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É justamente nesse ritmo que a Rádio UPF construiu sua identidade. Ao longo do dia, músicas, entrevistas, boletins, transmissões esportivas e notícias se alternam com leveza, sem que um conteúdo pareça interromper o outro. Em programas como o ‘Café Expresso’, a informação ganha ainda mais espaço nas primeiras horas da manhã e ao meio-dia. Já no ‘Dose Dupla’, duas músicas consecutivas do mesmo artista dividem espaço com notícias rápidas, prestação de serviço e atualizações do dia.
O relógio nunca para
Enquanto Gerson apresenta uma música do U2, Zulmara Colussi finaliza uma entrevista por telefone. Assim que a canção termina, ela entra no estúdio para atualizar o ouvinte sobre uma decisão importante ou um serviço que impacta a comunidade. Poucos instantes depois, outra música começa a tocar. O rádio segue seu fluxo, quase como uma conversa entre colegas que conhecem exatamente o tempo da fala um do outro.
Quem chega pela primeira vez à Rádio UPF talvez imagine encontrar uma emissora voltada à formação de estudantes. Afinal, ela está instalada dentro da Universidade de Passo Fundo. A impressão dura pouco. Logo fica claro que a rotina é conduzida por jornalistas, locutores, operadores, produtores e técnicos que fazem da rádio uma emissora profissional, conectada diariamente com milhares de ouvintes da região.
“Um veículo de comunicação não pode ser júnior. Ele pode formar profissionais, receber estagiários, mas precisa ser feito por quem conhece o ofício”, resume Gerson Pont, gestor de Conteúdo e apresentador da Rádio UPF. É essa experiência que permite à equipe alternar informação e entretenimento sem perder a essência do rádio: fazer companhia.
Uma rádio que aprendeu a ouvir
Depois de anos atuando em outras emissoras, Gerson percebeu que o comportamento do público havia mudado. Os jovens que cresceram ouvindo rádios como Atlântida, Mix e Pop Rock já não encontravam mais aquele formato. Ao mesmo tempo, o envelhecimento da população impulsionava o crescimento das chamadas rádios adulto-contemporâneas em diferentes partes do mundo.
“Quem hoje tem 30 ou 35 anos ficou órfão da rádio que ouvia. O gosto musical mudou, e o rádio precisava acompanhar esse movimento”, comenta. A confirmação veio durante uma viagem a São Paulo. Dentro de um táxi, o motorista alternava constantemente entre duas emissoras: uma para ouvir música, outra para acompanhar as notícias.
A cena despertou uma pergunta simples: por que obrigar o ouvinte a trocar de estação? Foi essa inquietação que, em 2015, marcou uma nova fase da Rádio UPF. “A grande sacada foi justamente fazer uma rádio musical ter notícia junto. Mas não de qualquer jeito. Existe um ritmo, um tempo certo para a informação entrar”, explica Gerson. E deste sintonizar surge o atual slogan da Rádio UPF. ‘Feita à mão’.
Hoje, música, Jornalismo e prestação de serviço convivem naturalmente na programação diária, reforçando uma tendência que pesquisas recentes da Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e Televisão (Agert) também apontam: o gaúcho quer ouvir música, notícia e esporte.
Muito além do campus
Embora esteja localizada dentro de uma universidade, a Rádio UPF conversa com um público muito maior do que a comunidade acadêmica. Com potência de 30 kW, a emissora alcança 66 municípios, cobrindo boa parte da região Norte do Rio Grande do Sul. O sinal acompanha quem percorre as principais rodovias da região, chegando com qualidade a cidades vizinhas e fazendo da rádio companhia para quem está em casa, no trabalho ou na estrada.
A universidade, claro, faz parte dessa história. Professores e pesquisadores aparecem frequentemente como fontes para entrevistas e análises, aproximando o conhecimento acadêmico da comunidade. Mas a programação não se limita ao campus, ela é pensada para todos.
Entre uma pauta e um pedaço de bolo
Nem só de cronômetros vive uma rádio. Entre um programa e outro, quando o estúdio finalmente desacelera por alguns minutos, a equipe dá poucos passos e alcança a copa. O café e o chá estão sempre por perto. Assim como os bolos da dona Irene, responsável pelo espaço.
Na visita para produção deste ‘Por Dentro’, a receita do dia era o bolo de bergamota, casualmente, um dos preferidos da equipe. É nesse pequeno intervalo que jornalistas, apresentadores e produtores comentam as pautas do dia, riem de alguma situação inesperada antes de voltar ao ar.
Credibilidade também se constrói nos bastidores
Ser uma rádio educativa impõe limites comerciais. A Rádio UPF, por exemplo, não trabalha com anúncios baseados em promoções, preços ou ofertas, modelo bastante comum no varejo. Em vez de enxergar essa característica como uma limitação, a emissora decidiu transformá-la em estratégia.
O diretor comercial Marco Torres conta que o caminho foi buscar segmentos que valorizassem uma comunicação mais institucional e de longo prazo, como saúde, construção civil, tecnologia, inovação e prestação de serviços.
A mudança de foco permitiu construir relações mais duradouras com anunciantes e agências de Publicidade. Segundo ele, alguns parceiros comerciais acompanham a emissora há cerca de oito anos, resultado de um trabalho baseado em planejamento e proximidade. “São segmentos que precisam de uma comunicação contínua. Isso nos permite desenvolver projetos de longo prazo e construir uma relação muito próxima com os clientes.”
Notícia de última hora
No rádio, o planejamento existe, mas basta uma notícia de grande impacto para que toda a programação seja redesenhada em poucos minutos. Foi exatamente isso que aconteceu em 29 de novembro de 2016, quando o avião que transportava a delegação da Chapecoense caiu nas proximidades de Medellín, na Colômbia.
Jornalista há quatro décadas, Zulmara Colussi lembra daquela manhã como um dos momentos mais marcantes da carreira. “Eu e o Gerson chegamos bem cedo e já havia a informação de que tinha acontecido um acidente, mas ainda havia poucas confirmações. Derrubamos todo o roteiro do programa. Na época, ainda existia o Twitter, e começamos a buscar informações em fontes internacionais. Conseguimos trazer notícias em primeira mão, antes mesmo de grandes veículos nacionais. O programa inteiro acabou sendo dedicado à cobertura daquele acidente.”
A experiência reforçou para ela uma das maiores virtudes do rádio: a capacidade de reagir rapidamente aos acontecimentos sem perder a proximidade com quem está do outro lado. “O rádio é um veículo muito dinâmico. Ninguém supera ele. Acompanha as pessoas durante o dia, cria companhia e estabelece uma relação muito próxima com o ouvinte. A gente percebe isso no retorno que recebe todos os dias.”
A moradora mais independente da rádio
Há um momento da visita em que as notícias, as músicas e os cronômetros dão lugar a uma cena inesperada. Ao visitar o estúdio onde são gravados os podcasts, encontramos Tuti. Concentrada, olhar atento enquanto busca a companhia do sol. Não, ela não é jornalista, mas pode-se dizer que ela faz parte da equipe: é uma gata branca com manchas pretas.
O apresentador Jader Oliveira interrompe a conversa para apresentá-la. “A Tuti tem uma origem em uma clínica veterinária, onde está a tutora oficial dela. Só que ela fugia de lá e vinha para a rádio. Acabou adotando a emissora como uma segunda casa. Hoje, em alguns dias, ela fica conosco e, em outros, volta para o lar de origem.”
A história provoca sorrisos imediatos. É Tuti, mas podia ser uma Maria, um João ou qualquer outra pessoa que parece entender tão bem quanto qualquer profissional da rádio o que significa estar em sintonia com aquele lugar. Porque, antes de reinventar sua programação, a Rádio UPF fez algo essencial para quem vive de comunicação: aprendeu a ouvir.

