Laura Medina: De todas as cores

Jornalista por acaso, Laura Medina se divide entre as câmeras e os palcos, e se diz uma pessoa agradecida pelas oportunidades que a vida lhe deu

Laura Meidna | Crédito: Jonas Adriano
Por Gabriela Boesel
Nada foi planejado na vida profissional de Laura Medina. Jornalista por acaso, conta que escolheu o curso quando estava na fila para se inscrever no vestibular. "Comecei a olhar a cartilha de profissões e vi Comunicação. Achei interessante", lembra, aos risos, e acrescenta que a escolha se deu pela facilidade de se comunicar.
Mas Jornalismo também não foi a primeira opção. "Quando fui me inscrever pela primeira vez para o vestibular, fui médica e voltei atriz", recorda, ao mencionar que, quando saiu de casa para a inscrição, havia dito aos pais que faria Medicina, e foi na fila, de novo, que decidiu trocar para Artes Cênicas. "Eu gostava muito de teatro e, naquela época, tinha recém assistido a uma peça que mexeu muito comigo", conta, ao se referir ao espetáculo "Apareceu a Margarida".
Entusiasmada e com um astral lá em cima, Laura é a mesma pessoa na frente e a atrás das câmeras. Característica que é confirmada pelo marido, o também jornalista Léo Nuñez. "A TV é uma extensão do que ela é pessoalmente", resume. Uma entusiasta da vida, é agradecida pelas oportunidades que teve e costuma dizer que joga muitas coisas para as estrelas, e fica à espera do que pode acontecer. De todas as cores, como se autodefine, se considera "um todo, um universo, várias "Lauras" em uma só".
Cria da imagem
Visual desde sempre, na faculdade de Jornalismo, entre tantas disciplinas, costumava ter afinidade com as aulas que tinham uma relação com a imagem, com destaque para Fotografia. "Adorava. Comprei vários equipamentos, lia sobre o tema, me envolvia bastante. Tanto que foi a única matéria que tirei 10 em todo o curso", recorda, com entusiasmo.
Da imagem congelada, partiu para o vídeo e, mesmo antes de se formar, já estava na TVE como assistente de Produção. "Sempre tive o sonho de trabalhar na TVE, pois lá eu acreditava que poderia fazer tudo. E fiz", relata, ao listar o programa Pandorga - direcionado a crianças - como uma das melhores fases da vida profissional e pessoal. "Foi uma fase bem legal, porque foi quando engravidei e tive o Rodrigo. Adorava esse universo infantil que me envolvia igualmente em casa e no trabalho", conta, saudosa.
Chegou a dividir seu tempo com reportagem e produção do Jornal do Almoço, da RBS TV, mas a dedicação dupla não durou muito. Saiu da emissora do Grupo RBS para trabalhar com exclusividade para a empresa do Estado, onde ficou até 2001. Quando o filho completou cinco anos, saiu da TVE e voltou para a antiga casa, como produtora do extinto Patrola, um programa voltado para o público jovem, função que exerceu por três anos. Depois, assumiu o que viria a ser seu grande projeto, o programa, também extinto, "Vida e Saúde", que comandou por 12 anos, até março de 2016. Aliás, uma atração que adorou fazer pelo simples fato de que o tema saúde está muito presente na sua vida.
Devota da boa alimentação e da prática de exercícios físicos, Laura tem, inclusive, uma pequena horta no pátio de casa. Para manter a vitalidade, aos 49 anos, já se dedicou à musculação e corrida, mas hoje assumiu um novo compromisso com o corpo. "Vou começar um programa de saúde que, durante 100 dias, terei acompanhamento com nutricionista, médicos de esporte e professores de Educação Física próprios. Quero envelhecer sem ficar velha. Também faço terapia para ter uma cabeça boa", confessa, divertida.
Das experiências fora da TV, se aventurou no impresso por um período muito breve, quando, ainda estudante, criou, junto com uma amiga também chamada Laura e que, coincidentemente, era sua colega em Jornalismo e Artes Cênicas, o Oráculo. "Era um jornal especializado em teatro e teve até festa de lançamento. Chegamos a duas edições", conta, honrada. Em 1995, também ajudou a amiga Lu Vilella a abrir a Livraria Bamboletras que, naquele tempo, era especializada em livros infantis. "Era um sonho dela que eu e mais duas amigas ajudamos a realizar", lembra.
Um dilema eterno
Em meio às atribuições profissionais, admite que precisou deixar o teatro um pouco de lado, até porque as oportunidades no Jornalismo apareceram em maior escala. A obrigação de escolha já se deu na juventude, quando dividia o tempo entre as aulas de Artes Cênicas, na Ufrgs, e o curso de Jornalismo, na Famecos, na PUC. Com conflito de horários, na metade das duas faculdades precisou optar por finalizar uma delas, e elegeu a universidade paga. "Precisava terminar logo, pois eram meus pais que estavam pagando a mensalidade", explicou. Como resultado, não concluiu na federal, e, mesmo assim, nunca abandonou os palcos.
Entre uma oficina e outra, Laura garante que não abandonou a paixão, porém não tem tido muito tempo para se dedicar aos palcos. Dentre suas últimas apresentações, está a da peça "Mulheres Pessegueiro", dirigido e produzido pela amiga e também atriz Patsy Cecato. "Essa coisa de viver os personagens, se envolver, estar no palco e sentir a vibração da plateia é única", declara, e acrescenta que, se pudesse, escolheria seguir apenas na carreira de atriz. "Esse é o dilema eterno da minha existência", pontua.
Sem conseguir deixar as artes de lado, se não fosse nem atriz nem jornalista, adoraria ser uma grande cantora. "Só não tenho voz para isso", lamenta, em tom de brincadeira. Mas, em um momento pé no chão, como ela mesma diz, acha que seria uma empresária, "que é o cenário que está se apresentando, com a nova empreitada do canal no YouTube e a marca Vida e Saúde com Laura Medina", que assumiu ao deixar a RBS TV.
Tudo sob controle
Mesmo sendo filha única, passou a infância rodeada de amigos e sempre teve muita facilidade em conseguir o que queria. Deve muito isso à questão de primar por seus relacionamentos com os demais. Não é à toa que a filha do falecido Telmo e da aposentada Gecy chegou no patamar que desejava. "A vida colocava situações que eu ia aceitando, fazendo, experimentando. Dessa forma, eu fui me fazendo profissionalmente", reflete.
Liberdade também sempre foi primordial na vida de Laura, seja em casa ou no trabalho. E a jornalista fez questão de encarar todos os compromissos assim. Conseguiu. Sem enfrentar muitos desafios, conquistou espaços e assumiu funções que permitiram tranquilidade na trajetória. "Sempre gostei de me sentir livre, e sempre consegui dar um jeito nas coisas para que fosse assim. Fiz tudo com muita tranquilidade", analisa.
Como referência na carreira, não poderia deixar de citar Alice Urbim, a quem dedica muito do que sabe hoje. "Alice é uma pessoa muito importante na minha vida profissional e, inclusive, foi minha orientadora na monografia", relata, ao mencionar que admira sua energia e capacidade de gestão. "Hoje ela é uma amiga."
Nos palcos da vida
Casada há quase 30 anos, Laura encontrou no companheiro alguém com quem dividir as idas ao teatro e ao cinema. Ligada no 220, como pessoas próximas costumam dizer, a jornalista não esconde que adora fazer todo tipo de programa cultural. "O cinema te dá essa possibilidade de conhecer o mundo e abrir horizontes. Isso é fundamental para nos alimentar", acredita.
O filho, que hoje tem 20 anos, confirma o entusiasmo da mãe pela vida. "Ela está toda hora muito ligada, é bem falante", fala, mas não sem também dizer o quanto a admira. "Ela também é amorosa, espontânea e muito família, gosta de carinho. É minha psicóloga e melhor amiga, junto com minha irmã", diz, ao se referir a Izabel, de 33 anos, enteada de Laura e filha do primeiro casamento de Léo.
Para o marido, Laura é uma pessoa encantadora, dona de uma energia e um astral diferenciado. "Ela tem uma forma de se relacionar com os outros que é muito envolvente. Tem um poder de comunicação muito grande."
Das lembranças, só as boas
Mesmo nascida em Santa Maria, diz que se sente porto-alegrense, pois veio para a Capital quando tinha apenas um ano de idade. Da infância, só carrega boas lembranças e, como não poderia ser diferente, sempre estava rodeada de amigos. "Nada mudou", fala, feliz. Mas também lembra de brincar muito sozinha. "A mãe conta que eu tinha amigos imaginários, em especial a Madalena, que era muito presente. Mas não sei se isso é uma lembrança de fato ou se sei só porque a mãe me disse", questiona-se.
O gosto por banho de chuva e o bolo de aniversário de cinco anos também são recordações que se fazem presentes. "Lembro bastante do colégio, de brincar na rua, fazer campeonato de vôlei com os amigos." Os filmes de bang-bang que assistia com o pai e que são recordados com certo carinho, hoje deram espaço para produções mais alternativas, com destaque para documentários e filmes franceses, iranianos, argentinos e brasileiros.
Na mesa de centro da sala, misturados a revistas e jornais impressos, estão os livros que está lendo agora, como os das poetisas Adélia Prado e Hilda Hilst. "Estou em um momento mulherzinha", brinca.
O que as estrelas reservam?
À vida, diz que só tem a agradecer, pois, até o momento, todas as situações que se apresentaram, nunca foram tão trágicas, com exceção à morte do pai, "mas são coisas da vida que a gente tem que administrar". Batalhadora, a jornalista garante que sempre trabalhou e que nada caiu do céu. Para o futuro, questiona-se: "O que será que as estrelas me reservam?". Entretanto, já tem algumas definições. Se dedicará mais à área de mídia digital, seguirá na apresentação de eventos e fazendo mediações em debates e entrevistas, ou seja, abandonar o trabalho não está nos planos, apesar de imaginar uma velhice tranquila. "Quando eu ficar velhinha, me imagino no topo de uma montanha meditando para chegar não sei aonde. Para isso, tenho que estar bem, para chegar lá em cima e ficar na posição de ioga", diverte-se com a projeção.
Transparente e com um olhar positivo, se considera generosa e feliz por ter sempre pessoas boas ao seu lado. E quando as coisas não vão lá muito bem, gosta de se cuidar, se dar colo e carinho. "Eu preciso disso, todo mundo precisa", pontua. Mas assegura que estes são momentos mais raros, afinal, Laura é multicolor, é ligada no 220 e é ela mesma dividida em várias "Lauras".

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