Roberta Salinet: Tudo na vida são pessoas

A desejada carreira de publicitária em Recife teve uma reviravolta e a reportagem a ganhou, tornando-se sua missão

Roberta Salinet - PG Alves

Aos 16 anos de idade, Roberta Salinet já estava com a vida planejada. Um ano depois, ingressou no curso de Publicidade e Propaganda na Universidade Federal de Pernambuco - tendo como professor ninguém menos que Ariano Suassuna -, e no tempo livre surfava na Praia de Boa Viagem, onde morava com os pais, Jandir dos Santos, já falecido, e Maria Salete, e o irmão caçula Vinícius. Inspirada por Washington Olivetto, almejava ser uma publicitária de sucesso. A desejada carreira, no entanto, teve uma reviravolta e o sonho foi interrompido quando a família precisou voltar para Passo Fundo, sua cidade natal, para recomeçar a vida. E o litoral, bem como a Publicidade ficaram para trás.

Das lembranças da infância, traz consigo os discos de vinil que ganhava do pai, que, sabendo de suas preferências musicais, presenteava-lhe com Elvis Presley, Michael Jackson, The Platters, Abba e bandas de jazz. "Eu chegava em casa e ele, sem falar nada, só fazia sinal com os olhos, apontando para o toca-discos", recorda, saudosa, ao lembrar do convívio com a família, que, nota-se, tem um cantinho especial no coração de Roberta. Lembra sempre do irmão do meio, Leonardo, que faleceu ainda criança. Ele com cinco anos e ela, oito.

No que se refere à vida profissional, fala com entusiasmo de cada experiência vivida ao longo dos 25 anos que dedicou à reportagem na RBS TV, de onde se despediu em 2017 para encarar o desafio de ser assessora no Ministério Público do Rio Grande do Sul. O começo de tudo no Grupo RBS, registra, deve aos ex-colegas Márcio Paz e Tadeu Malta, que acreditaram no seu potencial e a levaram para a rádio Atlântida de Passo Fundo. "Foram meus gurus. Tenho uma dívida de gratidão e muito respeito por eles", declara. E foi assim que a Publicidade deu lugar ao Jornalismo.

Missão cumprida

Os olhos brilham quando o assunto é reportagem. "É sensacional ser repórter. Tu vives a vida das pessoas, contas a história dos outros, e, para isso, deixas de viver a tua própria vida", reflete, ao lembrar quantos aniversários da família perdeu, sem falar nas festas de Natal que passou sozinha em casa, pois estava de plantão. E o brilho se transforma em lágrimas quando conta o quanto tudo isso valeu a pena.

Situações tristes, outras muito felizes, histórias de superação, tragédias e muitos momentos marcantes, como a vez que ajudou na captura do assassino em série Adriano da Silva, em 2004, quando estava na RBS de Passo Fundo. Como resultado, foi condecorada com uma medalha de Honra ao Mérito da Brigada Militar.

Porém, outros tantos acontecimentos fizeram parte de sua trajetória e outras muitas pessoas cruzaram seu caminho. Lembra de uma vez que, indo para uma pauta, ela e o cinegrafista ajudaram a resgatar as vítimas de um acidente de carro. Anos depois, a filha da senhora que ajudou a salvar mandou uma mensagem para contar que a mãe havia falecido. "Ela me chamou para agradecer pelos 15 anos a mais que a gente tinha dado a ela", relata, visivelmente emocionada.

Por situações como estas, acredita que encerrou um ciclo e cumpriu uma missão, o que a levou a pedir demissão do Grupo RBS. "Estava cansada dos plantões e de ficar sem final de semana e abdiquei disso o tempo que pude, porque eu amava", explica e complementa: "Conseguimos manter enquanto a gente faz o que ama. Quando te dói de alguma forma, é porque está na hora de repensar".

Coração sereno

Embora recorde de muitas histórias enquanto repórter, talvez a que mais tenha marcado a sua vida foi uma passagem pessoal. A morte prematura do irmão, que era portador de Púrpura Trombocitopênica - ausência de plaquetas no sangue, o que impede a coagulação e gera hemorragia - a fez, ainda criança, rever padrões e perspectivas. Ao ver o sofrimento dos pais, decidiu ali que não teria filhos, pois "não conseguiria lidar com tamanha dor", e a escolha profissional, com sua intensidade, corroborou para a decisão. O espaço materno foi preenchido, anos mais tarde, pelo enteado Steven, filho do namorado, o médico gastroenterologista Roberto Fiolic Alvarez, com quem está em um relacionamento há dois anos. "Deus sabe o que faz. O Steven é uma criança maravilhosa", diz, ao mostrar uma foto do menino de 10 anos.    

Foi também devido ao episódio traumático que se agarrou à espiritualidade. "Me ajuda a encarar essas situações da vida e a buscar luz", afirma, ao revelar que a crença serviu, inclusive, para suportar as tristezas que encontrou na reportagem, como o caso da Boate Kiss, o qual cobriu, em 2013. Há anos, frequenta a Sociedade Beneficente Espírita Bezerra de Menezes, em Porto Alegre. "Tenho certeza de que é a única maneira de viver com equilíbrio, porque a vida é muito difícil. Acredito que estamos em um caminho de evolução", analisa e adianta que, se um dia deixar a vida de jornalista, pensa em investir em algo voltado a essa paixão.

Um quarto de século

Muitos nomes cruzaram seu caminho e fizeram a diferença. Um deles foi Raul Costa Júnior, seu chefe na época, que hoje está na SporTV. Deve a ele a bolsa da RBS que conseguiu para cursar a faculdade de Jornalismo na Universidade de Passo Fundo (UPF). E, com o segundo diploma na mão - o primeiro foi em Letras, graduação que cursou quando ainda não havia Jornalismo na UPF -, viu as portas se abrirem para a Capital.

Já estava no Interior há muitos anos e não enxergava mais possibilidades de ficar por lá, onde começou como estagiária na rádio Atlântida e migrou para a TV, veículo no qual se encontrou profissionalmente. Logo, foi transferida para a RBS de Erechim e conta que foi chamada em uma sexta-feira e, na segunda, já era apresentadora do Jornal do Almoço. Porém, três semanas no estúdio a fizeram perceber que queria mesmo era estar na rua, batendo perna na reportagem. "Deu certo! Aí fiquei realizada. Saía com o olho brilhando, as ruas, as casas, as pessoas", relembra.

Quando o pai faleceu, em meados de 2000, voltou para a casa da mãe e à vaga de repórter na RBS de Passo Fundo, a qual ocupou pelos nove anos seguintes. Novamente cansada, chegou a pedir demissão, mas o então chefe Eurico Meira, ao não aceitar, deu-lhe uma licença de três meses. Aproveitou o período para ir à África com um ex-colega de PP de Recife, que tem uma produtora. Lá, ajudou na produção de um documentário para o governo de Angola, viajando e trabalhando muito.

Ao regressar para Passo Fundo, teve certeza de que ali já não era mais o seu lugar. Ficou mais um ano até que chegou a hora da tão esperada transferência à Capital, em setembro de 2009. Atribui a paixão pela metrópole ao fato de ter crescido em uma cidade grande, por isso, não queria ficar no Interior. "Amo Porto Alegre com todos os problemas que ela tem. Não saio daqui nem se tiver que vender churros na Praça da Alfândega", brinca.

Na companhia de quem faz bem

Sempre gostou de ficar na companhia da família e, hoje, aos 46 anos de idade, nada mudou. Além de Roberto e Steven - que se divide entre a casa do pai e da mãe -, compartilha os cômodos do apartamento no bairro Mont' Serrat com a gata Benin. "Ela merece um capítulo especial na minha vida", resume, ao falar da vira-latas que resgatou dos arredores da RBS TV, há nove anos. O felino, portador de uma doença autoimune e que toma remédio para pressão alta, divide, inclusive, o travesseiro com a jornalista. "Gosto muito de animais. Eles são nossos irmãos menores e só nos trazem coisas boas", declara.

Na calmaria do lar, gosta de tranquilidade e coisas simples. E, em seguida, confessa que não sintoniza em TV aberta, optando sempre por programa de culinária, séries, documentário, e filme sobre Jornalismo ou História. 'O paciente inglês', 'O informante' e 'Repórteres de guerra' estão na sua lista de preferidos, assim como 'The Unabomber', além de tudo o que é relacionado à França. Outra curiosidade é que, em casa, o casal tem mais de 10 mil exemplares raros de quadrinhos. "O Roberto é fã número um. Ele gosta tanto, que eu assisto também, mas fico perguntando sobre tudo", revela, aos risos.

Os dois gostam de sair para experimentar novas opções de gastronomia. Confeitaria francesa, por suas origens, está no topo da lista, ao lado de creme brulê, doce pelo qual tem verdadeira paixão. Entre tantas preferências, destaca os pratos da avó, da mãe e da sogra, Erika. "O melhor restaurante da cidade é a casa da mãe do Roberto", alerta. Aprecia, ainda, aventurar-se na cozinha e diz que tenta fazer de tudo, baseando-se nos programas culinários.

O resto é perfumaria

Quando pequena, queria ser arqueóloga, porém, logo mudou o sonho, dando lugar ao desejo de ser frentista de posto de gasolina. O motivo: morava ao lado de um desses estabelecimentos, em Carazinho, e adorava ficar olhando o movimento no local. "Achava que ficar lavando o vidro era maravilhoso. Tanto é que minha mãe comprou um rodo para mim e eu lavava as janelas de casa", conta, ao dizer que sempre foi fascinada por pessoas e admira o trabalho de todas as profissões.

Sensibilizada, conta que busca olhar para todos com compaixão e respeito. "Tu estás comendo em um restaurante e tem um garçom te servindo. Quando estás na rua, tem um policial de plantão trabalhando para a tua segurança. Há profissões que, aos olhos de alguns, são menores, mas não são. Não nos cabe julgar, pois ninguém sabe a batalha do outro", sentencia. Pensando nisso, faz trabalho voluntário com egressos da Fase, na comunidade espírita e na AACD, como mestre de cerimônias.

Define-se como uma pessoa tentando ser a melhor possível para si, porque só estando bem consigo mesma, acredita que pode refletir isso nos outros. "Estou em constante aprendizado. Sou um espírito em processo de evolução. Longe de ser perfeita, mas muito melhor do que ontem", avalia, e conclui: "No dia que a gente partir, não leva celular, casa, carro, roupas, joias, amores, nem aquela reunião que tinha planejado. A gente só leva a consciência tranquila e o coração sereno, pois o que importa são as pessoas. O resto é perfumaria".

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