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O bruxo e suas louras

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hitchcock

“Eu filmo assassinatos como fossem cenas de amor.

E cenas de amor, como assassinatos.”

(Alfred Hitchcock)

Os críticos de cinema tentavam antecipar os mistérios que ele criava e, quando não o conseguiam, o apelidaram de master of suspense. Alfred Joseph Hitchcock manipulava nossa imaginação e nossos mais profundos medos, enquanto se divertia imensamente. Quebrava paradigmas do cinema de suspense e tripudiava:

“Não existe terror no tiro, apenas na antecipação do tiro.”

Poucos entediam suas intrincadas dramaturgias freudianas, mas muitos o acusavam de ter obsessão por heroínas gélidas louras. Claro, nem todas eram louras, mas foram grandes musas, neuróticas e contidas.

Nos anos 30 e 40, fez desfilar uma galeria de marcantes personas, na pele das inesquecíveis Joan Fontaine, Maureen O’Hara, Alida Valli e Ingrid Bergman. Embora anglo-saxônicas no comportamento, ele as travestiu com o manto de distantes deusas gregas. Era o tempo das morenas Ruth Roman e Anne Baxter, mal ocultando sua feminilidade sexual.

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Em 1954, chega Grace Kelly, inaugurando a galeria de heroínas gélidas e inacessíveis. Praticava a aparência submissa, ao lado de monstros da masculinidade como Ray Milland, James Stewart e Cary Grant, mas não permitia que a ofuscassem, mostrando que nenhum a conquistaria para sempre.

Quando ela abandona as telas para se transformar em princesa de verdade, Hitch vai em busca de outra musa gélida para contracenar com James Stewart em O Homem que Sabia Demais. Em 1956, ele a encontra em Doris Day e através dela, elabora duas memoráveis sequencias do cinema de suspense. Inova, ao demonstrar como o som é uma escalada dramática tão poderosa como a imagem. Basta lembrar os címbalos do concerto no Albert Hall e os agudos em Que Sera, Sera, quando Doris Day faz sua voz procurar pelo filho raptado pelas salas da embaixada. Seu rosto funciona como uma tela, exibindo esgares de agonia, desespero e esperança, entremeados por sorrisos falsos.

Chega o ano de 1963, e o marco Intriga Internacional, que François Truffaut declarou ser ‘o grande Hitchcock’. E a vez de uma nova musa gélida e loura – Eva Marie Saint. Ao seu lado, Cary Grant, é um improvável herói, na pele do executivo de Madison Avenue, repetindo o caso clássico do homem errado, temperado por doses de auto ironia. Intriga Internacional tem a frenética mobilidade que Hitchcock gostava de imprimir em certos filmes: Cary Grant anda de taxi, é perseguido em Mount Rushmore, raptado em uma limousine, viaja de trem, é metralhado por um avião, rouba uma caminhoneta e se faz de morto em um carro-fúnebre. E ao final, volta ao trem para encontrar a heroína Eva Marie Saint, já despojada de sua gelidez e disponível para o romance proibido.

No mesmo ano, outra loura entra para a galeria de heroínas inacessíveis – Tippi Hedren. Em Os Pássaros, ela faz Melanie Daniels, uma Grace Kelly californiana, rica, mimada e reprimida. A seu lado, Jessica Tandy – na melhor performance do filme – vive a mãe do herói Mitch Brenner (Rod Taylor). Em contraposição à heroína loura, Hitchcock introduz mais um vértice, a morena Annie Hayworth (Suzanne Pleshette), uma professora sexy e liberada, que vive sufocada na peuena cidade pesqueira. Não por acaso, ela é sacrificada no ataque dos pássaros, enquanto a namorada e a mãe do herói sobrevivem. No ‘Cahiers du Cinéma’, François Truffaut divaga: “será que a ciumenta ex-namorada do herói tinha um estranho parentesco com as aves negras que pairam sobre Bodega Bay?”

Talvez cansado de malfeitores perfeitos (como o charmoso Robert Walker, de Pacto Sinistro e o paranoico Anthony Perkins, de Psicose), Hitch faz com que o Mal não apareça em forma humana, mas como aves que voam placidamente sobre nossas cabeças.

Mas não se furta de um toque final de sadismo. O filme termina sem o clássico The End, para deixar duas apocalípticas perguntas:

“Porque os pássaros atacaram?”

“Quando atacarão novamente?”.

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