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Versado em infortúnios

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“Sou Don Quixote e minha profissão é cavaleiro andante. Minhas leis são desfazer coisas tortas, fazer o bem e evitar o mal. Fujo da vida regalada, da ambição, da hipocrisia e busco minha gloria pelo caminho mais estreito e difícil.”

(Miguel de Cervantes Saavedra)

Há 400 anos, uma frase dava início a um dos monumentos da literatura universal: “Em uma aldeia de La Mancha, de cujo nome não quero me lembrar…”. Ao mesmo tempo, lançava um enigma que até hoje desafia respostas – qual foi a aldeia de onde partiu o famoso cavaleiro de triste figura? O que se sabe é que Don Miguel de Cervantes cultivava mistérios e segredos em seus escritos – e também em sua vida. Até hoje, não se conhece a data de seu nascimento nem o local onde está sepultado.

Sua obra maior, ‘Don Quijote de la Mancha’ esconde dezenas de alusões e aforismos que os literatos há anos tentam entender. Quando foi confrontado sobre a razão de ocultar o nome da aldeia, brincava:

“Assim, as aldeias de La Mancha vão disputar entre si,

como as cidades da Grécia disputaram ser o berço de Homero.”

É intrigante imaginar como Cervantes mentalizou o livro que, depois de fazer sucesso com a primeira parte, em 1605, esperou dez anos para ganhar uma continuação. Finalmente, se consagrou como o fundador dos romances ocidentais modernos, mesmo tendo sido escrito por um autodidata, poeta menor e dramaturgo subestimado por seus rivais.

Aos 22 anos, Cervantes inicia uma vida de aventuras. Após um duelo mal explicado, foge para a Itália. Participa da batalha de Lepanto, onde é ferido na mão esquerda e fica conhecido como ‘O manco de Lepanto’. Capturado por piratas otomanos, passa 3 anos preso em Argel. Solto mediante resgate, vai para Lisboa, onde se encanta com a cidade e com os lisboetas, que descreve como ‘agradáveis, liberais e apaixonados’. A formosura das mulheres lhe causa admiração e efusivos comentários:

“Para festas, Milão, para amores, Lusitânia.”

De volta para a Espanha, passa anos percorrendo aldeias da Andaluzia como agente do tesouro real. Em 1585, escreve seu primeiro livro de ficção, La Galatea, uma novela pastoral, mas escrita com elegância e estilo.

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Finalmente, em 1605, publica a primeira parte de El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha, onde não se furta de fazer uma sátira de si mesmo. Em uma passagem, o padre, com La Galatea nas mãos, ironiza:

“Há muitos anos que esse tal de Cervantes é grande amigo meu,

e sei que é mais versado em infortúnios que em versos.”

Com certeza, se referia aos tempos em que perambulou por Andaluzia e La Mancha, quando se inspirou para criar as estórias do fidalgo Dom Quixote e seu escudeiro Sancho Panza. Mas os escritos de Cervantes não revelam muito das terras e aldeias que ele conheceu e onde viveu.

Fala de moinhos de vento, sem dar sua localização. Descreve episódios em Serra Morena, El Toboso, Caverna de Montesinos, Lagoas de Ruidera e até o Rio Ebro e Barcelona. Mas, sobre a tal aldeia de La Mancha onde tudo começou, o enigma permanece. Os estudiosos até calcularam as passadas do cavalo Rocinante para traçar os caminhos de D. Quixote. As melhores apostas indicam Argamasilla de Alba ou Mota del Cuervo, próxima de El Toboso. Quem tentar refazer hoje os caminhos do Ingenioso Hidalgo, não encontrará gigantes nem moinhos de vento, mas prosaicas planuras manchegas, pastores de cabras, povoados atemporais e estradas vazias no calor da hora da siesta.

O viajante mais dedicado poderá tentar ir até El Toboso, em busca de uma improvável Dulcineia. O lugar não mudou – continua a pequena e esquecida aldeia provinciana. No livro, era quase meia-noite quando o Cavaleiro e seu Escudeiro entraram na vila:

“- Não se ouvia nada mais, além de latidos de cachorros, que ensurdeciam Don Quixote e perturbavam o coração de Sancho.”

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Don Quixote de La Mancha foi impresso em Madrid em 1605 e a segunda parte apareceu em 1615. O livro não fez de Cervantes um homem rico, mas o sucesso de vendas soprou sobre ele uma fama imediata. Entre as duas publicações, escreve novelas exemplares, um conjunto de doze narrativas, seguido de Viagem de Parnaso e oito comédias e oito entremezes. No entanto, sua peça mais conhecida, A Numancia, iria permanecer inédita até o século XVIII.

Miguel de Cervantes faleceu no dia 23 de abril de 1616, na mesma data de morte de William Shakespeare. Conforme seu desejo, foi sepultado na igreja do Convento de Las Trinitarias Descalzas, em Madrid. No final do século XVII, construiu-se uma nova igreja e seus restos mortais foram transferidos, mas os registros não revelam o novo local de sua sepultura. Cervantes ainda nos legou mais um enigma – das dezenas de estátuas e retratos, nenhum é autêntico. O único retrato reconhecido pelos biógrafos é a pintura a óleo exposta na Real Academia de Espanha. Foi pintado por um amigo, Juan de Jáuregui, mas o próprio Miguel de Cervantes, no prólogo das Novelas Exemplares, afirma que o retrato não é dele.

Então, qual seria o verdadeiro rosto do autor de El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha?.

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