Wellington Machado acorda cedo. Não é o despertador que dita o ritmo, mas uma disciplina que parece tatuada na rotina. Às sete da manhã, enquanto Porto Alegre ainda ensaia os primeiros movimentos do seu caos habitual, ele já está na academia. Ali, no esforço repetitivo do treino, o diretor comercial e de Marketing da Record Guaíba organiza as ideias para o dia que se inicia. É um hábito herdado dos tempos de atleta, quando o mundo se resumia ao retângulo verde do campo e a vida era regrada por horários de treino e metas de desempenho. Se o treino falha, confessa, o restante da jornada parece fora de esquadro. É o seu ritual de passagem: do homem que cuida de si para o executivo que cuida de uma das engrenagens mais potentes da comunicação gaúcha.
Quem o vê hoje, articulando estratégias omnichannel ou discutindo faturamento, talvez não imagine o ‘Etinho’ de Sarapuí. O apelido carinhoso, dado por uma tia que tropeçava na pronúncia do nome Wellington, ainda é a senha de entrada para a sua essência. Natural do interior de São Paulo, ele é o resultado de uma mistura que define muito da postura atual: a ciência do pai bioquímico e o tino comercial da mãe empreendedora. Wellington cresceu em um ambiente onde o serviço ao próximo não era uma escolha, mas a regra da casa.
O palco da farmácia
Sarapuí, cidade de pouco mais de 10 mil habitantes, foi o seu primeiro laboratório social. O pai, além de bioquímico, era o “médico informal” da localidade e acabou entrando para a política por um clamor popular. Para que Wellington pudesse sair para jogar futebol, o acordo era claro: precisava cumprir duas horas de plantão na farmácia da família. Entre o cheiro de álcool e as prateleiras de medicamentos, o menino observava o pai atender a todos com a mesma dedicação. Ali, ele entendeu que atender alguém é, antes de tudo, uma forma de acolhimento. A farmácia era o palco onde se encenavam as dores e as esperanças da cidade, e Wellington, do alto de sua juventude, absorvia cada nuance do comportamento humano.
Uma memória de infância brilha com intensidade especial: a festa de seus três anos. Em vez de uma recepção fechada para poucos convidados, o pai abriu os portões e convidou a cidade inteira, priorizando os mais humildes. O simbolismo daquele gesto – conhecido por Wellington através de uma fotografia em que está rodeado de crianças e por uma mesa farta para quem muitas vezes não tinha o básico – plantou nele a semente da simplicidade. “Luxo é ser simples”, define o executivo, ecoando os ensinamentos do avô, um homem que sempre teve as finanças estáveis, mas que nunca permitiu que o patrimônio falasse mais alto que a humanidade. Casa de família, para ele, sempre foi casa do povo.
A carreira de jogador de futebol parecia um destino selado. Wellington era um jovem de vida regrada, focado e com a certeza de que brilharia no São Paulo Futebol Clube, o time do coração. Aos 17 anos, contudo, o destino aplicou um drible inesperado. O rompimento do ligamento do joelho encerrou o sonho antes mesmo do apito inicial da fase profissional. O mundo desabou. Foram meses de tentativas, de dor física e emocional, até que a ficha caiu: o gramado não seria mais o seu escritório. O teste vocacional apontou para a Comunicação e Wellington, com a mesma garra que usava nas chuteiras, mergulhou na Faculdade de Sorocaba.
A travessia gaúcha
A chegada ao Rio Grande do Sul, em 2013, foi um ato de coragem e busca por identidade. Wellington já atuava em agências em Campinas e Sorocaba, mas sentia que precisava provar a si mesmo que era capaz de construir uma trajetória longe do guarda-chuva familiar. Em um momento de oração, pediu um sinal sobre qual caminho trilhar. A resposta veio na forma de uma oportunidade de MBA na ESPM e, o que seria apenas um período de estudo, virou uma oportunidade na Record TV, num cargo de assistente de planejamento comercial em solo gaúcho. Ele desembarcou em Porto Alegre ganhando metade do que recebia em São Paulo, mas com uma fome de aprendizado que superava qualquer perda financeira imediata.
O choque cultural foi imediato e fascinante. Wellington percebeu que o mercado gaúcho é um ecossistema único, movido por um amor visceral às raízes. “Aqui é diferente de todos os lugares”, analisa. Ele notou que, enquanto em outros estados a identidade é mais fluida, no Sul existe um orgulho quase americano pela bandeira e pelo hino. Entendeu, também, que a confiança do gaúcho não se ganha no primeiro aperto de mão. É preciso tempo, entrega e, principalmente, verdade. “Demoram mais para confiar, ficam ressabiados, mas depois que te conhecem, tiram a roupa do corpo para te servir se for preciso”, relata com a propriedade de quem hoje se considera mais gaúcho do que paulista.
Estratégia e humanidade
Assumir a diretoria comercial e de Marketing da Record Guaíba é o ápice de um processo natural de amadurecimento dentro da emissora. Wellington traz consigo uma visão estratégica que recusa a superficialidade. Para ele, a barreira entre o ‘on’ e o ‘off’ é uma ilusão que precisa ser derrubada no dia a dia. Em um mundo onde as pessoas estão constantemente em multitelas, a entrega comercial precisa ser tão fluida quanto o consumo de conteúdo.
O seu método de trabalho é baseado na pergunta, não na afirmação. “Eu não saio falando o que tenho, eu pergunto o que as marcas precisam”, explica. Essa postura de escuta ativa é o que garante assertividade maior nas ações de mídia. Wellington acredita que o papel de um executivo moderno é ser um facilitador, um arquiteto de soluções que entende as dores do cliente para vender o produto certo, no momento certo.
Na gestão, ele é um defensor do exemplo. Wellington acredita que o respeito deve ser adquirido, nunca imposto pelo cargo. A filosofia de liderança foge da lógica da revolução industrial, onde o colaborador era visto como uma engrenagem fria. “O ser humano não é uma inteligência artificial”, pondera, lembrando que o tom da voz e a empatia fazem toda a diferença na hora de liderar. Ele é o tipo de gestor que não peca pela omissão. Prefere errar pela atitude, pelo excesso de vontade de realizar, do que pelo conforto da inércia.
Afetos e cicatrizes
Fora do escritório, Wellington encontra seu porto seguro na família e na noiva, Tayara. Conheceram-se em Porto Alegre durante o período desafiador da pandemia. Ela, natural de Cerro Largo, é descrita por ele como o seu equilíbrio, alguém que traz a leveza e humanidade necessárias para os dias de alta pressão. O pedido de casamento, selado sob o cenário romântico de Paris, é uma das memórias que ele guarda com mais carinho, embora brinque que a pergunta que mais ouve hoje em dia é: “Quando vai ser o casamento?”.
Viajar é o maior hobby e o investimento que considera o mais valioso da vida. Wellington tem alma de mochileiro; antes de se comprometer, costumava viajar sozinho, abrindo-se para novas culturas e formas de ver o mundo. Essa abertura para o desconhecido é o que nutre sua criatividade e capacidade de adaptação. Hoje, os destinos são compartilhados, e o refúgio em Gramado, na Serra Gaúcha, é o local preferido para recarregar as baterias, sempre acompanhado de um bom fondue ou do indispensável churrasco.
Mas nem todo o percurso foi feito de vitórias. Wellington carrega cicatrizes que exibe com a dignidade de quem aprendeu com elas. A perda da avó paterna é uma ferida que ainda pulsa, mas que ele transforma em gratidão. Ele recorda com carinho da primeira vez que ela andou de avião, sentada ao seu lado. A tristeza da partida é, para ele, compensada pela alegria de saber que pôde honrar em vida quem tanto amou. “Amadurecer é viver com suas cicatrizes e dores, mantendo o nível e o respeito pela vida do outro”, reflete.
Horizonte da próxima década
Aos 40 anos, Wellington Machado é um homem movido por propósito. Ele não guarda ódio no coração; acredita que o ressentimento é um peso desnecessário para quem quer caminhar longe. Se não pode ajudar alguém, garante que jamais atrapalhará. No entanto, avisa com a honestidade de um ariano: “Penso muito para entrar em uma briga, mas entro para ganhar”. É essa intensidade que o faz sair da emissora às duas da manhã se for preciso para garantir uma entrega impecável, embora admita que o equilíbrio entre a razão e a emoção ainda seja um campo de batalha constante na evolução pessoal.
Quando questionado sobre o que o Wellington de hoje diria para o de daqui a dez anos, a resposta não passa por cargos ou metas de faturamento. Ele fala sobre a construção de uma família, sobre entender o legado que deixou para quem ama e sobre o que fez de diferente para contribuir para um mundo melhor. Acredita na lei da semeadura: no Rio Grande do Sul ou em qualquer outro lugar, colhemos exatamente o que plantamos.
O cotidiano de Wellington é um exercício de harmonia entre contrastes: ele cruza o portão de casa sob a serenidade de um louvor e retorna, ao fim da jornada, no ritmo vibrante do pagode. Esse equilíbrio se estende aos momentos de pausa, onde as leituras de Augusto Cury dividem espaço com as maratonas de séries policiais ao lado da noiva. Há, inclusive, um ritual de motivação quase sagrado: assistir a um episódio de ‘Suits’ antes do expediente, extraindo da ficção o fôlego necessário para reger a realidade do mercado.
Para o ‘Etinho’, que outrora projetava o futuro nos gramados e hoje desenha estratégias de comunicação, o ‘sim’ de um cliente satisfeito carrega a mesma euforia de um grito de gol. Wellington sabe, como poucos, que o jogo só termina com o apito final, mas entende que o verdadeiro legado – feito de respeito e humanidade – é o que permanece ecoando quando as luzes do estádio, ou do escritório, finalmente se apagam.


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