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Rafael Martins: O homem que nunca se esqueceu de onde veio

Da infância com poucos recursos a CEO da Share, o empresário sempre sonhou com o futuro e, sobretudo, trabalhou para que ele acontecesse

Crédito: Rafael Martins.

As estrelas cadentes deixam rastros no céu como um farol para quem a elas recorre em uma noite de poucas nuvens e imensidão. Para Rafael Martins, pode-se dizer que o farol das estrelas é a educação. A farinha brilhante do cosmos em que suas primeiras ideias tiveram tempo e fertilidade fermentou o pão com o incentivo diário que teve dentro de casa, advindo, principalmente, da família.

A mãe Kátia, que sustentou o filho com o ofício de faxineira, junto a Paulo, o pai, que exercia trabalho braçal em transportadoras, foi a grande incentivadora para que o jovem crescido no interior de Gravataí jamais deixasse de apostar que, se o mundo seria transformado, seria pela alavanca da educação, e que, sem ingenuidade, também estudar não bastava. “Quando você nasce em lugar muito periférico e violento, você é treinado para sobreviver. Depois, começa a ser treinado para sonhar”, reflete Rafael.

A infância muito pobre no município da região metropolitana de Porto Alegre impulsionou-o a trabalhar com educação. A partir de então, construiu a própria rede de sonhos e a seguiu o treinamento rumo ao caminho desse cosmos que, futuramente, renderia uma carreira, liderança de uma empresa e participação em diversos segmentos da sociedade voltados à Tecnologia e à Comunicação. ‘Non ducor, duco’: “Não sou conduzido, conduzo”, o lema do município de São Paulo pode ser tomado como um exemplo do jovem sonhador que parecia ter contrastado com um futuro que mais puxava para trás do que para a frente. A rasteira veio, justamente, quando sobreviver já não bastava: a premissa da vida era perseguir os sonhos.

De Morungava para o mundo

Testemunhar a janela do tempo passar e a vida acontecer friamente não estava nos planos daquela expedição ao sonhar. O ensino fundamental foi concluído no bairro de residência, Morungava, indo posteriormente ao município vizinho, Cachoeirinha, para concluir o ensino médio no colégio Rodrigues Alves.

Uma oportunidade de realizar um curso de informática, à época, baseada no pacote Office e em incipientes modelos do sistema Windows, transformou-se no portal definitivo a um caminho para o qual já não havia mais volta há um tempo: o de constantemente continuar na busca por novos roteiros. E, ao lembrar-se novamente da infância, recorda dos momentos em que acompanhava a mãe a faxinar a casa de uma de suas chefes, que era professora de Língua Portuguesa. Nessas visitas, pois Kátia o levava junto por não ter com quem deixá-lo enquanto trabalhava, pôde obter mais inspiração pelo amor à Literatura. 

“Uma das minhas grandes habilidades é gostar de estudar”, diz ele, que atuou como professor convidado dos MBAs em Inteligência Artificial para Negócios Digitais, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e do de Marketing Estratégico, Gestão de Dados e Growth da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Além disso, teve uma passagem pela Universidade de Coimbra, em Portugal. Curiosamente, ele, em si, não chegou a concluir uma graduação, mas aprendeu que é jogando o jogo que se marca posição e, sobretudo, conhecimentos específicos. 

No início do caminho, contudo, apresentou outra realidade: almoçava na escola e, à tarde, trabalhava como office boy em Porto Alegre. Dos 120 reais que recebia, 80 iam para a mensalidade do primeiro curso de Informática. Se é desde pequeno que se molda a construção de uma edificação qualquer ou, mesmo, da chama onírica que se encarrega de confrontar a bruta realidade da vida, foi nisso que Rafael percebeu que precisava apoiar-se: a chance de viver é agora, e a fábrica de sonhos e de cosmos está pronta para azeitar as engrenagens. Seja em Morungava ou em Cannes, para onde se deslocaria algum tempo depois.

Que papo é esse, Rafael?

Com a tecnologia sempre presente nos afazeres do cotidiano, um convite fez com que Rafael deixasse o emprego como office boy no Rio Grande do Sul e assumisse uma vaga na Microcamp, em Campinas, no estado de São Paulo, sem deixar de lado a área da educação, com a qual já estava profundamente vinculado.

Transitando entre os mundos da tecnologia, do ensino e do e-commerce, voltou ao estado natal após um ano e meio para trabalhar no comércio virtual da Paquetá Esportes. Na sequência, o local onde viria a aprofundar-se mais em CRMs seria a Lebes, em que permaneceu como funcionário por três anos. A Cadastra também fez parte dessa seara, para onde foi logo após, aprendendo mais sobre performance, comunicação e viagens corporativas.

A veia pelo e-commerce e eventos veio forte, assim como os anos de relacionamentos com empresas já haviam rendido bons frutos. Faltava poder transportar esse ativo para o vínculo permanente desde que se reconhecia como indivíduo, a educação. Em 2013, o jovem recorria a uma visita pretensiosamente despretensiosa à sede da ESPM Sul, em Porto Alegre. O intuito seria apresentar ao então diretor da unidade, Genaro Galli, uma proposta arriscada e ousada para um – e abrem-se muitas aspas aqui -, “mero” trabalhador e entusiasta de tecnologia, realizar um evento voltado ao público acadêmico que congregasse profissionais de Comunicação e empresas do mercado. 

Mas, tal qual a casa engraçada de Vinicius de Moraes, Rafael não tinha teto, não tinha nada, apenas um sonho de realizar um evento de grande porte com recursos e infraestrutura zero. E, transportando-se para Lewis Carrol, a importância de imaginar-se num País das Maravilhas é que a possibilidade de sonhar une-se com as coragens mais impetuosas possíveis. Galli embarcou na ideia e, assim, o auditório e a infraestrutura já estavam garantidos. Acionando mais alguns contatos, além de amigos bem relacionados no mercado, a mídia tradicional também possibilitou o oferecimento de espaço para divulgação do evento. O nome da empreitada? Papo de Marketeiros.

Em dez dias, a infraestrutura do evento estava completa, e em pouco tempo, os ingressos já estavam esgotados. O sucesso foi tanto que rendeu um convite para que o evento fosse realizado fora do RS. E, assim, o embrião da Share, agência que Rafael lidera, surgiu com o propósito que jamais abandonará: o de transmitir conhecimentos e aprender. “A gente trabalha todos os dias para dar acesso à educação de qualidade a todas as pessoas”, declara.

Compartilhe conhecimento, viva ideias

Após a inauguração da sede física da Share em 2020, na avenida Independência, em Porto Alegre, a pandemia desferiu um golpe que parecia ser o de Minerva: cursos lotados e impossibilidade de encontros presenciais. O gestor, assim, mergulhou em uma maratona de como abrir e administrar startups, como investir, e o resultado foi um processo de obtenção de investidores que acreditavam no que a empresa poderia agregar ao mercado da tecnologia e da Comunicação.

“O Brasil é um país muito desigual e as pessoas são muito boas, mas não têm oportunidade”, lamenta. O propósito sempre foi claro: democratizar a educação e oportunizar que, cada vez mais, as pessoas tenham acesso ao conhecimento de uma forma digna. 

Os alcances da Share, entretanto, já não rendiam apenas fronteiras nacionais. O primeiro dos 26 eventos já cobertos em terras gringas foi a Web Summit Lisboa. Já como embaixador da plataforma Kwai, pôde participar do Festival de Cannes, na França, uma das principais vitrines mundiais em tendências midiáticas, do entretenimento e da moda. 

A construção dos sonhos de Rafael imbricava-se com a participação nesses locais outrora inalcançáveis. Porém, um preparado pela vida para sobreviver e, sobretudo, viver sonhos, sempre esteve presente. E jamais seria sem a possibilidade de reconhecer no outro experiências próprias que, juntas, simbolizam o termo “empatia” – para muito além do que a banalidade de certos algoritmos parece transparecer, mas sim, como significado concreto e genuíno do que pode acontecer.

Rafael objetivava contatar o produtor e empresário Kondzilla para uma participação no evento da Kwai. A despeito da dificuldade, a conexão que se estabeleceu ocorreu no  momento do compartilhamento das ideias e sentimentos. Dois homens crescidos nas periferias de grandes cidades brasileiras, Porto Alegre e São Paulo, respectivamente, e que conheciam o que era existir uma força destinada a destruir sonhos e a implantar desilusões implacáveis. A conexão entre ambos rendeu uma parceria sincera e repleta de significado que pôde ser transpassada ao evento, repleto de uma realidade que contrastava com a imediata materialidade do que se apresentava em questão. 

Por todos os lugares, sempre com a educação

Professor, palestrante, CEO, impactando mais de 60 mil alunos e 25 coberturas internacionais, Rafael construiu um legado que alia personalidade e conhecimento técnico e a uma faceta multitech, tendo passagem pela Band TV RS. O profissional também é mentor do FGV Ventures, aceleradora de startups da Fundação Getúlio Vargas. Somando mais de 75 mil seguidores no Instagram – pelo menos, até a conclusão deste texto, ele também é colunista em GZH, onde assina de dois a três textos semanais sobre o mundo da tecnologia. Foi convidado recentemente, também, a integrar o time de colunistas do MIT Brasil.

Voltando-se aos estudos sobre inteligência artificial, Rafael tem sido, constantemente, convocado a eventos para comentar sobre os impactos e potencialidades que a IA faz frente ao mundo high tech e à sociedade. Dividindo os momentos de lazer entre jogos do Grêmio, do qual é torcedor irremovível, o multiprofissional também gosta de experimentar novos sabores em restaurantes diferentes – frequentemente, ele conta que é a referência entre amigos quando o assunto é sobre “qual lugar comer”.

“Um cara que ama estudar, que foi transformado pela educação.” Assim ele se define, ressaltando que uma das metas para o futuro é seguir provendo educação para as pessoas da melhor e mais rápida forma. Que isso impacta a coletividade, inclusive no que diz respeito à dignidade de outrem. 

Ao mesmo tempo em que dialogar com ele evoca a bagagem que carrega, é perceptível a humanidade por trás de uma pessoa que jamais esqueceu de onde veio. Ele não tem vergonha de dizer que teve uma infância humilde e que foi isso que o impulsionou a ser uma pessoa que vai rumo aos meteoros da vida. 

Rafael não romantiza as dificuldades, mas reconhece nelas as potencialidades que criaram para nem, talvez, metade do que representa. Viva as batalhas bem batalhadas. Viva a educação, a grande impulsionadora de vida. Viva a família, o bastião absoluto. De Morungava ao mundo inteiro. Talvez o cosmos seja, realmente, pequeno para ele.

Autor

Eduardo Rius

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