Há um aviso sutil, quase revolucionário, que Marta Kroth lança entre uma xícara de água e uma pausa para acomodar a garganta cansada após horas seguidas de reunião: “Cuidado para não trabalhar demais, viu? Não esquece de saber quem tu és além de jornalista”. A ironia amorosa do conselho dado à autora deste perfil reside no fato de ter sido proferida por alguém que, no exato instante em que pondera diminuir o ritmo, engata uma nova pós-graduação, coordena núcleos inteiros de programação televisiva e acumula jornadas diárias que superam 12 horas de entrega apaixonada.
Definir quem é Marta sem esbarrar no fato de ser jornalista de carteirinha é um exercício complexo – inclusive para ela mesma. Afinal, em uma sociedade viciada em carimbar almas com cargos e títulos corporativos, resistir à tentação do mero produtivismo e reivindicar o direito ao afeto, ao cinema, às memórias de infância e aos encontros sem pressa com velhos amigos é, em si, um ato de coragem. E coragem é matéria-prima que nunca faltou na vida desta mulher.
Atualmente na coordenação do núcleo de Cultura e Comportamento da Rede RS, que é o braço de produção jornalística própria da Box Brasil, Marta vive uma espécie de reencontro com o frescor da criação. À frente do programa diário ‘Revista RS’ e gestora de novos projetos no canal idealizado pelo empresário Cícero Aragon, a comunicadora, recentemente, experimentou uma sensação que havia anos estava adormecida sob os relatórios executivos e burocracias de gestão: o retorno ao set de gravação. Ao lado do diretor técnico Matheus Pinho, pegou o roteiro, ajustou o enquadramento e voltou a dirigir um quadro especial. O brilho no olhar entregou o diagnóstico imediato de reativação criativa.
“Voltar para o set deu um ar novo, uma renovada. A gestão é algo que consome muito tempo e deixa a parte criativa meio em stand-by. Ver que ainda é possível criar uma lacuna para exercitar a criatividade e dirigir é bom demais”, confessa a profissional, com o sorriso de quem reaprendeu o caminho de casa. O voo na Rede RS insere-se em um plano ambicioso de consolidar Porto Alegre como uma verdadeira cabeça de rede audiovisual, criando mercado para uma nova geração de profissionais de imprensa e da área técnica – setor que, segundo avalia, sofre com uma grave lacuna geracional de formação.
Mas para compreender o olhar atento que Marta imprime na tela, é preciso fazer uma viagem no tempo e desembarcar no município de Tapera, no interior do Rio Grande do Sul. Caçula de uma grande família de seis irmãos, ela cresceu em um lar de trabalhadores movidos pelo senso de justiça e pela consciência de classe. O pai, Ottmar, era funcionário da Corsan; a mãe, dona Dalva, construiu sua jornada no campo da assistência social. Em plena ditadura militar, o ambiente doméstico era permeado por discussões lúcidas sobre a importância da democracia, do voto e da dignidade humana.
Sementes no interior
Longe de privilégios financeiros, a infância em Tapera foi marcada por uma efervescência silenciosa. Marta recorda o fascínio e o temor de ver caminhonetes de políticos retornando do exílio cruzando as ruas do município, enquanto as crianças corriam atrás, alheias ao perigo real daquele período histórico. O gosto pelas notícias nasceu de forma orgânica. Quando pré-adolescente, assistiu à irmã mais velha se casar com um jornalista, fato que lhe abriu as portas das redações locais. A experiência inaugural foi avassaladora: ainda muito jovem, ao ver o cunhado tirar férias, recebeu das mãos dele a responsabilidade de tocar o jornal. O irmão mais velho, músico, também trilhara os caminhos do rádio ao se mudar para Santa Maria. O destino parecia desenhado.
Aos 17 anos, recém-saída da escola pública, enfrentou o vestibular da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). “Eu não tinha nem idade para tirar todos os documentos quando fui me matricular. Pensei que não passaria nunca, mas passei”, recorda. O desembarque na cidade universitária no início do processo de redemocratização do País foi um choque de expansão de horizontes. A imensidão da biblioteca central da UFSM marcou-a para sempre: em casa, para estudar no quarto compartilhado cheio de beliches, precisava trancar a porta; na universidade, encontrou silêncio e milhares de livros cuja existência sequer imaginava.
Santa Maria era um caldeirão cultural. Entre reuniões do diretório acadêmico liderado por figuras como Marcelo Canellas e Luiz Antônio Araújo, aulas nas salas acima do anátomo da Faculdade de Medicina e mostras intensas de cinema, onde assistiu a toda a filmografia de Glauber Rocha em apenas uma semana, Marta moldou seu espírito crítico. A juventude não era dividida entre teoria e prática; era uma imersão total no conhecimento, no debate sobre a macropolítica latino-americana e na luta cotidiana por um prédio próprio para o curso de Jornalismo.
Telas e computadores
A entrada no mercado profissional ocorreu em ritmo meteórico. No início dos anos 1990, mudou-se para Florianópolis para integrar a equipe de fundação do Diário Catarinense, veículo que revolucionou a imprensa da Região Sul por ser o primeiro jornal informatizado da América Latina. Em uma época em que até grandes diários, como a Zero Hora, ainda funcionavam em preto e branco e de forma pré-digital, a redação catarinense parecia “quase ficção científica”, conforme lembra Marta. Com apenas um ano de formada, Marta já assumia a subeditoria de Variedades e a edição do caderno semanal de TV.
Apesar do sucesso precoce no Jornalismo impresso, o desejo de explorar novas linguagens a trouxe de volta a Porto Alegre, onde ingressou no curso de Publicidade e Propaganda da Fabico, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Na capital gaúcha, vivenciou a rotina dupla que acompanharia boa parte da vida da categoria: durante o dia, atuava como produtora de elenco na produtora Zeppelin e redatora júnior ao lado do publicitário Roberto Philomena, com quem conquistou o ‘Salão da Propaganda’ pela célebre campanha da RBS embalada pelo tema ‘Sorria, Meu Bem’.
Causa e voz pública
A virada decisiva em direção à televisão ocorreu quando foi convidada a integrar a equipe do programa ‘Cidade Viva’, da Prefeitura de Porto Alegre, sob a liderança de Bita Sória. Do trabalho de produção e reportagem, passou rapidamente à direção da atração de dois minutos veiculada nos intervalos comerciais das grandes emissoras.
A consolidação definitiva como servidora pública veio ao ser aprovada em concurso para a TVE. A escolha exigiu desprendimento: para assumir o cargo, Marta enfrentou uma redução salarial drástica, abrindo mão dos vencimentos expressivos que recebia da prefeitura. Na TVE, fez do audiovisual um instrumento de cidadania e direitos humanos e, em 2011, assinou um dos trabalhos mais sensíveis de sua trajetória: a grande reportagem ‘Menino ou Menina: O Transsexualismo’, veiculada no ‘TVE Repórter’ e vencedora do ‘Prêmio Moacyr Scliar’, promovido pela Associação Médica do Rio Grande do Sul (Amrigs).
Em uma época em que o letramento sobre diversidade de gênero era escasso na sociedade, a jornalista realizou um mergulho profundo no Ambulatório do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, acompanhando o trabalho pioneiro do cirurgião Walter Koffe e a jornada de transição de gênero dos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), que era o único que ofertava o procedimento à época.
Resistência nas ruínas
No mesmo ano de 2011, Marta Kroth fez história ao se tornar a primeira funcionária concursada do quadro a assumir o cargo de diretora-geral da TVE. Encontrou uma estrutura sucateada: cadeiras sem braço, paredes abertas após a remoção de aparelhos de ar-condicionado e escassez de equipes. Dividindo-se entre a reportagem pela manhã e as reuniões de gestão à tarde, liderou a histórica transição do sinal analógico para o digital. Sob sua gestão, a emissora pública obteve investimentos, adquiriu equipamentos de ponta e realizou o primeiro concurso público da instituição com reserva de cotas raciais e vagas para pessoas com deficiência.
Porém, a tempestade veio a seguir. A proposta de extinção da Fundação Piratini, promovida pelo governo de José Ivo Sartori, resultou em um dos episódios mais traumáticos da imprensa gaúcha. A aprovação da medida pela Assembleia Legislativa, ocorrida no apagar das luzes do ano, entre o Natal e o Ano Novo, deixou marcas profundas. Os servidores concursados foram surpreendidos com portões fechados e a orientação de aguardar demissões em casa, em meio à perda de benefícios básicos, como plano de saúde e vale-alimentação. “O que fizeram com os trabalhadores naquela noite foi criminoso. Desestruturou famílias, acabou com a vida de mães solos que tinham ali a garantia de um trabalho digno”, desabafa Marta, reforçando o orgulho da resistência heroica dos colegas de categoria que permanecem mantendo a emissora viva.
Além do expediente
A vida pessoal de Marta também foi pautada por escolhas conscientes e libertárias. Casada por 10 anos com um publicitário, separou-se na mesma época em que ingressou na TVE. A opção de não ter filhos nunca foi um drama nem um arrependimento, mas uma decisão amadurecida no convívio com colegas jornalistas e feministas da época da prefeitura. Lembra com carinho e bom humor do conselho certeiro recebido ao questionar a mãe sobre o tema: “Tu pensa demais, minha filha. Quem pensa não tem filho!”.
Livre de cobranças sociais, exerce o papel de tia e grande incentivadora de quatro sobrinhos e cinco sobrinhos-netos, cujas visitas movimentam a casa no final de semana. Quando não está dedicada ao trabalho ou às leituras de suas contínuas pós-graduações, a jornalista busca refúgio no cinema, nas artes cênicas, no consumo de boa MPB, samba, pop e rock e em encontros acolhedores com amigos de longa data. Cultiva amizades sólidas que já superam quatro décadas, guardando laços afetivos que vão desde a infância em Tapera até os parceiros do lendário bar Elo Perdido.
Nas preferências pessoais, declara-se ‘gremista não praticante’, apesar de ter nutrido na adolescência uma profunda admiração pelo estilo inteligente do comentarista Ruy Carlos Ostermann. Marta aprecia pratos das culinárias italiana e japonesa, considera o livro ‘A Dama da Lagoa’, de Rafael Guimaraens, uma obra de narrativa exemplar e admite uma mania inofensiva: o apego rigoroso à organização. Considerada por alguns como brava, ela prefere se definir como justa.
Olhando para os próximos 10 anos, Marta projeta um futuro em que possa desacelerar e se dedicar à direção de projetos audiovisuais e televisivos. Enquanto esse momento não chega, deixa um recado gentil à nova geração de comunicadores: “A vida é mais do que nossos dias no escritório. É preciso cultivar a alma, desfrutar dos afetos e manter acesa a chama da indignação e do bom Jornalismo”.

