























Há empresas que aparecem constantemente nos noticiários. Outras preferem os bastidores. Instalado em uma casa discreta em Pelotas e com atuação também em Porto Alegre, o Instituto Pesquisa de Opinião (IPO) pertence ao segundo grupo. Enquanto a movimentação da equipe transcorre entre indicadores, diagnósticos e análises de comportamento, pesquisas conduzidas pelo instituto ajudam a orientar decisões de empresas, entidades, universidades e órgãos públicos em diferentes regiões do Brasil.
Ao entrar na sede pelotense, chama atenção o clima colaborativo. Não há salas imponentes nem hierarquias excessivamente rígidas. O modelo é horizontal, baseado na troca de conhecimento e na confiança construída ao longo dos anos.
Ciência a serviço do mercado
A história começa na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Filha do meio rural, Elis Radmann encontrou na pesquisa um caminho profissional durante a graduação em Ciências Sociais. Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), participou de levantamentos e estudos quando a democracia brasileira ainda dava seus primeiros passos, após o período de redemocratização.
Na época, boa parte da produção científica permanecia restrita às universidades, enquanto o mercado pouco compreendia o potencial das pesquisas sociais. Foi justamente nessa lacuna que surgiu a ideia do IPO. “Universidade e mercado praticamente não conversavam. O IPO nasceu para levar a ciência para o mercado”, recorda Elis, que também é, há mais de uma década, colunista do portal Coletiva.net.
A empresa foi formalizada em maio de 1996 e, antes mesmo de concluir a documentação, já fechava seu primeiro contrato: uma pesquisa para a Prefeitura de Pelotas sobre a utilização de capina química. Dois anos depois, o instituto expandiu sua atuação para Porto Alegre. Nesse período, uma personagem fundamental passou a integrar a trajetória da empresa: a socióloga Gisele Miura. “Embarquei em um sonho inicial da Elis e passei a sonhar junto”, sorri, ao relembrar.
Recém-formadas, jovens, mulheres e vindas do Interior, as duas enfrentaram resistências para conquistar espaço em um mercado dominado por grandes institutos nacionais. “Tínhamos conhecimento, método e convicção. Isso nos dava segurança para ocupar espaços”, ressalta Gisele. A parceria ajudou a consolidar o posicionamento que acompanha o IPO até hoje: compreender comportamentos antes de simplesmente medir opiniões.
Mais do que números
Enquanto outros institutos concentravam esforços na quantificação de dados, o IPO buscava compreender os motivos por trás das decisões das pessoas. E a lógica continua sendo a mesma.
Consumidores, eleitores, profissionais, lideranças, cidadãos. Todos podem assumir diferentes papéis ao longo da vida. Entender esses comportamentos é parte do trabalho desenvolvido pela equipe. “Não estudamos apenas a febre. Buscamos compreender o que está causando a febre”, compara Gisele Miura.
Por isso, sociólogos, cientistas políticos, comunicadores, profissionais de relações internacionais, administradores e especialistas de diferentes áreas convivem na mesma estrutura. O resultado é uma equipe multidisciplinar, que atua em projetos espalhados pelo País.
“O IPO me formou como profissional e como cientista social”, afirma Gisele Rodrigues, que iniciou sua trajetória na empresa em 2003. Segundo ela, a construção do conhecimento acontece diariamente. “A Elis se tornou uma grande inspiração de vida, de resiliência e de profissional comprometida e ética em tudo o que faz”, destaca.
Uma empresa construída por pessoas
Ao caminhar pela sede, percebe-se rapidamente que longevidade é uma palavra importante dentro do IPO. Há colaboradores com mais de 20 anos de trajetória. Recentemente contratado, Thales Lange, 22 anos, é recém-formado e representa uma nova geração que começa a assumir responsabilidades em projetos estratégicos.
Aline Menegoni, supervisora de pesquisa, soma 26 anos de empresa. Débora Mello, socióloga, analista sênior de pesquisa, 13. Douglas Saraiva, jornalista e sociólogo, analista de pesquisa, um dos mais jovens da equipe, completou recentemente oito anos de casa. Segundo os profissionais, o que explica essa permanência é a combinação entre autonomia, respeito e propósito.”Todos aqui são comprometidos com valores que muitas vezes não são mensuráveis”, resume Aline.
Outro nome importante nessa construção é Martinho Orso. Sócio do Instituto desde 2002 e marido de Elis, ele fortaleceu áreas como gestão, finanças, jurídico e recursos humanos, ajudando a estruturar o crescimento da empresa sem alterar sua essência. “Para que tudo aconteça, a retaguarda precisa ser muito forte”, observa Elis.
A cultura construída ao longo dos anos também se reflete nas relações com parceiros. Há fornecedores, escritórios e empresas que acompanham o IPO há décadas. “O dado é ouro”, costuma repetir a equipe ao falar sobre ética, confidencialidade e confiança.
A essência do IPO
Ao longo de quase 30 anos, o instituto acompanhou transformações profundas da sociedade brasileira. Participou de estudos sobre racismo, comportamento político, responsabilidade social, consumo consciente, direitos humanos, reputação institucional e tendências sociais. Quando o mercado começou a discutir ESG, os pesquisadores já observavam mudanças relacionadas ao tema. Quando novas demandas surgem, a equipe busca compreender o comportamento que está por trás delas.
Hoje, o IPO atua para organizações públicas e privadas em diferentes regiões do País. Mas continua preservando a mesma ideia que deu origem à empresa em Pelotas. “A tecnologia é uma ferramenta. A inteligência humana continua sendo o diferencial”, frisa Elis. Talvez seja justamente por isso que as corujas continuem crescendo na estante da sala da fundadora. Assim como elas, o IPO construiu sua história observando, escutando e tentando compreender aquilo que move as pessoas.
Na linha de frente da Ciência
Em 2020, quando a orientação era permanecer em casa e o medo diante de um vírus ainda pouco conhecido dominava o cotidiano, a equipe do IPO recebeu uma missão inédita. Em parceria com universidades gaúchas, o instituto integrou o Epicovid, estudo que se tornaria uma das maiores pesquisas epidemiológicas já realizadas no Brasil.
Para que o levantamento acontecesse, pesquisadores e entrevistadores deixaram suas casas, mudaram temporariamente de cidade e passaram a percorrer bairros, ruas e residências em diferentes regiões do Rio Grande do Sul. Enquanto a maior parte da população buscava proteção no isolamento, eles estavam em campo, coletando informações e realizando testagens que ajudariam a compreender o avanço da doença.
O trabalho exigiu coragem, disciplina e um profundo compromisso com a ciência. Ao lado das universidades, a equipe participou da testagem de cerca de 55 mil pessoas e ajudou a identificar os primeiros casos de Covid-19 no Estado. Foram meses de incertezas, protocolos rigorosos e exposição a riscos que ainda não podiam ser totalmente dimensionados.
Para os profissionais do IPO, porém, havia a convicção de que aquele esforço coletivo produziria conhecimento capaz de salvar vidas. Mais do que uma pesquisa, o Epicovid se transformou em um dos capítulos mais marcantes da trajetória do instituto e em um exemplo de como a ciência depende, também, da dedicação e da bravura de quem está disposto a ir a campo quando o mundo inteiro para.
Sabedoria como presente
A coleção de corujas nasceu dos presentes recebidos ao longo da carreira. Clientes, colegas, parceiros e amigos passaram a associar a cientista política ao animal símbolo da sabedoria e da observação. Com o passar dos anos, as peças se multiplicaram tanto que algumas permanecem guardadas em caixas, à espera de espaço.
As corujas parecem representar muito da essência do IPO. Afinal, ouvir, observar e interpretar comportamentos humanos é justamente o que move o instituto desde sua fundação, em 1996. Em um ambiente onde números ganham significado a partir da análise das pessoas, elas funcionam quase como guardiãs silenciosas da história construída pela empresa.

