Perfil

Newton Silva: Movimento em cena

Jornalista da TVE narra o mundo com a serenidade de quem aprendeu que a vida é, antes de tudo, presença

Crédito: Fábio Mariot.

O fone de ouvido é quase uma extensão do corpo, um amuleto que filtra o caos urbano de Porto Alegre. Enquanto pedala pela Orla do Guaíba ou pelo Parque Marinha, Newton Silva não busca apenas o exercício físico. Ele busca a cadência. O som que embala sua vida nem sempre é o das notícias que ele mesmo ajuda a propagar. Muitas vezes, é a melodia precisa de ‘Esquadros’, da cantora Adriana Calcanhotto.

A letra, que fala sobre cores, frestas e a visão que se tem do mundo, parece desenhar a alma desse jornalista que, aos 63 anos, decidiu que a vida é curta demais para não ser vivida com absoluta transparência. “Eu me vejo muito nessa música, nessa ideia de observar o que está ao redor com profundidade”, reflete, com a serenidade de quem já viu muita história passar pelas lentes de uma câmera.

Nascido em 28 de junho de 1962, uma data que o calendário marca como o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, Newton parece ter sido predestinado a ser ponte. Ele cresceu em uma Porto Alegre que ainda guardava ares de vizinhança, entre os bairros Itu Sabará e Cristo Redentor.

Filho de Jorge e Terezinha, ele herdou do pai — que atuava na área administrativa da Varig — a curiosidade pelo rádio. Jorge era um ouvinte atento, alguém que entendia as engrenagens da comunicação por instinto e que chegou a ver o filho dar os primeiros passos na profissão antes de partir, em 1993. Já a mãe, ainda presente, é quem faz da rotina de Newton um exercício de afeto e logística. Ele divide uma guarda compartilhada com a irmã Cyntia: são três meses no Rio Grande do Sul e três meses no Rio de Janeiro, garantindo que a matriarca receba o cuidado que a idade e a história exigem.

O palco inicial

Embora o Jornalismo tenha se tornado sua morada definitiva, o primeiro grande amor de Newton foi o Teatro. Formado em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), ele mergulhou no efervescente cenário teatral porto-alegrense da década de 1980, circulando entre o Menino Deus e a Cidade Baixa. Aquela época não foi apenas um aprendizado estético, mas um processo de descoberta pessoal. “Quando entrei para o meu primeiro grupo de teatro, senti que ali era o lugar onde a minha orientação sexual não era um tabu, mas parte de quem eu era”, recorda. Foi no palco que ele aprendeu que a Comunicação é, antes de tudo, presença.

Essa bagagem artística não ficou restrita ao território das memórias afetivas. Newton transpôs sua vivência nos palcos para o rigor acadêmico em sua dissertação de mestrado: ‘Palcos da vida: o vídeo como documento do teatro em POA nos anos 1980’. No estudo, ele analisou sete espetáculos emblemáticos para sustentar a tese de que a lente da câmera falha em capturar a alma da cena: o instante. “Teatro é uma arte efêmera. O vídeo abrange a estrutura da peça, mas não traduz o essencial: a presença física e a troca entre atores e público”, reflete.

Engrenagens técnicas

Newton começou a tatear o mundo da Comunicação aos 20 anos, inicialmente na área técnica, onde o rigor dos processos moldou sua disciplina. O primeiro grande capítulo foi escrito na Rádio Guaíba, em 1982, e seguiu para a RBS TV. Foi ali, nos bastidores, observando repórteres veteranos em campo, que a vontade de segurar o microfone e contar histórias começou a ganhar corpo. Ele conta que não tinha plena consciência da Comunicação como carreira até entrar na televisão pela primeira vez e perceber que aquela era, na verdade, uma vontade latente.

A chegada à TVE, em julho de 1998, é lembrada com a nitidez de um filme de estreia. A primeira pauta externa foi uma entrevista com o grupo ‘Ói Nóis Aqui Traveiz’. Ao final do dia, a editora Vera Vergo trouxe o veredito que acalmou o coração do estreante: a equipe técnica tinha adorado trabalhar com ele. Um mês depois, veio o desafio de um ao vivo direto da Casa de Cultura Mario Quintana. 

Enquanto colegas o questionavam sobre o nervosismo, ele mantinha a calma de quem domina o ofício. “É isso que vou fazer, é isso que sei fazer e é isso que posso fazer”, garantiu a si mesmo. O carisma, essa qualidade imaterial, foi validado até pela atriz Zezé Polessa. Após um pequeno erro técnico no ar, ela o tranquilizou com uma frase que ele guarda como um amuleto: “Fica tranquilo, tu tem carisma”.

Coragem em queda

A trajetória de um repórter de TV é feita de improvisos e doses de adrenalina. Nos anos 2000, sob a direção de Marcos Martinelli, Newton foi escalado para uma pauta que testaria seus limites. Ele foi avisado apenas um dia antes que teria de saltar de paraquedas para uma matéria sobre esportes radicais. Sem tempo para hesitar, ele saltou. “Foram 10 segundos de queda livre que pareceram uma eternidade. Só senti medo de verdade quando o paraquedas abriu e eu pensei: ‘o que eu estou fazendo aqui?’”, conta.

Essa disposição reforça sua faceta de profissional “bem mandado”, alguém que se orgulha da disciplina e do respeito à hierarquia das redações. E se tivesse que repetir a dose hoje? “Só se o Martinelli mandasse de novo”, brinca.

A mesma coragem o levou, em 2016, para a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Cultura (Sedac), onde começou a flertar com a linguagem das mídias sociais. Ali, Newton experimentou a produção de vídeos curtos. Em 2023, retornou à TVE após um convite de Hilda Haubert para focar totalmente na estratégia digital da emissora estatal. Ele se sente realizado por estar nos bastidores de algo tão vital, acreditando que ser comunicador social em 2026 é a missão de desvendar um mundo complexo e dar voz a quem precisa.

Cores e transparência

O ano de 2023 também marcou o momento de maior transparência em sua vida pública. Durante a comemoração dos 50 anos da TV estatal, Newton decidiu assumir sua orientação sexual abertamente na tela. Para um veterano com décadas de estrada, o momento foi de libertação, embora o assunto nunca tenha sido um segredo nos círculos artísticos ou acadêmicos por onde circulou. “Foi bacana dizer claramente e com todas as letras. Hoje a gente pode ser visível a todas as pessoas”, afirma.

Na vida privada, a rotina é marcada pela simplicidade e pelos afetos que atravessam fronteiras. Newton se define como um pai de planta. Embora adore cachorros e gatos, a logística de vida o impede de ter animais de estimação por enquanto. O coração, porém, tem endereço certo em Campo Moreno, no Paraná. É lá que vive Igor Henrique, economista e administrador com quem Newton mantém um namoro desde 2018. O relacionamento, que começou em um aplicativo e teve Gramado como primeiro cenário real, sobrevive à base de videochamadas diárias e encontros a cada três meses.

Ritos de conforto

Pilates, musculação e alongamento são os pilares que sustentam sua energia. Ele já utilizou esse hobby como ferramenta de divulgação, gravando vídeos enquanto se exercitava para mostrar que a programação da TVE pode ser consumida em qualquer lugar. Quando o dia termina, o conforto vem de um bom prato de nhoque. Nas horas de silêncio, ele lê. Seu título favorito é ‘Torto Arado’, de Itamar Vieira Junior. A conexão com a obra foi tão profunda que ele viajou para a Chapada Diamantina para conhecer a comunidade quilombola que inspirou a trama e assistiu ao musical baseado no livro.

O engajamento com a Cultura não é apenas uma obrigação profissional, mas um estado de espírito. Newton é frequentador assíduo da Cinemateca Paulo Amorim, de peças de teatro e de shows, sempre na posição de um espectador atento e apaixonado. No futebol, a curiosidade fica por conta da camisa do Flamengo que ganhou do cunhado e que usa com carinho, apesar de não ser um torcedor fanático. 

Quando questionado sobre suas falhas e virtudes, ele é direto: o maior defeito é a dificuldade em dizer “não”. Já a maior qualidade é a facilidade em cultivar amigos verdadeiros, que o acompanham por toda a vida.

Novos atos

Ao projetar o horizonte dos próximos 10 anos, o olhar de Newton se divide entre a esperança e o pragmatismo. Ele se preocupa com a falta de investimento e a possibilidade de descontinuidade da emissora que o acolheu por tanto tempo. Sua vontade é seguir contribuindo para o Jornalismo do bem, aquele que constrói e dá voz ao que realmente vale a pena. “Em 10 anos, me vejo na TVE, produzindo conteúdo relevante e contribuindo para a Comunicação Pública”, projeta. Mas ele também sabe que a vida é feita de ciclos e que novos palcos podem surgir a qualquer momento.

O plano B já tem endereço e roteiro: o Rio de Janeiro. O desejo de morar perto da irmã Cyntia vem acompanhado de um sonho lúdico de quem nunca deixou de ser ator. “Já pensei que, se ocorresse a descontinuidade, eu poderia me mudar para o Rio e tentar ser figurante nas novelas da Globo”, cogita, confiante de que a rede de amigos que construiu no centro do País poderia abrir essas portas.

Se a aposentadoria vier, que seja para viver novas experiências, mas sempre com o lema “vai em frente” guiando seus passos. Persistente, carismático e sereno, Newton Silva segue provando que a melhor história é sempre aquela que ainda estamos escrevendo, com molho, verdade e a coragem de ser quem se é.

Autor

Ilana Xavier

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