Perfil

Simone Lazzari: entre o silêncio e o ao vivo

No comando do Bom Dia Rio Grande há mais de 10 anos, a jornalista construiu uma trajetória marcada pela curiosidade

Há lugares em que algumas pessoas não precisam se apresentar. Simone Lazzari é uma delas. A entrevista deste perfil foi realizada no café do Bourbon Teresópolis. Assim que nos sentamos, ela comentou que morava perto dali. Perguntei se costumava ir àquele supermercado. “Não”, respondeu. Os pais dela têm um supermercado: Lazzari. 

Naquela região de Porto Alegre, o sobrenome carrega uma história que começou muito antes de a voz de Simone chegar às casas dos gaúchos todas as manhãs. Pouco depois, um senhor passou pela nossa mesa e a cumprimentou. Pensei que a tivesse reconhecido da televisão. Não. Ele perguntou pelos pais. Ali, ela era “apenas” a filha dos Lazzari.

No off

A televisão ainda não havia entrado naquela conversa. Não havia ‘Bom Dia Rio Grande’, bancada, câmera, maquiagem ou duas horas e meia de jornal ao vivo. Havia apenas Simone, a filha de um casal que saiu da Serra gaúcha para empreender na Capital, e que trabalha desde cedo no comércio do bairro. A menina cresceu brincando no depósito do supermercado, convivendo com uma família enorme, andando de bicicleta, indo para Xangri-Lá, no litoral norte gaúcho, com os primos e observando os pais trabalharem de segunda a sábado, nos três turnos.

Mais tarde, durante a entrevista, uma senhora se aproximou. Disse que assistia Simone todos os dias. Já aposentada, continuava acordando às 6h para acompanhar ela e o colega de bancada, Josmar Leite. “Vocês são os apresentadores mais queridos da TV”, elogiou a fã. Duas pessoas, duas formas de reconhecê-la. Para uma, Simone é a filha de Simão e Terezinha Lazzari, irmã de Eduardo. Para outra, é a que aparece na televisão todas as manhãs. E entre esses dois reconhecimentos existe uma vida inteira.

Antes da televisão

Simone nasceu em 27 de novembro e cresceu cercada de gente. A mãe tem 11 irmãos; o pai, sete. São tios, primos e histórias suficientes para preencher muitas infâncias. Alguns primos, ela conta, são considerados irmãos. A família, grande, também se encontrava no supermercado.

“Eu era bem mais quietinha”, lembra. Gostava de ler e mais ainda de assistir televisão. Brincava de apresentar programas de rádio com o irmão, usando um gravador. Nas férias, inventava programas de TV com as primas. Imitavam o ‘Globo de Ouro’. Brincavam de apresentar telejornais. A área de atuação, portanto, não chegou exatamente de repente. Só que Simone demoraria a perceber isso.

Antes do Jornalismo, cogitou Fisioterapia e até ser professora de Matemática. A última possibilidade parece fazer algum sentido quando ela diz se incomodar com um estereótipo que considera ultrapassado: o de que jornalista não seria alguém das exatas. “Eu fico um pouco braba com jornalista que quer perpetuar essa ideia de que não somos bons com números. A gente precisa lidar com estatística, com dados. Tem que ter responsabilidade com isso.”

E não foi preciso mais de duas horas de conversa para saber que Simone é muito comprometida e responsável. Ela gosta de resolver problemas. Gosta de entender. Gosta de explicar. E gosta, principalmente, de ler. Foi no segundo grau que apareceu uma pista mais clara. Em uma atividade de Literatura, a professora pediu que os alunos lessem um livro e, a partir de um trecho, escrevessem uma reportagem como se estivessem vivendo naquele período da história.

Na obra ‘O Quatrilho’, de José Clemente Pozenato, a história, ambientada em uma comunidade de imigração italiana, tinha algo familiar. Havia ali a memória de uma cultura que também atravessava sua família. Ela escreveu sobre o dia em que a comunidade descobriu que um homem e uma mulher haviam fugido juntos, deixando para trás os respectivos companheiros. 

Era fofoca, claro. Mas não apenas. Naquela pequena comunidade, duas pessoas que desapareciam tinham impacto sobre todos. A vida de um interferia na vida do outro. O particular também era coletivo. O exercício ficou na memória de Simone porque, naquele momento, ela começou a compreender que o jornalista registra a história enquanto ela acontece. Talvez fosse essa a profissão que estava procurando.

A flecha

Aos 16 anos, quando precisou fazer a inscrição para o vestibular, ainda não tinha certeza. Pensou em colocar Letras como segunda opção. Acabou se inscrevendo para Jornalismo na Ufrgs e na PUCRS. Passou nas duas, e, em 1998, escolheu a federal. Na universidade, descobriu que queria fazer rádio. Não foi exatamente uma descoberta: era algo que já estava ali, escondido nas brincadeiras de infância. 

Foi voluntária na emissora da Universidade e depois ganhou uma bolsa de extensão para fazer o programa ‘Conheça a Ufrgs’, percorrendo a instituição para falar sobre os restaurantes universitários, prédios históricos, cursos e diferentes espaços da instituição. Enquanto isso, levava currículos para onde aparecesse uma possibilidade.

Um dia, na Bandeirantes, a recepcionista que já conhecia seu rosto avisou que o responsável pelo RH estava por ali. Depois, um colega que trabalhava na TV disse que estava saindo e que talvez ela pudesse ocupar a vaga. Foi assim que Simone entrou na televisão, inicialmente para fazer arquivo e teleprompter. A ideia, naquele momento, ainda era o rádio. Mas a televisão tinha outros planos pra ela.

Lygia Tricot, então coordenadora de Jornalismo da TV, percebeu alguma coisa nela e a convidou para fazer pilotos. Simone havia feito curso de radialista e tinha registro profissional, então, começou a experimentar a frente das câmeras. Ficou um ano e meio ali. Depois, veio o concurso público que a levaria para a TVE. 

O caminho até a RBS TV ainda teria algumas curvas. A trajetória de Simone passou ainda pela TVCOM e por diferentes funções e programas. Apresentou jornais, fez previsão do tempo, cobriu eleições, ancorou transmissões ao vivo, esteve em eventos, na Assembleia Legislativa, no aeroporto diante da tragédia do acidente da TAM, em 2007, e em tantas outras situações em que a televisão precisa reportar enquanto o mundo acontece. A cobertura da Operação Rodin. O incêndio da boate Kiss. A pandemia. A enchente de 2024. Algumas pautas ficam porque são notícia, outras porque deixam marcas em quem estava ali.

Bom dia

Desde 2014, Simone tem o mesmo compromisso com o relógio. Em dezembro daquele ano, o ‘Bom Dia Rio Grande’ passou por grande transformação, ganhando mais tempo e ela assumindo a apresentação ao lado de Josmar – hoje, são duas horas e meia de Jornalismo ao vivo. Ela chega à redação às 4h, como mora perto da emissora, conta com o “luxo” de acordar 3h40. “Se não apertar a soneca”, revela, rindo.

Antes de dormir, o que ocorre por volta das 21h, toma banho, deixa o café da manhã e a roupa preparados, tudo organizado para levar ao trabalho. Às 4h, começa o expediente. Às 6h, o jornal entra no ar, e até 8h30, não existe espaço para distração.

Trânsito, previsão do tempo, roteiro, maquiagem, roupa, links, entrevistas, imprevistos. “É muita coisa para prestar atenção ao mesmo tempo.” O ao vivo exige uma espécie de hipervigilância. Pode faltar um entrevistado, um link pode não funcionar, uma transmissão pode estourar o tempo, um acontecimento pode mudar completamente a ordem do jornal.

E, enquanto tudo isso acontece, Simone e Josmar precisam parecer tranquilos. Talvez por isso a senhora do café tenha dito que eles são os apresentadores mais queridos da televisão. Existe uma intimidade construída todos os dias, mas que, na verdade, começou quando ambos trabalharam na TVE. Uma relação que não depende apenas da bancada.

Ela é, hoje, a apresentadora que mais tempo permaneceu à frente do ‘Bom Dia Rio Grande’ nos 43 anos de história do telejornal. Mas o horário cobra seu preço. Depois do jornal, a equipe se reúne para discutir a edição do dia e, às 10h, tem reunião de pauta para o dia seguinte. Depois, chamadas, figurino, outras reuniões, compromissos.

O almoço, quando dá, pode ser na casa dos pais, mas na maioria das vezes é feito no restaurante da RBS. Depois, Simone volta para casa e dorme uma hora, às vezes mais. Ainda reserva quatro dias por semana para ter atividade física. O quinto fica para resolver a vida: dentista, amigas, compromissos pessoais como um todo. Depois de 11 anos e meio, encontrou uma fórmula que funciona para ela.

O que não vai ao ar

Existe uma Simone que o público conhece. E existe outra que quase ninguém vê. Ela gosta de cozinhar. Aprendeu olhando a mãe, que ainda hoje prepara o almoço para a família. Gosta de massas. Gosta de música brasileira, rock e MPB. Gosta de filmes e séries, de novelas, de biografias. E gosta de silêncio. Muito!  Depois de passar a manhã inteira em uma redação cheia de pessoas, telas, estímulos e notícias, ela chega em casa e, às vezes, desliga tudo. “Eu fico em silêncio mesmo.”

Talvez seja também por isso que é tão discreta. Simone não publica a vida pessoal nas redes sociais. Pergunta muito, mas não gosta de falar de si. Ela sabe que existe curiosidade em torno de quem aparece na televisão, mas prefere preservar o que é seu. Não é uma estratégia criada depois da fama. É uma característica que, segundo ela, sempre esteve ali.

Inspiração que fica

Entre as pessoas que ajudaram a construir essa trajetória estão nomes como Carlos Bastos, Lygia Tricot, a professora Sandra de Deus e Mariana Pessin, que foi sua editora-chefe nos últimos anos e, segundo Simone, uma das pessoas que mais a ajudaram a enxergar possibilidades que ela própria não via. Sobre Bastos, fala com carinho. Foi um chefe com quem se sentia à vontade para conversar, perguntar, ouvir histórias. Anos depois, já trabalhando na TVCOM e na RBS, encontrou-o em frente à Assembleia Legislativa. Ele a viu, atravessou o calor da rua e foi até ela para dar um abraço. São essas lembranças que ficam.

Simone acredita que o Jornalismo registra a história enquanto ela acontece. Talvez seja justamente por isso que também goste tanto de ouvir. No supermercado dos pais, aprendeu cedo que as pessoas chegam para comprar pão, banana, carne ou qualquer outra coisa, mas também chegam para conversar. Contam uma história. E dali, muitas vezes, nasceu uma pauta.

Antes de ser a apresentadora que aparece todas as manhãs para milhares de pessoas, Simone foi a menina que observava os adultos no supermercado. A que brincava de rádio com o irmão. A que lia os livros da biblioteca. A que escolheu transformar uma história de O Quatrilho em reportagem. A que carregava currículo debaixo do braço. “Eu sou otimista na vida. Vou tentar, tentar e tentar.” E fará isso carregando seu pequeno mantra: vai dar certo.

Ela não ignora os riscos, pelo contrário, gosta de ter um plano B, mas prefere olhar o lado bom. Hoje, aos 45 anos, Simone diz estar realizada, feliz com o trabalho, em compartilhar a casa e a vida com o também jornalista Daniel Favero. Sem grandes planos para depois de outubro, porque até lá existe uma eleição para cobrir e, depois, as férias para aproveitar. O futuro pode esperar um pouco. A vida de Simone sempre parece ter sido assim: uma coisa de cada vez.

Autor

Márcia Dihl

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