Lugar da mulher também é na política

Por Elis Radmann

Os deputados federais eleitos por todos os Estados compõem a Câmara dos Deputados. A Câmara tem o papel de representar o povo brasileiro (homens e mulheres), fazer ou revisar leis de interesse nacional e fiscalizar o trabalho do Presidente da República, em especial, no que diz respeito à aplicação dos recursos públicos.

O número de mulheres na Câmara dos Deputados cresceu 51%, passando de 51 deputadas para 77. O aumento é significativo, mas as mulheres ainda representam a minoria (apenas 15% da Câmara), e o instigante é que as mulheres representam 52,5% da população brasileira.

Durante o processo eleitoral de 2018, debateu-se o espaço destinado às mulheres na política e os empecilhos para um melhor desempenho eleitoral das mulheres.

Em primeiro lugar, há fatores históricos e culturais que sempre mantiveram a mulher longe da política. Atualmente, o percentual de mulheres "formadoras de opinião" é bem menor do que os homens. O indicador é medido pela declaração sobre o "hábito de conversar sobre política" e pelo "interesse pelo tema". Então, se há um menor interesse pelo tema, menor será o esforço das mulheres para conquistar um espaço neste meio. Para que esta cultura seja alterada são necessários o conhecimento e o estímulo à participação política. Esse é um tema cultural que deve envolver homens e mulheres desde a infância, no seio familiar, perpassando a educação formal nas escolas.

Em segundo lugar, é importante ter claro que política é muito mais do que gênero, política é vocação. É uma questão de ethos. Para ocupar espaço na política, a mulher precisa gostar da vida partidária, construir-se como liderança, fazer rede de relacionamento, ter propósito, disputar cargos eletivos e fazer as pessoas acreditarem nesse propósito. A mulher precisa participar da política para além da exigência de cotas, precisa se envolver com o debate e a deliberação de temas que dizem respeito a toda sociedade.

Em terceiro lugar, não adianta a mulher pedir voto para outras mulheres com argumento de gênero: dizer "que mulher deve votar em mulher". Para a mulher ser bem-sucedida neste campo, precisa compreender os códigos e atuar dentro deles.

Em quarto lugar, observa-se que a carreira da mulher na política, como em todas as outras, é um processo de trabalho e construção de uma carreira. Como em qualquer área, para se ter credibilidade é preciso tempo, dedicação, conhecimento e de capacidade discursiva. É um espaço que as mulheres terão que trilhar com paciência e dedicação. As mulheres que foram eleitas são aquelas que já tinham uma formação na política e/ou que participam de nichos, representando segmentos sociais.

A participação da mulher na política precisa ser orgânica. Precisa ocorrer de forma natural, começando pelo maior envolvimento das mulheres em ONGs, diretórios acadêmicos, associações de bairro até chegar aos partidos políticos. As cotas são um instrumento de participação institucional que precisa ser superado por uma participação espontânea que ocorre com educação e cultura política.

Temos que rever nosso processo de educação política desde o ensino fundamental e superar a visão negativa que a sociedade tem da política. Temos que quebrar o estigma de que a política não presta!

Antes de tudo, o debate sobre a importância da política precisa entrar para dentro das nossas casas, para dentro da escola e para o nosso local de trabalho. A política decide o que podemos ou não fazer, o que é certo ou errado.

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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