Perfil

Simone Feltes: Somente a verdade

Da infância com cheiro de goiaba às premiações fundamentadas pelo bom Jornalismo, profissional reflete sobre os mais de 20 anos como repórter

Crédito: Fábio Mariot.

“Eu só vou usar o seu corpinho, não vou me casar.” A declaração categórica, disparada por uma adolescente de 16 anos, decidida a desbravar o mundo, estudar e morar fora do Brasil e manter a independência custe o que custasse, parecia decretar o destino de um namoro iniciado em tablado de CTG. Três décadas e dois filhos depois, o destinatário daquele aviso continua sendo o parceiro de vida de Simone Feltes.

O desassombro daquela fala juvenil não foi um blefe isolado: é, na verdade, a essência de uma mulher que avisa, logo na primeira troca de olhares, não possuir filtros, disfarces ou meias-verdades. “Se eu tenho algo para te dizer, irei fazer com respeito e para o bem”, avisa a jornalista, revelando que a transparência é ressaltada pelo filho, que sempre que pode indica que a principal característica da mãe é não mentir.

Esta autenticidade transborda na forma como gerencia o próprio cotidiano, uma engrenagem que exige precisão cirúrgica de malabarista. Quando o marido viaja a trabalho, a rotina ganha contornos de maratona: é preciso coordenar os horários escolares dos filhos, Kauê e Gaia, as aulas de inglês, os treinos esportivos e os compromissos da catequese, tudo isso sem permitir que o ritmo do telejornalismo diário perca o fôlego. Recusando qualquer rótulo de super-heroína moderna, a repórter credita o sucesso dos dias à rede de apoio que mantém no Vale do Sinos, onde pais e cunhados dividem as missões logísticas.

Diálogos ao volante

Antes que os primeiros operários comecem a movimentar as calçadas de Campo Bom, os faróis do carro já iluminam a estrada em direção a Porto Alegre. O trajeto diário de pouco mais de uma hora pela BR-116 é o confessionário particular da motorista. 

Diferentemente da maioria, que busca distrações musicais para aplacar o tédio do trânsito, a jornalista prefere o silêncio preenchido pelas análises profundas das rádios de notícias locais ou pelos programas de grandes reportagens da BBC. É nesse isolamento asfáltico que ocorrem as reflexões mais sinceras da jornada. “Eu sou uma pessoa que nunca desliza. Eu planejo muito e sou a rainha da lista. A minha alegria é um check”, diverte-se, ao descrever a dinâmica mental.

O recolhimento do automóvel funciona como um espaço de autoconhecimento e ajustes de rota, onde cobranças e planejamentos se misturam sem intermediários. “Eu me dou muito bem comigo, então converso bastante nesse movimento. Xingo-me e tenho até DR comigo no carro”, confessa, dando risada. Essa mania de externalizar os pensamentos em voz alta carrega uma antiga memória profissional, quando um chefe americano na indústria calçadista observou o hábito e profetizou que pessoas que conversam sozinhas costumam acumular grande sabedoria e prosperidade.

Quintal de memórias

A solidez desta personalidade sem artifícios foi forjada no solo firme de Campo Bom, onde Simone nasceu em agosto de 1977. Filha de um operário aposentado natural de Parobé e de uma dona de casa nascida em São Francisco de Paula, cresceu testemunhando a dedicação de pais que se conheceram trabalhando em uma fábrica calçadista. 

Do pai, homem que traz nos calos das mãos o orgulho do trabalho bruto e que hoje encontra paz cultivando feijão, aipim e pitayas no quintal, herdou o respeito absoluto pelo esforço. Da mãe, guardou o exemplo do acolhimento e o incentivo permanente à leitura.

A infância foi dividida com as irmãs, Gisele e Juliana, em uma rotina típica de bairro de cidade pequena, regada a brincadeiras de rua. Como filha mais velha, Simone exibia temperamento mais maduro e observador, enquanto as mais novas testavam os limites da criatividade comercial da família. 

Uma das lembranças mais vívidas daquele tempo envolve um pé de goiaba amarela imensa que crescia nos fundos da residência. Cansadas da tarefa diária de recolher os frutos caídos, as caçulas subiram na árvore para colher frutas do topo e montaram uma banca improvisada na beira da estrada na hora da saída das fábricas, anunciando a venda das frutas. Flagradas pela mãe, que proibiu o comércio na calçada, mudaram a estratégia sem perder o foco: viraram o cartaz e escreveram ‘Dá-se goiaba’.

O convívio social também passava pelas fileiras do tradicionalismo gaúcho. Ativa nas invernadas artísticas de CTG, Simone defendeu o pavilhão local com orgulho e chegou a conquistar o título de terceira prenda mirim do Rio Grande do Sul. Daquela época de bailes e tertúlias familiares, guarda a lembrança de um sinal doméstico inconfundível: quando o fim da festa se aproximava, o pai se posicionava na porta do salão e soltava um assobio potente que cortava o som da gaita. “Nós corríamos até ele, porque era hora de ir pra casa”, recorda com nostalgia.

Ofício da escuta

Embora o início da trajetória profissional tenha ocorrido nas salas do setor de exportação da Phoenix Footwear, onde o domínio da língua inglesa garantia estabilidade, o chamado das palavras impressas e das imagens em movimento acabou falando mais alto. Após abandonar o curso de Comércio Exterior, Simone ingressou no curso de Jornalismo da Unisinos. A formatura, obtida na passagem entre dois milênios, permitiu à estudante experimentar a transição das redações analógicas e o nascimento da era digital.

A estreia nos estúdios ocorreu na TV Unisinos, vitrine que abriu as portas para a contratação na TV Câmara de Porto Alegre, sob a produção da Lumiere. Foi ali que a repórter iniciante encontrou mentoras fundamentais como Marjana Vargas, que ofereceu conselhos valiosos para a construção da identidade profissional da jovem. Em março de 2006, Simone ingressou na TVE, dando início à trajetória que recentemente completou duas décadas.

Para ela, a missão da comunicação estatal vai muito além do simples relato dos fatos cotidianos; trata-se de construir pontes de cidadania. Mesmo diante das crises financeiras e dos longos embates jurídicos que envolvem o destino da fundação há 10 anos, o corpo de servidores manteve um pacto de excelência profissional. “As minhas matérias são as minhas ilhas de contribuição para o mundo”, define a jornalista, sintetizando o orgulho de assinar reportagens focadas nos direitos humanos, na cultura regional e na memória coletiva do povo gaúcho.

Marcas de bastidores

Viver o dia a dia da reportagem televisiva significa colecionar episódios em que o imprevisto testa os limites do profissionalismo. Simone lembra, aos risos, do dia em que foi mordida por um macaco em uma reportagem. Durante a produção do documentário especial ‘O Conto do Bugio’, a equipe alterou involuntariamente a rotina de alimentação dos animais em um criadouro conservacionista. Uma macaca, irritada com o atraso de cinco horas para o almoço, escapou do recinto. 

Ao tentar intervir, quebrando a própria regra de segurança que anunciaria na reportagem, Simone recebeu uma mordida violenta no braço. O episódio gerou uma dolorosa rotina de vacinas antirrábicas e uma das piadas internas mais duradouras da emissora. “O meu cinegrafista nem balançou a câmera, tinha a imagem gravada. E o meu colega montador fazia assim: ah, a macaca mordeu a Simone… coitada da macaca”, relata, rindo da ironia.

O rigor técnico e a entrega emocional renderam à profissional uma galeria respeitável de troféus, incluindo primeiros lugares no Prêmio Vega de Jornalismo Ambiental, em 2007, e no prestigiado Prêmio ARI de Jornalismo, em 2009, pelo trabalho no Hospital São Pedro. Recebeu também o reconhecimento do Prêmio Ministério Público pelas denúncias sobre a situação das internas do CASEF. 

Em 2025, a sensibilidade da repórter foi coroada com o primeiro lugar no Prêmio Themis de Jornalismo do Tribunal de Justiça, com reportagem profunda sobre a Vara do Júri especializada em feminicídio. Simone confessa que a imersão nos projetos costuma ser tão intensa que os insights textuais surgem frequentemente durante o sono: “Eu sonhava e conversava com o Brizola durante o programa dos 60 anos da Legalidade”.

Voz das águas

Nenhum prêmio ou cobertura jornalística anterior, contudo, preparou o espírito da repórter para a tragédia climática que assolou o território gaúcho. Simone estava em Porto Alegre no dia em que as comportas falharam e as águas tomaram o Centro Histórico da capital dos gaúchos. 

Conseguiu deixar a cidade nos últimos instantes de tráfego liberado, graças às mensagens de alerta emitidas por Alessandro Castro, assessor da Polícia Rodoviária Federal. Isolada do lado oposto do rio, na Região Metropolitana, e impossibilitada de acessar as instalações físicas da TVE, a jornalista recusou-se a cruzar os braços. “Eu liguei pra chefia e disse: eu tenho todos os equipamentos aqui, eu faço tudo sozinha, eu vou fazer daqui”, relembra.

O que se seguiu foi uma jornada extenuante de mais de 14 horas diárias de trabalho solitário. Carregando microfone, cabos e telefone celular, a repórter assumiu a cobertura integral dos vales do Sinos e do Paranhana. Foi nesse cenário de desolação que uma nova parceria profissional nasceu dentro de casa: o pai aposentado ofereceu-se para ser o assistente de câmera da primogênita. 

Sob tempestades severas e diante de bairros completamente submersos, ele segurava os equipamentos com precisão para garantir que os boletins da filha ganhassem as telas locais e a rede nacional da TV Brasil.

A experiência de passar horas ouvindo famílias desabrigadas em alojamentos que abrigavam milhares de pessoas em Novo Hamburgo solidificou a visão de Simone sobre a perenidade do ofício. “Hoje em dia, todo mundo faz, todo mundo pega uma câmera e grava. Mas quando uma coisa séria acontece, é num veículo que as pessoas vão buscar informação”, pondera com convicção.

Próximas janelas

Aproximando-se da marca dos 50 anos de idade, Simone projeta o amanhã com desapego das velhas estruturas e entusiasmo pelas novas linguagens virtuais. Sabe que o ciclo físico das grandes caminhadas de rua está próximo do fim e descarta a transição para o confinamento dos estúdios tradicionais. 

A energia criativa agora se volta para a consolidação de projetos como freelancer no mercado corporativo, ensinando empreendedores locais a dominarem as técnicas de vídeo e roteiro. “O trabalho é muito mais no sentido de instrumentalizar as pessoas, para que elas saibam como fazer. É muito bacana ver a evolução delas”, avalia.

Nas conversas com estudantes em feiras de profissões em colégios e universidades da região, a veterana faz questão de manter a costumeira transparência, despindo a carreira de qualquer glamour artificial. “Eu pergunto sempre: é pra falar a verdade? Eu falo a verdade, né? O Jornalismo é uma cachaça, né? Parece que tem gente que gosta demais, mas trabalha no final de semana e ganha pouco”, afirma, sem rodeios.

Gremista de coração e apreciadora do handebol que praticava na juventude, ela prefere ancorar a existência na filosofia prática de fazer o bem. Quando o ruído do mundo exterior parece excessivo, encontra refúgio nas estrofes de Renato Russo na canção ‘Quando o sol bater na janela do seu quarto’, lembrando que, apesar das desumanidades cotidianas, o sol ainda nasce para todos aqueles que mantêm os olhos abertos para enxergar.

Autor

Ilana Xavier

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