Perfil

Juliana Bublitz: Olhar ao sol

Com otimismo incorrigível e paixão pelas palavras, ela compartilha memórias da infância no Interior e bastidores marcantes da trajetória

Crédito: Camila Hermes/Agência RBS

O perfume da terra úmida do Interior e o cacarejar compassado de Matilde são os portais de descompressão de Juliana Bublitz. Para quem a acompanha diariamente sob a luz forte dos estúdios ou assinando uma das colunas mais lidas do Rio Grande do Sul, talvez seja difícil imaginar que o refúgio dessa mente inquieta repouse no silêncio de Passo do Sobrado. É ali, em um sítio de cinco ou seis hectares nos arredores de sua terra natal, que a jornalista de 47 anos se despe da armadura do factual. 

Dividindo a enxada com o marido, Cristiano, seu companheiro de vida há 28 anos, ela encontra o equilíbrio plantando orgânicos e cuidando de galinhas de estimação. Matilde é tão parte de sua identidade que os ovos frescos da ave já foram parar na cozinha da renomada chef Roberta Sudbrack, entregues em mãos, durante uma entrevista.

Essa dualidade singular desenha a essência de Juliana. Geminiana, ela admite que muda de opinião com facilidade, e também que é uma workaholic incorrigível, viciada em telas e conectada em tempo integral para não perder o pulso do mundo. No entanto, preserva o olhar ao sol, uma claridade interiorana que traduz a realidade com um otimismo quase poético. “A única coisa que não tem solução é a morte”, ensina, repetindo o lema que guia os passos diante de qualquer cenário cinzento. É essa fé cega na saída, na reinvenção e na humanidade que faz dela uma contadora de histórias nata, capaz de extrair poesia de coberturas áridas e de devolver dignidade aos personagens que cruzam seu caminho.

A trajetória que a consagra no jornalismo gaúcho começa a 150 quilômetros da capital, nas ruas arborizadas de Santa Cruz do Sul. No lar da família Bublitz, a informação sempre é o prato principal. O pai, Ivan, vendedor de carros que ostenta uma biblioteca gigantesca até hoje, e a mãe, Elisabeta, profissional da área de Recursos Humanos de uma indústria multinacional, cultivavam o hábito da leitura diária. As páginas de Zero Hora faziam parte da mobília, estendidas sobre a mesa de café como convites diários para decifrar o mundo.

Raízes de terra

Juliana não foi uma estudante brilhante, mas sempre foi conhecida como uma escritora dedicada. Desde pequena, devora livros e escreve. O teatro, uma de suas atividades quando criança, funcionava como ensaio para a comunicadora que viria a ser. Quando chegou a hora de escolher o destino profissional, a mãe fez a provocação certeira: “Por que tu não faz Jornalismo?”. A sugestão ecoou e fez sentido para ela de imediato. Era o plano A que sempre esteve ali, adormecido na paixão por contar histórias.

A mudança para Porto Alegre, em 1997, trouxe consigo os perrengues típicos dos estudantes do Interior. O primeiro endereço foi o pensionato de freiras Maria Imaculada, perto do antigo estádio Olímpico, no bairro Medianeira. “A gente que vem do Interior pra cidade grande, é sempre uma transição complexa”, recorda. Pouco depois, dividindo as despesas de um apartamento com outras gurias no Centro Histórico, ela ingressou na Famecos, a faculdade de Comunicação da PUCRS. Juliana tinha um foco obstinado: queria trabalhar na redação de Zero Hora.

Para transformar o sonho em realidade, a estudante perseguiu os caminhos da insistência. Aproximou-se do professor Gilberto Leal, que editava um caderno sobre automóveis, e pediu uma oportunidade. Na segunda tentativa, em um processo de seleção, em 1999, conquistou uma vaga de auxiliar de redação. Naquele ambiente analógico dominado por faxes incessantes, a jovem de 20 anos carregava calhamaços de papel, indexava imagens no arquivo fotográfico e passava negativos no antigo Fotovix – aparelho que exibia fotos em televisões de tubo para os editores escolherem qual seria a imagem da matéria jornalistica. À noite, descia até a rotativa para buscar as primeiras edições impressas e levá-las para a redação. “Eu passei por todos esses setores. Conheci a redação por todos os lados, por dentro mesmo”, disse, valorizando cada etapa da caminhada.

Pé no barro

A primeira grande chance de escrever surgiu pelas mãos da editora Fabíola Bach. A pauta era simples, quase invisível para os repórteres experientes: cobrir o Grupo de Acesso C do Carnaval de Porto Alegre. Juliana abraçou a missão com um entusiasmo contagiante, que surpreendeu a chefia. A foto-legenda publicada no dia seguinte, mesmo sem assinatura, foi o combustível que precisava para entender seu destino, que era a reportagem de rua, o pé no barro, a polícia e a geral.

Ao se formar em 2001, o destino a levou de volta a Santa Cruz do Sul, agora como correspondente da RBS. No comando de uma cobertura que abrangia 26 municípios, ela aprendeu a ser uma jornalista completa, escrevendo desde matérias sobre a lavoura até resenhas de gastronomia local. Essa bagagem no Interior lhe deu o estofo necessário para retornar à Capital anos depois e dividir a mesa de trabalho com lendas vivas do Jornalismo como Carlos Wagner, Nilson Mariano e Humberto Trezzi.

Ao lado desses mentores, absorveu a obstinação pela checagem de fatos e a coragem ética. O reconhecimento veio em forma de mais de 30 prêmios em sua estante, incluindo láureas da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) e uma final do prestigiado Prêmio Esso com a denúncia de corrupção nas cadeias gaúchas.

Vozes da dor

Nem todas as memórias do fazer jornalístico guardam a leveza das crônicas. Em janeiro de 2013, o telefone fixo de Juliana toca na calada da noite. O então namorado atende e passa o aparelho; era Fabiola Bach avisando sobre um incêndio em Santa Maria, com dezenas de vítimas. Naquela madrugada, Juliana sobe no carro de reportagem rumo à maior tragédia recente do Rio Grande do Sul, o incêndio da Boate Kiss.

No rádio, ao longo do caminho, o número de mortos subia assustadoramente. Sob a liderança do então editor Nilson Vargas, a redação se dividiu, e Juliana assumiu o núcleo investigativo ao lado de seus grandes mestres. Anos depois, em 2019, reviveria um impacto semelhante em Brumadinho, deparando-se com a lama sufocante que cobriu vidas e paisagens em Minas Gerais. “O que acaba ficando e marcando são essas situações humanas, onde a gente também se vê ali”, confessa, lembrando os pesadelos que povoaram suas noites após retornar de Minas.

Essas dores profundas moldaram em Juliana uma empatia rara. No início da carreira, após cometer um erro de redação que gerou descontentamento de uma fonte, ela recebeu um ensinamento precioso do então editor Altair Nobre: “Tu, como repórter, tem que fazer um esforço pra entender a pessoa. Não é só anotar o que ela diz, é entender o que ela está querendo dizer”. Essa máxima se tornou filosofia de vida. Juliana compreende que, para o cidadão comum, ser entrevistado é um marco na vida, e o profissional deve honrar esse momento. “O mínimo que eu, como jornalista, tenho que fazer é emprestar o meu tempo e a minha atenção pra essa pessoa.”

Essa inquietação intelectual e o desejo de compreender as contradições sociais também a impulsionaram a seguir os estudos acadêmicos. Tornou-se mestre em Desenvolvimento Regional pela Unisc e doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na cidade carioca, morou novamente em um pensionato de freiras no Morro da Glória, e dividiu apartamento na Tijuca, investigando a história ambiental das colonizações alemã e italiana no Sul. O título de doutora agregou profundidade ao seu texto, refinando a capacidade de analisar o cotidiano através das lentes do tempo.

Novos paralelos

Embora sua ambição original fosse se consolidar como repórter especial, o destino traçou uma curva inesperada. Em um final de ano, Nilson Vargas a convidou para cobrir as férias de Túlio Milman na cobiçada página dois de Zero Hora. O desafio de encarar a folha em branco diária causou insônia e medo, mas Juliana aceitou. A experiência bem-sucedida, na verdade, era um teste velado, que foi revelado no retorno de Túlio, que havia decidido deixar o espaço após 13 anos. Sendo assim, o comando da coluna foi entregue definitivamente a ela.

Hoje, Juliana brilha no espaço diário, um ambiente híbrido, desenhado sob medida para sua personalidade multifacetada. Ali, ela escreve sobre comportamento, gastronomia, turismo e, de forma muito especial, arte e cultura. Frequentadora assídua de teatros, cinemas e concertos, escreve sobre o que vivencia com paixão e propriedade. A atuação também migrou com força para as plataformas digitais. Abraçando o papel de influenciadora com a responsabilidade ética do diploma, Juliana compartilhou o podcast ‘Perimetral’ com seu colega Paulo Germano e, posteriormente, lançou o videocast ‘Paralelas’, consolidando sua audiência no streaming e na Rádio Gaúcha.

Na agitada redação, onde senta ao lado de colegas como Rodrigo Lopes, Gisele Loeblein e Giane Guerra, ela se sente privilegiada. O ambiente efervescente de troca e admiração mútua compensa o cansaço das entregas diárias. Fora dali, busca o aconchego da rotina simples: ouvir sua música favorita, ‘Sou Feliz’, de Marisa Monte; assistir a clássicos como ‘Ainda Estou Aqui’ – filme estrelado por Fernanda Torres que devolveu o orgulho do cinema nacional -; ou reler o clássico feminino ‘A Casa das Sete Mulheres’, de Letícia Wierzchowski.

Menina do interior

Ao refletir sobre sua essência, Juliana dispensa sobrenomes de peso ou heranças financeiras. Enxerga-se na canção eterna de Belchior: “Eu sou uma menina latino-americana vinda do interior, sem parentes importantes, sem dinheiro no banco. Mas com muita fé na humanidade”.

É essa fé inabalável, amparada por um otimismo incorrigível, que a faz sorrir ao vislumbrar os próximos 10 anos de sua jornada. Diante de um cenário de polarização e fake news, ela enxerga no Jornalismo de proximidade um farol indispensável. “Enquanto eu me orgulhar e achar que a gente pode fazer diferença no mundo, continuarei sendo jornalista”, afirma, com a certeza de quem compreendeu que a vida é bonita demais para ser contada sem afeto.

Autor

Ilana Xavier

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