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Nostalgias

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“Nostalgia é amar um passado que está presente.

É uma felicidade atrasada.”

(Mario Quintana)

Ao contrário do que se acredita, o termo ‘nostalgia’ não vem do grego antigo ou do latim clássico. Foi inventado em 1688 por um estudante de medicina na Suíça, que procurava entender os motivos da melancolia profunda. Na época, era considerada como doença, semelhante à gripe e que os médicos recomendavam curar com doses de ópio, aplicação de ventosas ou, no caso de pacientes abonados, mediante uma prolongada temporada nos Alpes.

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Ainda se passaria um século antes que a nostalgia fosse diagnosticada como patologia de quem sofre com a ausência da casa paterna. Mas os médicos sofreriam um novo revés, pois o retorno aos lugares da infância não curava os pacientes – muito ao contrário, agravava suas condições.

Marcel Proust, que foi um obsessivo investigador do passado, escreveu que suas crises nostálgicas eram ligadas ao Déjá vu, um sentimento que passou a ser frequente na literatura francesa do século XX. Hoje, se diz que o fenômeno acontece quando o cérebro transmite sensações de familiaridade em relação a um lugar ou a uma pessoa, mesmo que seja um lugar onde nunca estivemos ou uma pessoa que não conhecemos.

Em alguns casos, o Déjà vu acontece com tal intensidade que ficamos convencidos que aquele momento – ou aquele lugar – foi real, quando, na verdade, nunca ocorreu. Os personagens de Marcel Proust sofrem angústias semelhantes – mas muitas vezes são conflitantes. Da mesma forma como experimentam sensações que acreditam ter vivido antes, também padecem com a nostalgia de lugares onde nunca estiveram.

Mas que servem aos devaneios na busca de algo perdido:

“ – Nós estamos divididos entre a ausência do familiar

e a premência pelo distante e estranho.

Mas, na maior parte das vezes,

a nostalgia que sentimos é por lugares onde nunca estivemos.”

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Alguns críticos enxergam em uma recente fábula de tempo de Woody Allen, (‘Meia-Noite em Paris’) a versão pop da eterna busca proustiana.

Ao emoldurar a fuga ao passado empreendida por Gil Pender (Owen Wilson), o diretor insere sua versão pessoal no discurso de um afetado intelectual, Paul:

“Nostalgia é a negação do doloroso presente.

Uma noção equivocada de que uma era dourada,

é melhor do que aquela em que vivemos;

uma falha na imaginação romântica das pessoas

que acham difícil ocupar-se do presente.”

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Usando com desembaraço o realismo mágico (já ensaiado em ‘A Rosa Púrpura do Cairo’), Woody Allen leva o aprendiz de escritor Gil a se perder nas noites douradas da Belle Époque, exatamente como um Marcel moderno em busca do passado que não existe mais. O diretor manipula o que chamam de ‘estado de suspensão da incredulidade’, no momento em que a procura de Gil encontra a nostalgia da bela Adriana (Marion Cotillard). Ela sonha em ir ainda mais longe no túnel do tempo, mas diz que “os escritores são sempre cheios de palavras”.

Adriana prefere acreditar que artistas como Pablo Picasso, Amadeo Modigliani, Paul Gauguin ou Henri de Toulouse-Laurtrec tenham as respostas para sua busca do tempo perfeito para se viver. Ela é uma personagem romântica como Gil, mas definitivamente proustiana, que acredita estar deslocada e relegada a uma época errada.

Lamentavelmente, fora do mundo de Gil e Adriana, existem cientistas a nos lembrar que o tempo é relativo e existe apenas no plano psicológico. E que vivemos em um único tempo, o tempo presente, onde devemos permanecer, enquanto lidamos com nossas limitações e frustrações.

Mas, para nossa fortuna, Woody Allen não parece acreditar nos cientistas nem no escritor William Faulkner, que certa vez anunciou:

“Não existe passado.”

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