Perfil

Pedro Dreher: Sensibilidade que constrói a vida

Diagramador e editor de Arte do Correio do Povo celebra uma vida dedicada ao design editorial, unindo empenho e compromisso com a humanidade

Crédito: Fabiano do Amaral.

Um dos diversos blocos que desfilam na cidade do Rio de Janeiro – que, sem dúvidas, tem um dos mais pujantes carnavais do mundo (se não o mais de todos) – chama-se ‘Simpatia É Quase Amor’. Se o bloco de carnaval de Pedro Dreher pudesse ter um nome, provavelmente seria ‘Sensibilidade é o Próprio Amor’.

Em poucos minutos de conversa, é possível observar que, por trás dos óculos e da barba, existe, ali, uma pessoa amável e preocupada em oferecer a melhor experiência possível. E isso abrange as pontes profissionais e pessoais que cria, que se confundem harmoniosamente em gestos de gentileza e carinho para com os próximos. Ao chegar diariamente à redação do Correio do Povo, cumprimenta quase todos, ou, no mínimo, oferece um aceno de saudações para iniciar o dia.

Cada diagramação, uma nota…

…e, ao mesmo tempo, uma nova oportunidade para demonstrar compromisso profissional com aquilo que se gosta de fazer e com o que acredita que é possível e necessário produzir. É como se cada peça representasse uma nota musical que, juntas, formam uma partitura de um repertório do qual não pode faltar a MPB clássica, que faz parte do imaginário e da rotina de Pedro.

“A música, de certa forma, me trouxe sensibilidade e disciplina”, afirma. Isso se traduz no momento de aliar acordes e percepções sensoriais para elaborar a próxima página, mas, ao mesmo tempo, de poder estruturar o trabalho, que não é pouco, a fim de que seja entregue no prazo e com a qualidade que acredita que os leitores merecem.

É a coloração, a disposição dos elementos gráficos, a produção de sentido junto ao público e as necessidades de adaptações que compõem este profissional que, há mais de 20 anos, diagrama o jornal Correio do Povo, do qual é editor de Arte. E as referências musicais acompanham uma trajetória que vem das simbologias que as letras e melodias conseguem sensibilizar – tudo é produção de sentido e nada é por acaso. 

De Rubel a Gilberto Gil, de Rita Lee a Frejat, o repertório tem personalidade, mas também conta com compromisso. “O Jornalismo é um trabalho que precisa que a gente tenha muita sensibilidade”, comenta. Porém, isso tem uma origem e uma trajetória que o levou…

…de Santa Cruz do Sul para a diagramação…

…pois foi ainda na juventude que participou dos primeiros grupos musicais e festivais. Nascido em Porto Alegre em 9 de julho de 1962, foi em Santa Cruz do Sul que a história tomou corpo, mudando-se com a família ainda criança para o município do interior gaúcho. Paralelamente aos estudos no Colégio Mauá, onde completou o ensino médio, Pedro acompanhava o pai, Adalberto Felippe Dreher, que administrava o Riovale Jornal.

Auxiliando no negócio da família, o jovem revisava páginas e textos e, gradualmente, ia acrescentando funções. “Eu acompanhei a chegada da tecnologia para o jornalismo impresso”, destaca. Foi essa vivência que permitiu que adquirisse as noções de diagramação que levaria para toda a vida, reconhecendo que as mudanças do tempos necessitam de adaptações. “Como profissional, é um privilégio ter acompanhado toda essa mudança. Do chumbo para o offset, do analógico para o digital e, agora, acompanhar os caminhos que o Jornalismo moderno está tomando.”

Materiais como fotolitos e folhas-matriz faziam parte da rotina, mas também era constante a companhia do violão, da guitarra e do trombone, que tocava nas horas vagas e cuja presença foi afinando – com o perdão do trocadilho. Já inserido na imprensa, passou a desenvolver não apenas trabalhos de diagramação, mas também de repórter, assumindo como colunista social em algumas ocasiões. O escopo da rotina em meio ao trabalho proporcionou contato, igualmente, com princípios de gestão comercial, o que o levou a fundar o jornal Radar, em Canoas, em 1982. Dessa forma, obtinha um diferente contato com a…

…estruturação no Jornalismo profissional,…

…ao gerir o veículo e cuidar de aspectos ligados à administração de uma empresa.

Pedro chegou a iniciar o curso de Jornalismo na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc); contudo, não concluiu a graduação. No entanto, faz questão de frisar: “Considero o diploma essencial para o exercício da profissão”. Ele explica que, na época em que começou a trabalhar, existiam determinadas lacunas em algumas áreas, incluindo o Jornalismo, que permitiam que elas fossem exercidas sem ensino superior. Por isso, desenvolveu habilidades práticas que possibilitaram que adquirisse conhecimento técnico para trabalhar na imprensa profissional.

Em 1993, com a fusão do Radar com a Folha de Canoas e, posteriormente, com a compra desta pelo Grupo Editorial Sinos, Pedro retornou a Santa Cruz e às origens: o Riovale era, mais uma vez, o destino. De 2000 a 2004, de volta à Região Metropolitana, fez parte da equipe de Zero Hora, período ao qual demonstra muita satisfação. Ao Correio do Povo, chegou em 2006, onde já soma mais de duas décadas de carreira.

O diagramador comenta que esse foi o local de sua grande realização profissional e no qual foi desafiado a desenvolver uma das maiores empreitadas de sua carreira: a reformulação do projeto gráfico do Correio do Povo de 2008, a primeira após diversos anos com o mesmo layout. “Foi uma correria, dias de muito trabalho. E dias em que eu mais ouvi o meu nome sendo chamado”, conta. A composição rendeu o segundo lugar no ‘Prêmio ARI’ daquele ano. Já em 2010, Pedro acompanhou o início da impressão em full color do diário.

Ele comenta que um dos maiores reconhecimentos pessoais que pôde gerar foi quando uma colega de trabalho, então desiludida com a carreira, veio a ele com uma edição impressa em mãos, já no novo formato, informando que aquela mudança a fizera retomar o gosto pelo que fazia. Os próximos anos de carreira do diagramador seguiram cercados de…

…desafios contemporâneos para tempos novos…,

uma vez que a vida se modifica e é papel da imprensa retratá-la. E, nisso, manter o respeito ao próximo é um dos pilares do profissional.

As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul representaram um dos períodos de maior necessidade de reinvenção para manter os veículos comunicacionais em funcionamento em meio ao desastre ambiental e social. Pedro conta que adentrou na redação do Correio com a água pela cintura, uma vez que esta se situa em uma região baixa do Centro Histórico de Porto Alegre que foi atingida pelo Guaíba.

Com o auxílio do filho João Guilherme, retirou computadores e, numa força-tarefa, foi feita a distribuição dos equipamentos para que diferentes profissionais pudessem trabalhar diretamente de suas casas, mantendo o funcionamento da imprensa em um período crucial para a história gaúcha. Ele próprio realizava remotamente o diagrama a partir das matérias enviadas pelo corpo jornalístico do veículo, projeto que rendeu o primeiro lugar na categoria Design Editorial do ‘66º Prêmio ARI/Banrisul de Jornalismo’.

Outras produções de destaque dedicaram-se ao segmento esportivo: na Olimpíada de Paris de 2024 e na Copa do Mundo de 2026, flips especiais compuseram a cobertura do jornal, cujos designs tiveram participação ativa de Pedro. Ao mesmo tempo, o caderno especial de 130 anos do Correio do Povo, assim como o novo projeto gráfico desenvolvido para lançamento na sequência receberam, respectivamente, o 2º e o 4º lugar no ‘67º Prêmio Ari/Banrisul’. E é com a satisfação dessas realizações que o diagramador imprime a…

…sensibilidade de quem vive…

e acumulou bagagem para que a Comunicação ofereça experiências dignas a quem a confere. “O Jornalismo possibilita tocar no lado mais humano das pessoas”, destaca. Pedro demonstra que a sensibilidade, muito adquirida por meio da música, conduz suas relações profissionais e pessoais.

Para além do profissional de imprensa, ele também investe em conhecimentos alternativos como maneira de permanecer sensitivo e compassivo ao mundo – já realizou cursos de reiki, barras de access e cura quântica, por exemplo. Um projeto piloto de escrita criativa já foi posto em prática, em que incentiva os participantes a desenvolverem produções multimídia diversas, como poesias, fotografias e vídeos, a fim de promover acolhimento e aproximação.

O posto de atual 2º vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors), que exerce para a gestão 2025-2028, vai ao encontro da ideia de lutar pela categoria da imprensa e reconhecer que as práticas jornalísticas precisam ser concomitantes com a ética e o interesse público. Isso reflete em uma ideia de que é necessário acompanhar tendências, interpretar o que pode fazer sentido para o público e que há espaço para criatividade. “A gente pode trabalhar de uma forma completamente disruptiva e inventar o que não tem ainda ou fazer com o que já existe.”

Pai de Andressa, Sara, Marina e João Guilherme, o caçula, com quem vive até hoje, o diagramador entende que a vida é feita de sensibilidade e das boas relações que se constroem. Ele admite que, muitas vezes, poderia ter mais paciência em alguns aspectos e que há coisas em que deveria deixar de procrastinar – e não há problema em fazer este reconhecimento. Por outro lado, é dotado de um real comprometimento com o que se propõe a fazer – e podem-se verificar evidências disso em sua trajetória. Não seria nada difícil dizer que ele é daquelas pessoas identificáveis como ‘gente fina’. 

E se sua vida rendesse uma primeira página? Certamente, não seria uma manchete, mas aquilo que sempre prezou na vida: a boa música e, nas palavras de Jota Quest, “dias melhores pra sempre”.

Autor

Eduardo Rius

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