Elis Vive

Era uma manhã tranquila de um verão quente de 19 de janeiro de 1982 e a informação ecoou definitiva, por volta das 12h, pelos …

Era uma manhã tranquila de um verão quente de 19 de janeiro de 1982 e a informação ecoou definitiva, por volta das 12h, pelos noticiários de rádio e televisão. Calou-se a voz da melhor cantora brasileira de todos os tempos. Elis Regina Carvalho Costa foi encontrada morta no seu quarto no chão do seu apartamento no Jardim Paulista, em São Paulo. Fã de carteirinha, com quase todos os seus LPs, reportagens sobre a sua vida e sempre assistindo seus programas na televisão e ouvindo suas músicas, chorei inconsolavelmente pelo resto do dia. Contrariando meus pais, virei a noite no Auditório Araújo Viana na vigília organizada aqui em Porto Alegre pelos fãs, impossibilitados de despedir-se da cantora no seu velório no Teatro Bandeirantes, em São Paulo.
Elis Regina, gaúcha de Porto Alegre, oriunda do até então desconhecido bairro do IAPI, em 36 anos de vida, gravou 27 LPs, 14 compactos simples e seis duplos, somando uma venda total impressionante de quatro milhões de cópias, foi a melhor cantora brasileira que se tem notícia. Dona de uma voz impecável e perfeita, intérprete que colocava personalidade única nas canções de compositores conhecidos e alçava à fama nomes nunca antes comentados, cantora que brincava com as músicas, com as notas, que fazia do palco a sua casa mais confortável e que buscava sempre a perfeição. Assim era Elis. Uma mulher provocante, sedutora, perturbadora, inquieta, insatisfeita com tudo e com todos, amiga e solidária, feminista e feminina. Assim era Elis. Sempre buscando o melhor, a canção mais adequada, o tom mais acertado, o show mais espetacular, os melhores músicos. Assim era Elis.
Nesta quinta-feira, 19 de janeiro de 2017, completam-se 35 anos da morte de Elis Regina e, por mais incrível que isto possa parecer, ela continua mais viva do que nunca. A Eliscóptero ou Hélice Regina, apelidos que ganhou ao agitar os braços na interpretação da música "Arrastão", de Edu Lobo, no Festival Nacional da Musica Popular Brasileira da extinta TV Excelsior, atendendo conselho de seu amigo, o coreógrafo Lennie Dale, jamais foi esquecida. A Pimentinha, outro apelido, por ser desbocada, com gênio forte e disparando declarações corajosas e ardidas, continua tendo suas interpretações tocadas em rádios, programas de TVs, trilhas sonoras de novelas e seus discos transformados em CDs e DVDs.
O mito Elis Regina é intocável, é imbatível, é inigualável, é insuperável, é inimitável, é um mistério ainda a ser decifrado. A baixinha, de 1,54 m de altura, ficava gigante quando subia no palco. A mulher, que aparecia geniosa e briguenta, virava angelical quando sabia que alguém precisava de sua ajuda. Foi assim com vários compositores iniciantes que hospedou em seus apartamentos. Foi assim com a roqueira Rita Lee, presa por porte de maconha, em 1976, que recebeu carta e visita de Elis na prisão e depois auxílio financeiro. Até então, elas nem se conheciam, nem se falavam. No meio, comentavam, inclusive de uma suposta rivalidade entre elas. Transformaram-se em melhores amigas.
Pois eu quero te falar Elis, se você me escutar, que os meus ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não e depois de você não apareceu mais ninguém. Pois eu preciso te contar Elis, se você me escutar, que no presente a mente, o corpo é diferente e o passado é uma roupa que não nos serve mais. Pois eu necessito te confessar Elis, se você me ouvir, que peço para Nossa Senhora de Aparecida iluminar a mina escura e funda, o trem da nossa vida. E é interessante te lembrar Elis que nas águas de março, no fim do caminho, no resto de toco, um laço, um anzol, tu comemorarias 72 anos no dia 17. E quero te contar Elis que ontem de manhã quando acordei, olhei a vida e me espantei, eu tenho mais de 20 anos, e eu tenho mais de mil perguntas sem respostas.
Sabes Elis Regina, que a nossa pátria mãe gentil tem chorado muito, por Marias e Clarices e tantas outras e outros que morrem no solo do Brasil? Mas, apesar disso, a esperança dança na corda bamba de sombrinha e em cada passo dessa linha, às vezes tem se machucado. Sabes Elis Regina, que as aparências continuam enganando, aos que odeiam e aos que amam, porque o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões? Mas o amor quando traz tanta vida, que até para morrer, leva tempo demais. Porque a barra do amor é que ele é meio ermo, a barra da morte é que ela não tem meio-termo.
Fico pensando que tu deves estar numa casa no campo ai neste outro plano, onde tu podes compor muitos rocks rurais, com os amigos do peito e nada mais, onde tu podes ficar do tamanho da paz, com a certeza dos limites do corpo e nada mais. E se eu me recordar de dizer mais alguma coisa, eu pego o trem azul para falar frases que o vento vem às vezes me lembrar, coisas que ficaram muito tempo por dizer. Sabes Elis, acho que tu deves estar falando com Deus. Tu ficaste a sós, apagaste a luz, calaste a voz, encontraste a paz, folgaste os nós dos sapatos, da gravata, dos desejos, dos receios, esqueceste a data, perdeste a conta, tens as mãos vazias, a alma e o corpo nus.
Elis Vive. Em cada canção que traz a sua voz. Em cada CD ou DVD novo que aparece no mercado. Em cada cantora ou cantor que lhe homenageia com o seu repertório. Elis Vive. Essa coisa é tão bonita, ser cantora, ser artista, isso tudo é muito bom. Elis para Sempre. Elisquecível.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e segunda secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blog marcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó do canino shih tzu Dalai.

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