O antídoto para corrupção está no seu antônimo

Ao estudar a prática do "favor, jeitinho e corrupção" verifica-se que no comportamento cotidiano da sociedade brasileira há uma linha cultural muito tênue entre …

Ao estudar a prática do "favor, jeitinho e corrupção" verifica-se que no comportamento cotidiano da sociedade brasileira há uma linha cultural muito tênue entre essas três lógicas. O "jeitinho brasileiro" aproxima o favor da corrupção, servindo como "ponte de acesso deturpadora" entre conceitos tão distintos.
O debate não pode perder de vista o papel do aparelho ideológico e repressivo do Estado, sendo que o "jeitinho" advém da distância entre a lei e a realidade: o axioma prevê que quanto maior for a distância ou desconhecimento da população em relação a uma lei e suas aplicações, maior será a tendência do jeitinho brasileiro.
Na prática o jeitinho é a porta de entrada para corrupção, que começa com a perspectiva de tirar vantagem pessoal, de se beneficiar com algo, a conhecida lei de Gérson que diz que "o importante é levar vantagem em tudo".
Neste momento conjectural esta rápida reflexão nos leva direto para o atual escândalo da Lava Jato, que se caracteriza como o maior escândalo de corrupção da história do Brasil. Mas este problema vai muito além da Lava Jato e tem suas bases na história e, principalmente, na cultura política da sociedade e está intrínseca no cotidiano da população.
Em 1954 Lacerda disse "somos um povo honrado governado por ladrões". Já se passou mais de meio século e a frase se mantém atual na percepção da opinião pública, tanto que nas pesquisas de opinião realizadas pelo IPO - Instituto Pesquisas de Opinião a maioria dos entrevistados se consideram honestos e a mesma maioria considera os políticos desonestos, como se os políticos fossem uma casta apartada da sociedade.
Mas a constatação mais importante é de que a descrença passa a tomar conta da população, sendo que 97% dos gaúchos não confiam em seus representantes e mais de 75% não confiam nos três poderes constituídos. A descrença se torna uma doença social que fragiliza os elos entre representantes e representados e tem várias implicações sociais.
Partindo da premissa de que "precisa piorar para melhorar" temos que rever os conceitos culturais sobre jeitinho e corrupção. Se a corrução é o mal da sociedade e da política devemos começar a reflexão e o debate pelo antônimo de corrupção. O antônimo de corrupção se caracteriza pela a integridade, a probidade, a retidão, a seriedade, a honradez, a honestidade, a honra, a dignidade, a proteção e o decoro. Além disso, o antônimo de corrupção prevê manutenção, a prevenção, a cautela e o cuidado.
A partir do antônimo da corrupção temos os princípios que devem nos reger em sociedade, o que deveríamos SER e os princípios que os políticos deveriam TER para nos representar. Se a sociedade comungar destes princípios no seu cotidiano a mesma poderá definir os propósitos, comungar valores e eleger políticos que comunguem destes mesmos princípios. Lembrando que a democracia é o princípio da maioria e que a minoria deve ser respeitada, mas não se sobrepor.
Afinal, a existência do Estado se fundamenta pelo "bem comum", pelo interesse público em detrimento do interesse pessoal. Temos que voltar ao ponto inicial dos valores da vida em sociedade e da finalidade do Estado.

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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