Perfil

Márcia Daudt: Algo a mais

Entre a garra do mercado comercial e a sensibilidade das conexões, a executiva constrói uma trajetória de inquietude, liderança afetiva e busca pelo extraordinário

Entrar na frequência de Márcia Daudt é um acontecimento. Bastam cinco minutos de conversa para que qualquer formalidade corporativa se desfaça em gargalhadas sinceras, trocas profundas e aquela sensação acolhedora de quem reencontra uma amiga de longa data. 

Em um mercado muitas vezes engessado por discursos ensaiados, a supervisora comercial da Record TV RS é pura eletricidade, calor humano e uma sinceridade desconcertante. Ela não entra em uma sala apenas para ocupar espaço; ela transforma o ambiente. Virar ‘Marcinha’ na vida de quem cruza seu caminho não exige esforço, é uma decorrência natural de sua entrega total ao presente. Das pedras de cristal que carrega à vibração dos grandes negócios que articula, sua trajetória prova que o verdadeiro sucesso reside na capacidade genuína de se conectar com as pessoas.

Para entender a força dessa mulher que transita com a mesma maestria entre o universo do Comercial e as sessões de yoga, é preciso voltar no tempo. Mais precisamente para a Porto Alegre dos anos 1980, quando uma jovem de 17 anos recusava passivamente a ideia de depender financeiramente de quem quer que fosse. Filha de Luiz Lopes Daudt, vendedor de carros, e de Helene Machado Daudt, servidora pública e fortaleza inabalável, a guria criada na batalha diária trazia no sangue a inquietação e o gosto pelo movimento. Em uma família de vida real, com dores e amores sem maquiagem, aprendeu cedo que nada viria de graça. E foi no improviso das madrugadas que lapidou o primeiro grande case de sua vida.

Na cozinha de casa, produzia doces e salgados artesanais para vender durante os intervalos dos bancários no centro da Capital. Usando caixas reaproveitadas de camisa, batiam à porta o medo e a proibição de circular em certas instituições, mas a cara de pau e a qualidade insuperável das receitas falavam mais alto. Escondendo-se quando necessário e encantando clientes diariamente, garantiu sua própria renda e, sem saber, chamou a atenção de uma gerente atenta. Quando abriu uma vaga no atendimento daquela agência, a ordem foi direta: “Chama a Márcia dos doces!”. A carreira financeira começava ali, impulsionada pela coragem de ir à luta.

A luz da sala

A rotina no banco durou seis anos, tempo suficiente para que a sua busca inata por expansão fizesse o cenário bancário parecer pequeno demais. A inquietação cobrava novos ares. Em um salto no escuro que muitos classificaram como loucura, pediu demissão e aceitou ingressar no Grupo RBS. A porta de entrada foi a Zero Hora, no degrau mais árduo e desprovido de glamour: a publicidade legal. Trabalhando em um prédio separado da redação principal, vendeu linha por linha, conquistou espaço centímetro a centímetro e escalou cada degrau até se tornar executiva de contas.

Nove anos depois, quando o caminho parecia desenhado para a estabilidade, o chamado do extraordinário voltou a soar. Ao lado da parceira Neca Hickmann, aceitou o desafio de migrar para a Jornal Comunicações, uma editora de revistas expressivamente menor, mas com grande ambição. A manobra audaciosa rendeu frutos históricos. Sob sua liderança no setor Comercial, o lançamento da Revista Estilo Zaffari desbancou os maiores conglomerados de Comunicação do Estado e conquistou o prestigiado prêmio de Veículo do Ano. “Éramos uma empresa pequena competindo com gigantes, e fomos lá e fizemos a diferença. São as pessoas que mudam o jogo, sempre”, garante ela.

Essa visão humanizada não é um mero discurso para apresentações em slides; é a espinha dorsal de sua filosofia de vida. Formada em Gestão Comercial pela UniRitter, a gestora repete como lema que “tudo na vida é gestão e tudo na vida é venda”. No entanto, sua definição de venda passa longe da frieza dos números. Trata-se de enxergar o CPF que existe por trás de qualquer CNPJ. Para ela, liderar é um ato de afeto e responsabilidade. Quem trabalha ao seu lado descobre uma chefe exigente, mas profundamente protetora, capaz de extrair o melhor de cada indivíduo sem esquecer as bagagens emocionais que cada um carrega.

O tempero da casa

A garra com que defende suas equipes foi forjada no amor familiar e nas tempestades que a vida lhe impôs. Se na infância era a única neta mulher entre primos garotos e a moleca que só jogava futebol se pudesse ser a goleira ou ditar as regras da brincadeira, na vida adulta precisou assumir o papel de esteio da casa. A perda devastadora da irmã caçula, Juliana, vítima de câncer aos 29 anos, e a recente despedida da mãe testaram seus limites emocionais. Contudo, recusa veementemente a romantização do sofrimento. “Não sou muito favorável à teoria de que é na dor que a gente fica mais forte. A gente não precisa da dor para se fortalecer; dá para ficar forte na alegria das coisas”, assegura.

Essa capacidade de transformar dor em entusiasmo se reflete em sua rotina diária. A profissional que gerenciou com maestria a sucursal do Grupo RBS em Novo Hamburgo — onde venceu a desconfiança local, reestruturou a operação de rádio e TV e ganhou o carinhoso apelido de ‘Chefona’ — é a mesma que se apaixona pelo comportamento humano. Quando assumiu a gerência das rádios populares do conglomerado midiático, como a Rádio Farroupilha e a Rádio Cidade, mergulhou nos estudos do especialista Renato Meirelles sobre a ascensão da classe C no País. Em vez de vender apenas espaço comercial, tornou-se palestrante e consultora sobre o tema, ensinando o mercado a respeitar e entender esse novo consumidor.

Seu itinerário profissional é vasto e diversificado, acumulando mais de duas décadas de dedicação à mídia tradicional, passagens marcantes pela mídia out of home (OOH) na Ativa e uma experiência transformadora no empreendedorismo ao lado do marido, Gerson Vieira, na Grovi Mídias Externas. Quando a pandemia desafiou o mercado global, a executiva não estagnou. Retornou à televisão aberta para assumir a supervisão comercial da Record TV RS, onde atua há mais de cinco anos liderando equipes e construindo entregas que a orgulham.

Coragem sem filtro

Em um ecossistema publicitário em constante mutação, a supervisora transita com entusiasmo ímpar pelas transformações tecnológicas. Da era da TV analógica à iminente chegada da TV 3.0, vibra com a convergência de meios e a criação de projetos multiplataforma. Recentemente, ao transformar um briefing de apenas duas inserções comerciais em uma temporada inteira de conteúdo gastronômico para uma grande marca, provou que sua entrega vai sempre além do contratado. Para ela, o mercado não precisa de meros tiradores de pedido, mas de profissionais capazes de encantar e construir pontes reais entre marcas e pessoas.

Essa autenticidade de entrega não tolera jogos de cena. Na mesa de negociação, sua linha vermelha é a ausência de respeito mútuo. Sincera, direta e transparente, admite sem rodeios que não é de passar panos quentes quando enxerga um erro estratégico. “Sou verdadeira demais e, em um mercado que muitas vezes prefere o silêncio, dizer o que precisa ser dito já me trouxe problemas. Hoje aprendi a ser mais gentil com as palavras, mas a verdade continua sendo inegociável para mim”, pontua.

Atuando também no fortalecimento do mercado associativo como diretora de Imprensa e Comunicação do Grupo de Atendimento de Veículos do Rio Grande do Sul (GAV-RS), doa tempo e energia para articular o setor, escrever artigos e organizar eventos de relevância regional. O combustível para essa jornada é a paixão genuína pelo coletivo. Ela acredita que a união entre os profissionais da Comunicação é o único caminho para construir um mercado forte, respeitado e sustentável.

Mãos no prumo

Fora dos holofotes corporativos e dos prazos apertados, o ritmo acelerado encontra equilíbrio no porto seguro da vida pessoal. O grande orgulho de sua vida é o filho, Vinícius, de 21 anos, prestes a se formar em Medicina Veterinária. Ver o jovem seguir seu próprio caminho, com ética e dedicação aos animais, recheia o coração da mãe-coruja de realização. Ao lado do parceiro de vida e de negócios, encontra no sítio da família o refúgio perfeito para desacelerar. Na rede, cercada pelos cachorros e com um bom livro nas mãos, renova suas energias longe das notificações do celular.

Devoradora de biografias e obras sobre resiliência, atualmente divide a leitura entre ‘O Invencível’, de Luciana Deretti, e a história do empresário Mário Petrelli, que contribuiu para que o sinal da Record TV chegasse à Região Sul. O cuidado com o bem-estar físico e mental também ganhou um espaço sagrado: diariamente, às oito da noite, dedica uma hora exclusiva aos treinos de academia, desconectada do mundo digital para focar inteiramente na sua presença e na sua saúde.

Além da frequência

Olhando para o horizonte, o futuro surge como um vasto campo de possibilidades. A gestora planeja colocar no papel suas memórias e aprendizados em um livro, intensificar sua atuação como palestrante e consultora em gestão humanizada ou outra temática que domine. Entre seus planos, está também aprofundar-se nos estudos sobre o etarismo — pauta que considera crucial para a sociedade brasileira e para a maturidade do mercado publicitário no País. Sem qualquer intenção de desacelerar, projeta trabalhar até onde a paixão a guiar, convicta de que a idade é apenas um acúmulo de repertório e sabedoria.

Entre encontros marcantes, gargalhadas contagiantes e metas superadas com brilhantismo, ela continua sendo a garota corajosa das caixas de doces que aprendeu a ler a alma das pessoas antes de fechar qualquer negócio. Em cada projeto que toca, em cada equipe que lidera e em cada conversa que estende, ela entrega exatamente o que promete: energia pura, verdade e aquele inconfundível algo a mais.

Autor

Ilana Xavier

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