Notícias de mercado da comunicação do RS.

Home Colunas O que há entre Lula e Al Capone?

O que há entre Lula e Al Capone?

Compartilhar
,

Há um leitor que deixou um comentário a uma coluna minha, onde eu falo da dignidade de certos criminosos no cinema e as atitudes grotescas e covardes de inúmeros próceres brasileiros. Ele se chama Augusto Sousa, nome tão anônimo como José da Silva ou Joe Smith. Sim, eu acho isso um problema. Se você não é ninguém, pode dizer as piores barbaridades sem passar vergonha na frente dos vizinhos. Pode inclusive dizer a si mesmo que não é burro ou canalha, porque, se fosse conhecido, não teria dito exatamente o que disse e como disse. Nada como o anonimato ou xingamentos no trânsito para desabafos.

Pelo tom de Augusto Sousa, dá para pensar que ele se considera uma pessoa ponderada – não escreve em caixa alta, não usa três ou quatro exclamações no fim de cada frase e abusa dos adjetivos apenas até certo ponto. Sua contenção é a de quem jura que tem argumentos mortais. Mas, ao fazer a ponte entre Al Capone e Lula, deixa-se levar pelo espetacular. Podemos vê-lo diante do espelho, o queixo levantado ao estilo moriano ou mussoliniano: espelho, espelho meu, há alguém mais sagaz que eu?

Como não tenho nada melhor para fazer neste feriado, nem tenho ideia para próxima coluna, vamos ver, então, o índice de mortalidade dos argumentos de Sousa. Argumentos? Infelizmente estamos mais uma vez no terreno do não tenho provas, mas tenho convicção. É no que dá essas cognições sumárias. Cá para nós, cognição sumária é atirar antes e perguntar depois. Mas se a polícia federal faz isso, se promotores fazem isso, se juízes fazem isso, o que pode se esperar de um leitor anônimo?

‘Al Capone ainda é considerado o maior criminoso da história americana”, afirma Augusto Sousa. Por quem? Al Capone não é maior que ‘Lucky’ Luciano ou “Bugsy” Siegel ou Meyer Lansky ou tantos outros. Ele apenas foi mais popular, além de autor de pelo menos duas frases certeiras: “O capitalismo é a raquete da classe dominante” e “Não entendo quem escolhe o caminho do crime, quando há tantas maneiras legais de ser desonesto”. Como se vê, Capone não era trouxa. O que me admira é que um bandido como Capone possa ser mais perspicaz sobre o que se passa nos Esteites do que muito analista político e econômico (vide o caso dos banqueiros que quebraram o mundo em 2008).

Tenho a impressão de que o cinema gosta tanto de Capone porque ele pode ser vendido como prova de que o sistema americano funciona. Mas funciona? Alguns anos de cadeia por sonegação pagam as mortes que ele ordenou? A polícia não teve competência para provar que ele era um assassino. Mais, alguém tem notícia do que aconteceu com as dezenas e dezenas de policiais, juízes e políticos subornados por Capone? Essa gente é menos culpada que Capone? Sem essa gente os Capones da vida prosperam? O cinema nos vende uma América muito bonitinha e recatada. É preciso ser um idiota chapado para acreditar nela.

Deixando de lado os gângsteres, pensemos em criminosos mais audazes e mais bem situados na vida. Quando o presidente Henry S. Truman assumiu, a Alemanha já tinha se rendido. O Japão, segundo analistas, resistiria talvez por mais um ano. Era hora de convocar os diplomatas, não? Era evidente que o Japão não tinha mais chances. Mas Truman ordenou o lançamento das duas bombas atômicas e deu uma festa para comemorar o bom funcionamento delas. Morreram, apenas no primeiro dia, mais de 200 mil civis, para o senhor Truman testar a nova arma. Não é uma afirmativa descabida, não, porque Hiroshima foi explodida no dia 6 de agosto de 1945 e Nagasaki, dia 9. Mesmo que possa se argumentar pela necessidade de liquidar Hiroshima, o que dizer de Nagasaki? Que país resistiria depois de Hiroshima? A resposta é simples: a bomba de Hiroshima, carinhosamente batizada de Little Boy, era de urânio, e a de Nagasaki, Fat Man, de plutônio. Vá que o plutônio não fosse tão bom quanto o urânio, né?

Aí eu me pergunto, não numa cognição sumária, mas numa conta sumária: o que são os cem assassinatos atribuídos a Capone perto da ordem de Truman?

Se dois mil civis são poucos, vamos adiante. Escorado numa mentira, Bush filho invadiu o Iraque para ajudar empresários amigos do petróleo, construção, fábrica de armas e demais mumunhas. Se isso tivesse sido feito por um gângster, falaríamos de uma quadrilha gananciosa e de um massacre. Como foi pelo governo americano, falamos em política. E o saldo dessa brincadeira? Mais de dois milhões de mortos, a maioria civis. Mas ninguém foi ofendido por ter apertado a mão de Truman ou de Bush, como Chico Buarque e Letícia Sabatella o foram por apoiarem Lula e Dilma.

Moral da história: ou a erudição de Augusto Sousa é tipo Wikipédia ou ele pinta Capone pior do que é porque precisa dar um peso extra à ligação que faz com Lula. Em discussões, esse truque é dos mais velhos. Dá um tédio.

Vamos abrir novas aspas pra Augusto Sousa: “Enquanto a polícia tentava prendê-lo, o gangster (sic) cultivava grandes amizades no meio artístico, de cantores a personalidades do cinema como Charles Chaplin. Al Capone era um bandido amado por grande parte da cultura, da imprensa, da política, da igreja e da justiça”.

“Enquanto a polícia tentava prendê-lo” – dito assim, parece que a instituição toda estava atrás de Capone. Não é verdade. Apenas alguns policiais queriam prendê-lo. O resto recebia seu salário, como juízes e políticos. Jornalista também, provavelmente, já que se trata de uma classe barata.

Acontece que Capone, astuto e vaidoso, além dos subornos de praxe, botou dinheiro na caridade para garantir simpatia. É mais do que vários políticos corruptos que ele mantinha fizeram. Imagina se o bando de pobres que comia a famosa sopa de galinha perdia o sono pensando se o gesto de Capone era por bondade ou astúcia. O moralismo funciona em preto e branco, mas a realidade é mais colorida e mais suja e mais desencaixada. A realidade é pau puro, meu bem. Você tem o estomago fraco? Então tome cuidado e um Dramin.

Capone era amado por parte da igreja? Madre Teresa de Calcutá era amada por vários criminosos que lhe davam dinheiro para suas obras de caridade mais do que discutíveis (vão pesquisar, seus preguiçosos. Há inclusive documentários sobre as barbaridades cometidas no hospital da santa). Madre Teresa não só aceitou muito dinheiro sujo como defendeu os criminosos que o deram. Como a gente classifica isso? É mais fácil ficar ao lado de Madre Teresa?

Novas aspas para o Augusto Sousa: “Lula também conseguiu corromper grande parte da imprensa, da política, da igreja, da justiça e da cultura. Foi eleito uma das pessoas mais importantes do mundo. Chico Buarque o ama”.

Dizer que Lula corrompeu até a vó do Badanha é fácil, mas cadê as provas? Lula foi atacado violenta e sistematicamente pela imprensa antes de ser eleito, durante a presidência e continua sendo atacado até hoje ou mais ainda hoje. Disseram e dizem dele as coisas mais grotescas, em geral nas manchetes e capas, porque no corpo das matérias as acusações se diluem em desconversa. Por que será? Eu me pergunto: se Lula é o criminoso milionário que pintam, o que ele faz morando na mesma casa que tinha antes? Por que não comprou um castelo no sul da França e deu uma banana para o Brasil? Que merda de criminoso é esse que ganha uma fortuna, mas não tem nenhum filho na lista da Forbes? José Serra, que diz que não tem onde cair morto, pois nunca passou de um funcionário público assalariado, tem uma filha na lista da Forbes. Como? Uma coisa é certa, não foi ganhando na loteria.

Se Lula corrompeu a justiça, como se explica que seus inimigos políticos são poupados e ele seja bombardeado toda semana com acusações cheias de convicção e falta de provas? Se a justiça está na mão dele, por que o doutor Sérgio Moro encerrou o caso Banestado, onde mais de cem bilhões desviados na privataria comandada por FHC sumiram em paraísos fiscais? Se o Lula é o rei da cocada preta judiciária, como se explica que o Serra tenha dezoito processos por corrupção trancados por mais de dez anos por Gilmar Mendes? Ou por que Aécio, que tem o rabo preso em Furnas, ou o Temer, que tem o rabo preso no Porto de Santos e vários outros lugares, estão numa boa? Ou Eduardo Cunha, livre ainda por sinal, que foi posto na roda pela justiça suíça, não pelos paladinos de Curitiba? Terá Lula corrompido o judiciário suíço?

Por que Lula foi eleito uma das pessoas mais influentes do mundo? Com certeza não foi por vender bebida durante a lei seca como Capone, ou vender os bens públicos a troco de banana como FHC, mas ter sido, com Getúlio Vargas, o único político a fazer alguma coisa pelo populacho e ter posto o país no mapa mundial. Ou Lula não fez isso e todas as universidades que lhe deram título de doutor honoris causa tomaram um chazinho de cogumelo?

Imagino a dureza que é para certa classe média, pra elite, pro FHC, homem de uma vaidade monstruosa, cheio dos diplomas, terem de engolir esses títulos, o prestígio internacional de Lula, afinal o carinha mal sabe assinar o nome. Como que nenhum dos paus mandados da oligarquia conseguiu nem chegar perto disso? Pela lógica dos Augustos Sousa da vida, isso é um escândalo, a pane da lógica aristotélica. É isso: o crime de Lula – o crime imperdoável para certa classe média que segura a bandeira da elite sem levar nada fora as migalhas, às vezes nem isso – é que ele foi mais inteligente e mais eficaz que os velhos políticos diplomados.

Chico Buarque ama Lula – Augusto Sousa diz isso para que lembremos que Chaplin admirava Capone. Mas Lula, ao contrário de Capone, não mandou matar ninguém. Não, não, ele tirou quarenta milhões de pessoas da miséria absoluta. Lula pode ser vaidoso, pode ter cometido uma enfiada de erros, o que quiserem, mas esses quarenta milhões de pessoas não podem ser apagados com borracha ou com a tecla de delete. Qualquer cognição sumária pode concluir isso. Trata-se de um fato, não de convicção. Mas, claro, claro, as pessoas leem boatos no Facebook e juram que se informam. Eu, se fosse chegado a dar conselhos, sugeriria a essas pessoas alguns livros de história e sociologia para se saber quem são os responsáveis pelo descalabro que esse país é. Está mais do que na hora de parar de culpar as vítimas.

Aspas finais ao Sousa: “Nada parecia ameaçar Lula e Dilma até seus opositores se darem conta de que poderiam desmantelar a rede criminosa petista enquadrando a presidente por um crime menor: Fraude fiscal. Al Capone foi preso. Dilma foi afastada. Lula e muitos outros serão”.

É sintomático: Souza fala em opositores, o que dá alguma dignidade a esses fulanos. Por que não nomeia os opositores? Por que não explica quem são eles? A maioria esmagadora desses opositores é de corruptos históricos. Mas então Sousa teria de começar sua frase mais ou menos assim: “Nada parecia ameaçar Lula e Dilma até que a rede criminosa formada por PMDB, DEM e PSDB, mais outros bandidos miúdos, se dar conta”.

É sintomático também que, ao falar em “rede criminosa petista”, Sousa esqueça que a grande maioria dos beneficiários dos crimes investigados não seja do PT e esqueça que os corruptores, que são os que ganharam infinitamente mais, não são de partido nenhum, ou são do partido dos super-ricos apenas. Sousa também não lembra que esses corruptores ganharam uma condenação brutal: pagar uma multa ridícula, botar uma tornozeleira que terão de usar por um ou dois anos à beira da piscina e se dedicar ao esporte de gastar o que roubaram por décadas. Também não lembra o que uma ministra do Supremo disse ao condenar Genuíno: não há provas contra você, mas condeno porque a literatura jurídica me permite. Na verdade, a interpretação que ela faz dessa literatura, já que no caso de outros réus a sentença foi contrária.

Não sou apenas eu que me preocupo com acusações sem provas. Li análises de inúmeros advogados – gente que nem é do PT, como eu aliás não sou – demonstrando o amontoado de fogos fátuos esgrimidos por policiais, procuradores e juízes. Lula vem sendo investigado há mais de duas décadas – ele e a família. Se tivessem encontrado uma unha encravada que fosse, Lula já teria dançado. Porque ele não recebe a colher de chá que recebem tucanos de plumagem rutilante.

O que é comparar a história de Lula com a de Al Capone? Indigência intelectual aguda? Desinformação galopante? Adoção de técnicas de jornalismo de guerra? Nenhuma das opções me parece lisonjeira.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.