



















Pouco antes do meio-dia, a redação da Record Guaíba está em movimento, trabalhando a todo vapor. Enquanto o ‘Balanço Geral’ vai ao ar, apresentado por Samuel Vettori, repórteres, produtores, editores e demais profissionais acompanham o que acontece dentro e fora do estúdio. O ritmo é característico de uma redação de televisão: a notícia chega, muda, ganha novos desdobramentos e precisa estar pronta para o próximo bloco.
Foi nesse ambiente que o Coletiva.net conheceu, por dentro, a operação da emissora em Porto Alegre. Mais do que acompanhar a rotina de um telejornal ao vivo, a visita revelou uma redação que procura conciliar a velocidade do hard news com projetos que exigem tempo, planejamento e aprofundamento, além de pensar o conteúdo para além da tela da televisão.
Uma redação em movimento
À frente do Jornalismo da Record Guaíba está Guilherme Kepler, gerente de Jornalismo, que acompanha uma estrutura formada por diferentes profissionais e frentes de produção. São 16 repórteres, sendo 11 na estrutura principal e outros cinco que atuam como “repórteres-abelha” em diferentes regiões do Estado: Gramado, Passo Fundo, Pelotas e Novo Hamburgo.
O modelo permite que os jornalistas trabalhem de maneira mais independente, utilizando principalmente o celular e equipamentos como gimbals para realizar entradas ao vivo e produzir conteúdo. A tecnologia, nesse caso, aparece não apenas como ferramenta, mas como uma maneira de ampliar a presença da emissora no Rio Grande do Sul.
O ao vivo ocupa espaço importante nessa operação. Segundo Kepler, cerca de 75% do trabalho dos repórteres está relacionado a links. Em um mesmo dia, o Balanço Geral pode reunir três ou quatro entradas ao vivo — em algumas ocasiões, até seis. A dinâmica exige que a equipe esteja preparada para mudar de rota rapidamente, de acordo com os acontecimentos.
A reportagem que cabe no celular
A tecnologia também transformou a maneira como a emissora mantém sua presença fora de Porto Alegre. Os chamados “repórteres-abelha” atuam sozinhos, utilizando o celular para captação e transmissão. O modelo, segundo Kepler, permite manter uma estrutura regional sem os custos de uma operação tradicional.
Para isso, os profissionais recebem treinamento específico. Além dos recursos técnicos, aprendem a movimentação necessária para trabalhar com os equipamentos e fazer com que uma estrutura enxuta consiga entregar conteúdo com qualidade.
A lógica também se relaciona à presença da Record Guaíba em diferentes plataformas. Uma reportagem que entra no ar não precisa necessariamente terminar ali. O material pode ser desdobrado para o YouTube, Instagram e portal R7, além de ganhar novos formatos posteriormente. É o que Kepler chama de uma espécie de “cauda longa” da notícia: o conteúdo produzido para um determinado horário continua circulando e pode ganhar novos desdobramentos depois que deixa a programação.
Quando a pauta ganha tempo
Se o hard news exige velocidade, a Record Guaíba também mantém uma frente dedicada justamente ao movimento contrário: deixar a notícia respirar. Criado há cerca de um ano inicialmente como Núcleo Investigativo, o projeto passou a ser chamado de Núcleo de Especiais quando a equipe percebeu que o trabalho não se limitava necessariamente à investigação. A proposta é trabalhar pautas que possam ser mais bem construídas, roteirizadas e aprofundadas.
Integram o núcleo os jornalistas Carla Seabra, editora de texto, Renato Gava e o repórter Ricardo Azeredo, que trabalham em uma sala reservada, separada da redação. Durante a visita do Coletiva.net, Gava estava envolvido em uma pauta externa. Azeredo e Carla conversaram com a reportagem sobre o trabalho desenvolvido pela equipe.
O primeiro projeto nasceu a partir de uma pesquisa interna do Ministério Público e resultou em uma série sobre as facções em Porto Alegre. O material mostrou o caminho que o núcleo pretendia seguir: partir de assuntos relevantes, mas que precisam de mais tempo de produção do que aquele disponível na rotina diária do Jornalismo.
Não existe um prazo fixo para concluir uma reportagem especial. A equipe permanece integrada à redação e também participa de outras demandas, como a cobertura do projeto de eleições ou a substituição de colegas em períodos de férias. Tampouco há uma divisão rígida de funções entre os três jornalistas. Todos podem participar das diferentes etapas, da definição da pauta à captação e à edição.
A escolha dos temas é feita em conjunto, inclusive com Kepler. Depois vêm a pré-produção, a pesquisa, a roteirização e a captação. Todo o processo de edição também passa pela equipe.
A relação com o hard news é constante. O núcleo pode partir de um assunto que surgiu na cobertura diária e transformá-lo em uma produção mais aprofundada. No caminho inverso, uma série especial também pode gerar versões mais curtas para os telejornais. É uma espécie de retroalimentação entre as duas frentes.
As produções encontram espaço no ‘Balanço Geral’, que, por ter a maior duração da grade, com 4h de programa, permite a exibição desses conteúdos, e também no YouTube. O primeiro episódio do projeto alcançou cerca de 500 mil visualizações na plataforma, resultado que, segundo os profissionais, ajudou a estimular a continuidade da iniciativa.
No dia em que a entrevista foi concedida, duas novas séries já estavam prontas: uma sobre violência e abuso infantil e outra sobre as estradas do Rio Grande do Sul. A experiência profissional da equipe também ajuda a explicar o modo de trabalhar. Azeredo e Carla acumulam décadas de Jornalismo e brincam que são os “dinossauros” da emissora.
A notícia não termina quando sai do ar
Esta lógica de prolongar a vida das reportagens também aparece na rotina do restante da redação. Para Kepler, um VT exibido às 13h ou às 18h não precisa “morrer” depois de sua exibição.
O mesmo conteúdo pode ser adaptado para diferentes plataformas, aprofundado em outro momento ou complementado com a entrevista completa que, na televisão, precisou ser reduzida a poucos segundos. A ideia é aproveitar melhor o material produzido e permitir que o público tenha acesso a diferentes camadas da informação.
O movimento também aponta para uma televisão cada vez menos restrita ao aparelho de TV. QR Codes e recursos que direcionam o público para conteúdos complementares são vistos como possibilidades para ampliar essa experiência.
IA em ação
A transformação tecnológica também chegou ao processo de produção jornalística. Na Record, a ferramenta chamada Rita, desenvolvida em São Paulo e disseminada para as emissoras, auxilia principalmente na transcrição e em etapas do fluxo de produção. A tecnologia, porém, não elimina a participação do jornalista.
Depois que a ferramenta realiza seu trabalho, cabe ao profissional revisar, editar, acrescentar informações e tomar as decisões editoriais. Até mesmo a escolha do título pode ser modificada.
A inteligência artificial aparece, assim, como apoio à rotina, e não como substituição da equipe. Entre as possibilidades futuras estão recursos que possam auxiliar na elaboração de tarjas e na identificação de frases de maior impacto para a apresentação dos conteúdos.
Uma emissora, diferentes públicos
Outro desafio da televisão atual está em entender quem está do outro lado da tela em cada horário. O público que acompanha a programação pela manhã não necessariamente é o mesmo que assiste aos telejornais da tarde ou da noite.
A programação precisa considerar essas diferenças. Pela manhã, há maior espaço para informação e serviço. Ao longo do dia, podem entrar conteúdos mais produzidos, links mais longos e assuntos relacionados a outros interesses do público.
A mesma lógica vale para a escolha dos formatos. Em uma televisão que disputa atenção com redes sociais, YouTube e outras plataformas, compreender o comportamento do público se tornou parte da própria construção da notícia.
Um nome que carrega uma história
A mudança do nome para Record Guaíba também faz parte desse movimento de aproximação com o público gaúcho. A ideia, segundo Kepler, é valorizar a história da televisão e reforçar a identificação com o Estado.
Mas o nome, sozinho, não resolve essa relação. A aproximação passa pelo conteúdo produzido localmente, pela presença dos profissionais nas diferentes regiões e pela capacidade de falar com públicos distintos.
A emissora está próxima de completar duas décadas de atuação no Rio Grande do Sul. Para Wellington Machado, diretor comercial e de Marketing, é como se tivesse deixado a infância para entrar na adolescência e, agora, estivesse caminhando em direção à juventude.
Do passado ao futuro
Entre uma redação que reúne profissionais com décadas de experiência e uma operação cada vez mais apoiada em celulares, inteligência artificial e plataformas digitais, a Record Guaíba vive um momento de transição.
A televisão continua tendo o ao vivo como uma de suas principais forças, mas já não se limita a ele. A reportagem pode nascer de uma pauta do dia, ganhar uma versão para o telejornal, transformar-se em especial, seguir para o YouTube e continuar circulando nas redes.
É nesse movimento entre urgência e profundidade, televisão e internet, experiência e novas ferramentas que se desenha a rotina da Record Guaíba. Uma redação em que a notícia precisa estar pronta para entrar no ar, mas também pode ganhar novas formas depois que o programa termina.

