Desejos proibidos

Por Eliziário Goulart Rocha O filme Desejos Proibidos (If the Walls Could Talk 2), produzido pela HBO em 2000, reúne três histórias sobre lésbicas …

Por Eliziário Goulart Rocha
O filme Desejos Proibidos (If the Walls Could Talk 2), produzido pela HBO em 2000, reúne três histórias sobre lésbicas passadas na mesma casa em épocas diferentes. Na primeira, no início dos anos 60, a personagem interpretada por Vanessa Redgrave perde a companheira com a qual viveu por 50 anos (Marian Seldes) e tem de enfrentar a desconsideração da equipe médica e dos herdeiros, para os quais ela era apenas uma amiga. Na segunda, passada no começo dos 70, quatro garotas são excluídas pelas colegas de escola por serem homossexuais. Uma delas (Michelle Williams), mesmo contra a opinião das companheiras, se apaixona por uma menina excessivamente masculinizada (Chloë Sevigny). Na seqüência de 2000, duas parceiras (Sharon Stone e Ellen DeGeneres) decidem ter um filho e recorrem a um banco de esperma. O primeiro episódio é o mais comovente. Depois de partilhar a vida com seu grande amor, uma mulher perde tudo que construíram juntas, pois não tinha nada em seu nome, e sequer pode visitar a companheira no leito de morte.
Quando a televisão interrompeu várias vezes a programação para anunciar a internação, e depois a morte da roqueira Cássia Eller, induziu o telespectador desavidado a imaginar que a considerava personagem de primeira linha da música brasileira e que, portanto, ela receberia um privilegiado bloco no noticiário mais importante do país. O tamanho da cobertura decepcionou. Houve boletins posteriores, tratando das providências funerárias, mas o obituário em si foi excessivamente curto. A pergunta é inevitável: se Cássia não fosse lésbica, e se não tivesse morrido de overdose, o espaço seria o mesmo?
A Cazuza, cujos heróis haviam morrido de overdose, e cujos inimigos estavam no poder, foi concedida generosa fatia nas programações das emissoras, mas seria absurdo demais menosprezar um dos maiores poetas da música brasileira em todos os tempos, o menino travesso, homossexual e drogado, sim, mas genial, talentoso à enésima potência, não, ninguém poderia fingir que ele era menos do que isso. A Cássia, cujo ingresso definitivo na galeria de estrelas populares da música nacional era coisa recente, e estava longe de ser um Cazuza, na verdade todos o estão, mas fazia um trabalho competente havia muitos anos, foi destinado o tempo que seria dado a um congestionamento de volta do feriadão. O enterro, claro, foi bem explorado, a biografia não.
Quem tentou se socorrer da MTV, acreditando na obviedade de encontrar lá um especial de Cássia, que nada, achou a programação normal, o especial sobre ela só entrou no dia seguinte. Letargia de feriado, provavelmente. Deixa-se tudo gravado, ou impresso, se dispensa a equipe e não se estabelece um esquema de emergência. Na hora em que o telespectador mais espera de um canal segmentado, nada. Se entrou algo, foi curto e breve, só quem não trocou de canal por horas encontrou.
Se falhou na hora, ainda dá para correr atrás. Imagino que os fãs de Cássia, e telespectadores, ouvintes e leitores em geral, querem saber exatamente por que a companheira de duas décadas e o filho da cantora não compareceram ao enterro. O papo de "perderam o vôo" é esfarrapado demais. Daria uma bela "matéria humana", como se diz nas redações, contar o drama dos que além de perder a pessoa mais importante de suas vidas, talvez ainda sejam forçados a abrir mão do que construíram juntos, depois de amargar a impossibilidade de um adeus. Fatos lamentavelmente comuns em relação a casais homossexuais. Pode não ser nada disso, mas, então, que contem a verdadeira história. A posição da família oficial, querendo desqualificar a overdose para stress, talvez seja uma pista de que pode ser mesmo tudo isso.
Dedicado a Eunice Jacques (in memorian)
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