto isso, segue fazendo do trabalho aquilo que considera essencial: transformar o que gosta em profissão.

