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Campanha: Moro, o fura-teto

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Antes de entrar no assunto desta nota, gostaria de propor uma campanha: Moro, se você é honesto, devolva o que ultrapassou o teto.

Adoro contos de fadas, até recontei vários, mas deixei de acreditar em soluções mágicas logo que a infância acabou. Pra completar, conheço um pouco de História e manjo de gente – enfim, como ficcionista, manjar de gente é o meu negócio. Daí minhas suspeitas com qualquer fulano que se apresente ou seja apresentado como salvador da pátria.

Ao ver as primeiras fotos do Sérgio Moro, ainda sem saber nada sobre ele, senti que havia algo errado. Não sei exatamente o que na cara dele me levou a suspeitar de uma úlcera ou gastrite – sim, suspeitei de coisa mais grave também, mas cala-te boca. Veja bem, não se trata de seriedade pra posar pro fotógrafo. Há algo mais fechado na expressão do que mera seriedade. É meio como se o cara tivesse sentado numa tacha mas não quisesse estragar a foto, de modo que aguenta firme, me entende?

Então comecei a ler mais e mais notícias da Lava Jato. Se não me engano, a primeira foi sobre uma prisão errada. Não lembram? Baseado num vídeo de segurança de um banco, a irmã de uma suspeita foi presa como se fosse ela. Nem eram parecidas. Quando se reconheceu o erro, não deu outra: se não era a própria, então era cúmplice. A mulher levou um tempão pra ser solta e não ganhou nem desculpas.

A seguir minhas lembranças se misturam. Foi uma sucessão de não vem ao caso, quando a delação atingia Aécio Neves ou assemelhados; de convicções suprindo falta de provas; de prisões coercitivas sem que a pessoa tenha sido intimada antes; de escutas ilegais e vazamentos idem; de delatores condenados a duzentos anos de prisão hoje e na semana seguinte premiados com dois anos de prisão domiciliar, após pagar uma multa que corresponde, quando muito, a dois por cento do que haviam roubado.

Acho que a obra-prima de Moro é o doleiro Alberto Youssef. Envolvido no escândalo do Banestado, quando algo em torno de trinta bilhões de dólares (mixaria que dá várias Lava Jato) oriundos da privataria sumiram em paraísos fiscais, aceitou uma delaçãozinha premiada pro Moro, foi condenado e a seguir solto com um aviso: não se meta mais nessas mutretas porque aí a cobra vai fumar. Youssef, como se sabe, se meteu de novo. Após nova delação premiada, que no caso a Justiça devia ter negado por causa da reincidência, vai pra rua de novo com outro aviso: não se meta mais nessas mutretas porque aí a cobra vai fumar. Sei não, mas parece que essa cobra é antitabagista.

Outra obra-prima – não do Moro mas que tem seu apoio – que poderia empanar o brilho do caso Youssef é a aprovação da aceitação de provas ilícitas, desde que colhidas de boa-fé. Pra começo de conversa, como a boa-fé varia conforme o partido implicado ou se chuvisca ou faz sol em Curitiba, ia ser muito difícil diferenciá-la da má-fé. Nem vamos falar de uma Justiça que se propõe agir com os mesmos métodos dos bandidos. Ninguém, com meio neurônio, teria coragem de propor uma indecência dessas. O fato de ter sido proposta só demonstra que o Brasil é um país sério. Ou você acha que um manicômio não é sério?

Tem outras grandes obras. As testemunhas de acusação no processo contra o Lula, por exemplo. Todas, até agora, inocentaram o Lula, exatamente como se fossem testemunhas da defesa. Olha, nunca vi coisa parecida nem em comédias românticas. Moro e seus promotores devem ter alcançado um recorde. Enfim, algo bom: o Brasil cravou mais uma marca no Guines.

Outra obra sensacional é Mateus Coutinho de Sá, executivo da OAS. Moro o deixou por seis meses no xilindró. Nesse meio tempo, ele perdeu o emprego, a mulher e os amigos, e teve a reputação passada no moedor de carne jurídico-mediático tão ativo ultimamente. Aí Moro o condenou a onze anos de prisão. O processo foi pra segunda instância, e Mateus Coutinho de Sá foi inocentado. Motivos: neca de pitibiribas de provas, apesar de grandes convicções.

Paro por aqui pra não chatear. Imagino que todo mundo leu essas notícias. Duvido que alguém que se “informa” pela Globo se dê ao trabalho me ler.  Não se daria ao trabalho nem pra me xingar. Sou apenas um escriba tipo zero à esquerda.

Quando o Gilmar Mendes chuta o balde, quando atropela as regras democráticas mais básicas, quando peita seus colegas como o valentão na hora do recreio peita os mais fracos, dá pra ver o mesmo personagem nos recreios de antigamente, não? Inclusive acho que o Mendes poderia fazer papel de feitor de escravos em qualquer novela da Globo. Ele tem um jeitão, uns olhares. Nem precisaria fazer cursinho de teatro.

Mas quando o Moro banca o macho com suspeitos, tratando-os já como condenados em última instância, você sente que nos recreios ele repetia essa valentia? Tenho minhas dúvidas. Pensando nas fotos sérias, acho que, se ele não estivesse protegido por um irmão mais velho e mais forte, se comportaria de modo muito diferente. Aquilo que senti na sua expressão contraída talvez seja apenas a cara de alguém querendo parecer sério e seguro, principalmente seguro.

Agora, na foto dele todo sorridente com o Aécio, o Moro é outro homem. Nada de azedume, nada de contração. É a alegria transbordante de quem enfim está com sua turma, livre das ameaças de colegas fortões no pátio da escola. Talvez seja por isso que ele aceite abrilhantar tantos eventos tucanalhas.

Quanto à campanha, é simples: se a constituição estabelece uma coisa e você a viola, como se chama isso? Se a pessoa é um miserável, isso tem uns nomes bem feios. Se a pessoa é de classe média pra cima, isso não tem nome nenhum, tudo faz parte dos privilégios divinos herdados pelas antigas nobrezas.

Bueno, me parece que todos, nobres e plebeus, que ganham acima do teto estabelecido por lei – não interessa com que ardis –, deveriam parar imediatamente de receber essa bufunfa e devolver o que já receberam, com juros. Ou então mudem a lei: isto vale só pra nobres, isto só pra plebeus. Sabe, pra evitar confusão, não iludir gente ingênua, como tantos adolescentes.

Como o Moro e os Dallagnol da vida acham que a corrupção é o grande mal do Brasil, não a brutal desigualdade – que por sinal financia a corrupção –, e como posam de cruzados que lutarão até a morte contra esse dragão maléfico, acho que um pouco de coerência seria interessante, não é mesmo?

Em tempo: a expressão juiz fura-teto, ótima por sinal, é do Paulo Henrique Amorim. Imagino que o Amorim vai se alegrar se a espalharmos.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.

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