Não me mande flores

Por Lara Piccoli, para Coletiva.net

Discutir a liderança feminina no mercado de trabalho e, sobretudo, na gestão das empresas de Comunicação, passa por tentar refletir um pouco sobre o tema sem a lente restrita do rótulo. Mais do que defender ou lembrar o feminismo, numa semana em que temos um dia só 'nosso', gostaria de convidar a pensar um pouco sobre o feminino e a diversidade.

Quando olhamos as estatísticas vemos que ainda há, sim, a necessidade de existir o 'Dia Internacional da Mulher'. Porque ainda precisamos refletir sobre a falta de mulheres nos cargos de gestão (apenas 37% dos cargos de chefia nas empresas é ocupada por elas e, no topo, estão apenas 10%). Mesmo ocupando o mesmo cargo, em média, eles ganham 67% mais do que elas, segundo a revista Veja desta semana. Não quero, aqui, ficar apontando comparações e levantando estatísticas, simplesmente reivindicando a igualdade plena e preenchendo cotas. Mas o fato é que ainda somos minoria quando falamos de poder. Também é fato que não há razão nenhuma para esta expressiva diferença salarial quando há bases iguais. Nestes casos, fica evidente o preconceito e o estágio em que estamos numa evolução em movimento, mas que precisa ser acelerada. Porque em muitas indústrias e setores já não somos mais a minoria da presença. Mas seguimos sendo a minoria nos ambientes de decisão. E esses casos são os mais icônicos da necessidade de mudança.

A questão é mais complexa e não é apenas numérica. Estas estatísticas refletem o que construímos como grupo. Somos uma sociedade. Nós, homens e mulheres, vivemos um período no passado recente em que o arquétipo do guerreiro foi o 'escolhido' para representar o tipo de liderança que estávamos dispostos a ter, na vida e nas empresas. A força era importante. E tudo o mais que era ligado ao sensível, ao frágil, era abominado. As mulheres foram parte disto, inclusive porque educaram seus filhos, muitos deles os mesmos que fizeram eu e você nos sentirmos mal em alguma reunião, por sermos minoria, por sermos diferentes ao ambiente.

Hoje, num mundo em rede, há uma nova ordem social: a descentralização. Não somos mais uma pirâmide, mas um círculo. E novas habilidades estão se mostrando mais adequadas nas empresas, como a empatia, a sensibilidade, a cooperação, a intuição, a multiplicidade. Independentemente do sexo masculino ou feminino, a liderança que for capaz de lidar com as diferenças e construir vínculos será o modelo contemporâneo, aderente e representativo das novas gerações e ambientes empresariais. Eu quase escrevi aqui que são características mais femininas. E quase cometi o erro que cometemos milhares de vezes em nossas vidas: separar o mundo entre homens e mulheres.

Primeiro, porque hoje essa separação de gênero não dá mais conta da representação social. Precisamos evoluir desse pensamento dual e considerar a diversidade. Não como gênero, apenas, mas como forma de pensar. Nossa incapacidade de ler o todo faz com que tenhamos que fragmentar esse todo. Mas no fundo, estamos é aprendendo a digerir essa diversidade. Assim, a causa das mulheres é apenas mais uma frente a tantas outras que nós, como seres humanos, precisamos refletir. E a transformação passa pela educação. Será que você, que reclama que ganha menos do que seu colega homem, já pensou em como você pode ajudar a educar uma criança a aceitar a diversidade? Nós precisamos do todo na luta da 'parte'. Nós precisamos dos homens nessa luta. E precisamos honrar na prática uma visão mais equilibrada e coerente do feminino. Tendo o sexo, a idade, a raça, o cargo e o papel que tivermos.  

Feminismo foi a palavra de 2017 escolhida pelo dicionário americano Webster e a busca pelo termo cresceu 200% no Google desde 2016. Porque a igualdade precisa deixar de ser discurso politicamente correto para virar comportamento. E as próprias mulheres precisam se sentir confortáveis de denunciar um crime sem o sentimento de culpa, sem acharem que serão constrangidas ou apontadas na rua quando falarem e denunciarem um assédio.

E ter mais mulheres em cargos de direção e gestão das empresas, ou no poder público, não é um caso de 'preenchimento de cotas', mas de entendermos que a falta delas também comunica: é, no fundo, a falta do entendimento da diversidade. O reconhecimento e o aval de que há a predominância de apenas um padrão, em detrimento da diversidade e isso é a base para o definhamento de um grupo, pois é no contato com o outro que passamos a tolerar a diferença. Que evoluímos. Que questionamos as nossas próprias crenças. E se há algum sentido em existir um Dia Internacional da Mulher é esse. Por isso, não me mande flores. Mas me olhe, me entenda, me escute, me reconheça e, sobretudo, me aceite como alguém diferente de você.

Lara Piccoli é publicitária e sócia-diretora da Morya.

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